Não há ninguém que nunca tenha ouvido falar em Anjos. Desde nossa infância, através de livros, contos, histórias, filmes, páginas de internet… nossas fantasias e nossas bibliotecas estão povoadas de anjos, com formas mais ou menos míticas, mais ou menos familiares. Deles, portanto, temos todos uma idéia.

Mas as coisas se complicam se procurarmos saber exatamente que idéia de anjo cada um de nós tem na sua própria cabeça. Uma rápida busca no Google pode ajudar-nos a tomar uma consciência mais exata deste problema.

Com efeito, alguns chamam de “anjos” aqueles seres humanos, mais especialmente bons, providenciais, que tiveram um papel de relevância no bem estar de nossas vidas. Outros acreditam seres eles almas de defuntos, que voltaram à terra. Outros ainda falam em reencarnação. Muitas vezes, e sobretudo na literatura infantil, os anjos são apresentados como seres humanóides (ou seja, parecidos aos homens), mas com superpoderes, às vezes representados com símbolos externos (asas, trajes, armas). Filósofos idealistas verão nos anjos a encarnação de virtudes morais abstratas. Setores mais ligados ao New Age ou filosofias orientais vêem apenas nos que chamamos de “anjos” uma personificação imprópria de energias, ou forças cósmicas, imanentes na natureza, e que penetram tudo. Os ocultistas, entretanto, citam os anjos como seres estranhos, obscuros e maléficos, muito poderosos, e que vendem seus serviços aos homens em troca de almas, sacrifícios humanos e rituais de magia. Finalmente, não faltam os que alinham os anjos com aparições de OVNIs e os extra-terrestres…

Mas afinal, onde está a verdade? Que são esses famosos Anjos? E já de início, são eles bons? Serão maus? Ou seriam eles como nós, às vezes de bom humor, outras vezes emburrados, dependendo do dia, da hora, do capricho?

Não era hora de tentarmos saber um pouco mais a respeito dos Anjos?

As Sagradas Escrituras nos evocam os anjos como sendo criaturas pessoais (seres inteligentes, que saíram – como nós – das mãos de Deus) e puros espíritos (isto é, espíritos livres de matéria, como almas sem corpos). E é justamente por serem totalmente imateriais que eles nos são muito superiores.

Portanto, e já de inicio, precisamos assumir uma atitude de humildade; com efeito, Leo Trese (numa obra chamada “A fé explicada”) nos recorda que “sabemos bem pouco sobre os anjos, sobre a sua natureza íntima ou os graus de distinção que há entre eles. Nem sequer sabemos quantos são, mesmo que a Bíblia indique que seu número é muito grande. (…) Com respeito aos anjos, é como se Deus se tivesse contentado com deixar-nos vislumbrar apenas a magnificência e as maravilhas que nos aguardam no mundo para além do tempo e do espaço 1”.

Com efeito, embora São Gregório Magno afirme que “quase todas as páginas dos livros sagrados testemunham que existem anjos 2”, não encontramos nelas elementos suficientes para estabelecer por si só um corpo doutrinário completo. O próprio Pseudo-Dionísio, de quem São Tomás recolhe abundantes elementos sobre os anjos, afirma desconhecer a natureza íntima e o modo de vida das “essências supra-celestes”:

“Qual é o número e qual é a natureza das formações entre as quais se repartem as essências supra-celestes, e como suas hierarquias recebem a iniciação perfectiva, eu declaro que só o sabe exatamente seu divino Princípio iniciador(…). Pois nos é impossível de saber algo dos mistérios referentes aos espíritos supra-celestes e seus santíssimos feitos, a não ser que nos digam aquilo que (…) a Tearquia nos comunicou misteriosamente 3”.

Além de enfrentar-se ao número limitado de elementos referentes aos anjos, quem queira estudá-los encontra outra dificuldade, em certo sentido maior do que a anterior: nossa mente jamais conseguirá abarcar totalmente os anjos, por serem eles de uma natureza muito superior à nossa.

Contudo, não é impossível chegar a alguma forma de conhecimento sobre os anjos, por imperfeita e incompleta que seja. Já o dissemos, existem muitos elementos na Bíblia que nos falam dos anjos: eles são citados mais de trezentas vezes! E às vezes até detalhadamente, como no caso do Livro de Tobias, que do início ao fim trata da proteção da qual o jovem Tobias é objeto por parte do Anjo Rafael, uma base bastante completa para toda a doutrina a respeito do Anjo da Guarda.

