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A diferença entre um morcego, uma serpente, um ovo de tartaruga e um bebê

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Os seres humanos, infelizmente, não aprendem com os animais a defender a sua própria espécie.

Redação (24/04/2022 13:40, Gaudium Press) O período histórico que vivemos, a partir do fim da década de 1950, é caracterizado como a era da informação. No entanto, nos últimos anos, com o crescimento da internet, a velocidade e a quantidade de informações que nos chegam, tornou-se praticamente impossível que elas se fixem. As informações apenas passam por nós e, acrescidas pelo avanço das fake news, nos colocam no centro da era da desinformação, o que faz de nós pessoas sem memória.

O mês de abril marca as eleições na França. Em outubro, será a vez das eleições no Brasil, época caracterizada  pelo maior bombardeio de informações e mentiras a que são submetidos os cidadãos de uma nação, em qualquer parte do mundo.

No período eleitoral, vemos de tudo: adversários que viram aliados; inimigos que se tornam parceiros mais ligados que gêmeos siameses; ateus que viram religiosos, e cristãos de frente dupla que frequentam duas religiões ao mesmo tempo – embora a prática de uma fira os princípios da outra e vice-versa  – para garantir votos entre os dois lados, já que, até num estado laico, o grosso do eleitorado ainda é cristão. E o apego ao poder é tão grande que, entre uma missa e um culto, ninguém deve estranhar se vir o mesmo candidato fazendo um ebó para que os orixás o ajudem a conseguir seus fins, porque o importante é ganhar as eleições.

A bandeira do católico

Precisamos estar atentos sempre; todavia, em épocas de eleição, devemos estar muito mais atentos do que em qualquer outro período, filtrando ao máximo tudo o que nos chega e fazendo comparações com o que os políticos dizem e depois desdizem, com a maior cara lavada, sem nenhum constrangimento. Sobretudo, precisamos ter claro que a guerra é deles – não nossa – e tomarmos cuidado para não vestir camisas e erguer bandeiras deste ou daquele candidato, entrando em atrito e desentendimentos com familiares, amigos, colegas de trabalho, vizinhos e membros das comunidades religiosas e agremiações esportivas e culturais que frequentemos.

Cristãos não devem vestir camisas vermelhas, amarelas, azuis ou multicoloridas e nem levantar bandeiras desses ou daqueles que se digladiam pelo poder, porque eles mesmos trocam de camisas o tempo todo e não têm o menor pudor em vestir a camisa de um adversário de ontem, sem nem mesmo lhe lavar o suor fétido, se aquele adversário lhe fornecer apoio em troca de vantagens. E isso todos fazem, até quem diz que não fará jamais. A única camisa que um cristão deve usar continuamente é a camisa branca da neutralidade partidária, que lhe garante a travessia do processo eleitoral, sustentando a defesa da paz.

Se tiver que levantar uma bandeira, que seja o estandarte da cruz, e não bandeiras demagógicas de A, B, ou C, porque, se você levanta a bandeira de um candidato hoje, antes de abaixá-la, ele já pode ter feito acordos e conchavos e mudado de bandeira, indo para o lado que atenda melhor as suas conveniências e o bobo será você! E os únicos “santinhos” que você deve distribuir e carregar na sua carteira são as estampas dos santos da sua devoção e, ao que consta, não há políticos entre eles.

Votar é um impositivo da lei e devemos cumprir a nossa obrigação; o próprio Cristo nos orientou: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” (Mt 22, 21). Cumpra o seu dever e se sinta honrado por isso. Mas faça a sua obrigação em silêncio; o voto é secreto para defender quem vota, então, se valha desse pequeno privilégio que a legislação lhe concede e não entre em brigas e atritos desnecessários.

Os santos que um cristão católico deve venerar estão nos altares das igrejas e o único Deus que devemos adorar está no Céu. Ter lugar de mando não apaga erros cometidos e muito menos evita que se cometam outros, até piores. Usar pele de ovelha para conquistar ovelhas não transforma um lobo no que ele não é.