Por outro lado, o magistério da Igreja, e muito especialmente o quarto Concílio de Latrão (realizado em 1215), declara oficialmente a existência dos anjos e algumas de suas faculdades.

Ademais, os escritos apostólicos e a doutrina dos Santos Padres nos brindam também elementos preciosos. Dentre estes, é necessário destacar três grandes pilares, que serão objeto de especial atenção ao longo do nosso estudo: Santo Agostinho, São Gregório I (Magno) e São Dionísio Areopagita. Este último é particularmente interessante: discípulo de São Paulo, converteu-se por ocasião do famoso discurso no Areópago de Atenas (At 17,22-34), e pode beneficiar-se em primeira mão dos profundos conhecimentos que o Apóstolo das Gentes recebera por revelação. Conhecimentos que, ademais, encontraram campo especialmente fértil na pessoa de Dionísio, que fora ele mesmo filósofo. Feito primeiro bispo de Atenas, deu ele origem a uma corrente de discípulos, fundamentados nos seus ensinamentos que obtiveram sua primeira forma escrita entre os séculos V e VI, e desde então chegaram até nós.

Assim, dos elementos mencionados, e com base em princípios universais da filosofia ontológica e do conceito teológico de Providência, podemos deduzir os principais elementos essenciais e operativos dos anjos.

Entretanto, vemos assim como, ao homem moderno, não se pode oferecer outra argumentação que não seja fundamentada na fé: a pura razão não acha razões demonstrativas concludentes; é preciso partir da Revelação e da exegese, e já que a mera razão não chega a comprovar os elementos encontrados, demonstrar que estes não são apenas compatíveis com a razão, mas que tornam compreensível o todo da criação. São Tomas é quem dirá que “é necessário admitir a existência de algumas criaturas incorpóreas, porque o requer a perfeição do universo 4”.

Surge, então, uma pergunta: é possível conhecer ao menos algo dos anjos, ou nos escapam completamente? A resposta é: podemos, sim, conhece-los, mas com certas limitações.

Para usar de uma comparação imprópria, o conhecimento que o homem tem do cachorro é incomparavelmente mais rico que o “conhecimento” que o cachorro tem do homem. “Omnes comparatio claudicant” (“toda comparação é falha”)… e não se pode portanto falar propriamente de “conhecimento” em seres irracionais. Contudo, a comparação pode servir-nos para dar uma idéia de quanto o conhecimento que o homem tem do anjo é distante da realidade: diz simplesmente o Pseudo-Dionísio que “estas essências nos ultrapassam 5”. O problema para homem de conhecer um ser puramente espiritual é muito bem descrito por Jean Tauler:

“Não sei bem em que termos possamos e devamos falar destes puros espíritos, pois não têm nem mãos, nem pés, nem figura, nem forma, nem matéria; ora, o espírito e o pensamento não conseguem apreender um ser que não tem nada de tudo isto; como, pois, poderíamos falar daquilo que são? Não podemos conhecê-los, o que aliás não é de espantar, já que não nos conhecemos a nós mesmos. Não conhecemos o Espírito [Deus] que nos fez homem, e de quem recebemos tudo o que nós temos de bom: como poderíamos nós, pois, conhecer estes espíritos superiores, cuja nobreza está muito acima de tudo o que podemos apresentar-nos o mundo inteiro? 5

Cabe aqui, entretanto, uma importante diferenciação. As dificuldades apresentadas aqui não fazem dos anjos um mistério, embora parecesse à primeira vista. Com efeito, chamamos de mistérios os elementos que “nos estão ocultos precisamente porque são extraordinariamente elevados, numa palavra: por seu caráter sobrenatural 7”. Com efeito, “o natural é o objeto próprio de nosso conhecimento natural, racional 8”. Como resultado, aquilo que é sobrenatural é precisamente supra-racional.

Ora, embora os anjos sejam invisíveis aos homens, e se elevem muito acima de toda a criação visível, eles não são um mistério em sentido estrito: sendo sobrenaturais em relação aos homens, não são sobrenaturais em si mesmos. O Card. Scheeben explica:

“O sobrenatural, no cristianismo, não é tanto a elevação de uma natureza criada sobre outra, mas sua elevação acima dos limites naturais da existência da criatura até a participação na natureza divina. Esta [elevação] é sobrenatural para os próprios anjos; (…) era consequentemente a graça santificante, que eles possuíam em comum com a humanidade 9”.

A conclusão é simples, mas exige equilíbrio: não sendo sobrenaturais, os anjos tampouco são para nós supra-racionais. Entretanto, eles são puros espíritos, e por isto escapam do nosso modo de conhecer, que passa necessariamente pelos sentidos, como estabeleceu Aristóteles na famosa sentença: “nihil est un intellectu quod non priusque fueris in sensu”. Para compreender os anjos, pois, devemos lançar mãos de recursos sensitivos, que nos facilitem entendê-los sob forma de paradigmas, metáforas, analogias. O Pseudo-Dionísio afirma ter sido este o modo utilizado por Deus para nos revelar o que sabemos sobre os anjos:

“[Deus] apresentou as ditas hierarquias imateriais sob variegadas figuras materiais e composições aptas a dar-lhes formas, (…) pois nosso espírito é incapaz de alçar-se a esta imitação e contemplação imaterial das hierarquias celestes a menos de ser conduzido até lá por imagens materiais convenientes à sua natureza, de modo a considerar as belezas aparentes como cópias da beleza inaparente 10”.

Daí, o Pseudo-Dionísio afirma que as Escrituras não rebaixam de nenhum modo os anjos por representá-los debaixo de antropomorfismos ou figuras míticas. Apenas, e tendo o homem como destinatário, a Revelação certifica assim o quanto estes puros espíritos escapam a tudo o que existe de material 11. Seu próprio número nos é desconhecido: “a tradição das Escrituras 12 (…) nos revela de modo claro que (…) ultrapassam a ordem débil e limitada dos números materiais em uso entre nós 13”.

Assim, aplicar figuras míticas aos anjos (homens alados, trajes de fogo…) é reconhecer aquilo que neles excede nossa própria razão, mutável e corpórea: “é possível pois forjar, para designar os seres celestes, figuras que não sejam sem harmonia com eles, (…) com a condição, como dissemos, de tomar as semelhanças ao modo de dita semelhança 14”. Isto quer dizer que devemos tomar o cuidado de não considerar como efetivamente real aquilo que é apenas um recurso imaginativo e eventualmente artístico (como quem afirmasse “como não tem asa, não pode ser Anjo!”), mas cujo objeto é apenas ajudar nossa compreensão. Isto é justamente o que o pseudo-DIONÍSIO condena como sendo “a baixeza de apegar-se ao caráter simbólico das figuras 15”.

A estas alturas, poderíamos francamente nos perguntar: não seria mais fácil, então, simplesmente descartar a existência dos anjos? Porque acreditar em seres que não posso ver… por que não têm matéria; não posso ouvir… porque não têm voz; não posso tocar… porque não têm corpo; e que apenas muito imperfeitamente posso conhecer… porque são muito superiores a mim? Que diferença há entre aquilo que não vejo, não ouço, não toco, não conheço, e aquilo que não existe? Como, portanto, conseguir acreditar na existência dos Anjos?

Não se apresse… Este é o tema do próximo artigo. Acompanhe aqui o conteúdo da matéria na íntegra, e continue conosco, até a próxima semana… “sob a proteção dos Santos Anjos”!

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— NOTAS ————————————————————
1. LEO TRESE, A fé explicada, p. 32.
2. SÃO GREGÓRIO MAGNO, Homilia 34 sobre os Evangelhos.
3. SÃO DIONÍSIO, La Hiérarchie Céleste, Chap. VI, 1.
4. SÃO TOMÁS, Suma Teológica, I, q. 50, a. 1, resp.
5. SÃO DIONÍSIO, La Hiérarchie Céleste, Chap. VIII, 1.
6. JEAN TAULER, Sermon n° 67.
7. MATTHIAS JOSEF SCHEEBEN, Los Misterios del Cristianismo, p. 45.
8. MATTHIAS JOSEF SCHEEBEN, Los Misterios del Cristianismo, p. 45.
9. MATTHIAS JOSEF SCHEEBEN, Los Misterios del Cristianismo, p. 254.
10. SÃO DIONÍSIO, La Hiérarchie Céleste, Chap. I, 3.
11. SÃO DIONÍSIO, La Hiérarchie Céleste, Chap. II, 3.
12. “Milhares e milhares o serviam, dezenas de milhares o assistiam” (Dn 7,10).
13. SÃO DIONÍSIO, La Hiérarchie Céleste, Chap. XIV, sn.
14. SÃO DIONÍSIO, La Hiérarchie Céleste, Chap. II, 4.
15. SÃO DIONÍSIO, La Hiérarchie Céleste, Chap. XVI, sn.

 

Fonte: http://anjos.blog.arautos.org/

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