Eu me entristeço quando vejo pessoas religiosas brigando por causa de política, ou vestindo a camisas de candidatos que podem agradá-las, mas, verdadeiramente, não as representam e nem se importam com elas. Pessoas religiosas precisam estar no mundo e fazer escolhas que permitam o funcionamento do mundo, contudo, não podem perder de vista que não pertencem a este mundo e, por isso, não podem se comprometer com ninguém que represente exclusivamente os interesses do mundo.

Um católico de fato não pode dizer “o meu candidato”, visto que um católico não tem candidatos. Ele deve apenas escolher um candidato para dar o seu voto, mas não fazer de nenhum candidato o seu ídolo, porque um cristão legítimo não tem ídolos, ele tem Deus.

E, sobremaneira, é importante que não nos iludamos com a existência de candidatos bons, pois só teremos governos justos quando Nosso Senhor Jesus Cristo retornar à Terra e assumir, Ele próprio, o governo de todas as nações, ou designar seus Ministros Celestes para essa função.

Há poucos dias, assisti a um vídeo de um professor de história em um canal católico e ele disse uma das coisas mais interessantes que já ouvi sobre eleições: “Entre Lúcifer, Belzebu e Satanás não significa necessariamente ter uma escolha”. Ouvi também, há muitos anos, uma excelente resposta de um homem santo que muito admiro – e que muitos dos que me leem certamente admiram também. A uma jovem que pedia um conselho sobre qual o melhor candidato nas eleições que se avizinhavam ele respondeu: “Nihil.” Embora todos desejem poder votar em um candidato bom, infelizmente, a nossa escolha recai sobre o ruim e o menos ruim.

É aí que entra o nosso exercício de memória; e eu, que há décadas sou partidário do Nihil, ou seja, nenhum, vou usar essa tribuna para lembrar uma fala recente, que o trator midiático já tentou diluir e cobrir com o manto da invisibilidade e do esquecimento, mostrando que “não é bem assim, que não foi bem isso que o candidato quis dizer”. Mas foi. Ele disse e nós, como cristãos, ainda que decidamos votar nele, não devemos esquecer.

Nesse caso específico, não foi astúcia do adversário, não foi alguém que disse que ele disse, foi ele mesmo quem falou e, como defensores da vida, nós temos a obrigação moral de não esquecer, porque, diante do Tribunal Divino, não poderemos alegar que não entendemos direito ou que nos esquecemos, porque seremos cúmplices do que vier a acontecer.

    Aborto não é uma questão de saúde pública!

Precisamos ter claro que aborto não é uma questão de saúde pública; talvez seja mais uma questão de segurança pública por se tratar de um assassinato, com o agravante de matar um ser absolutamente incapaz de se defender. No discurso em que o candidato se colocou como defensor da legalização do aborto, ele também falou coisas que são verdadeiras, sobre família e educação de filhos, mas, acusou o outro candidato, cobrando exemplos que ele também não dá.

Volto a repetir: não existe bom nessa disputa. No entanto, colocar a prática do aborto como uma questão de saúde pública e uma solução para a vida das mulheres pobres é uma questão de absoluta gravidade, mesmo que, após ficar “mal na foto”, o sujeito tenha voltado atrás. Ninguém muda as suas convicções; pode fazer de conta que muda para angariar votos, mas, uma vez no poder, agirá em conformidade com aquilo que acredita.

Sim, mulheres pobres morrem fazendo aborto em clínicas clandestinas, porém, ricas ou pobres, também podem morrer ao fazê-lo em hospitais onde a prática é legal. Exemplo disso é a morte de uma jovem argentina de 23 anos. María del Valle González López morreu no dia 11 de abril de 2021, quando foi submetida a um aborto legal em um hospital público, na Argentina. O fato voltou aos noticiários nos últimos dias devido à autorização da investigação do caso pela Justiça argentina.

Um irmão da jovem declarou que, assim como os familiares, ela era pró-vida, entretanto, mudou de opinião ao entrar na universidade, quando se tornou ativista e passou a defender a legalização do aborto no país, na posição de Presidente da Juventude Radical de La Paz da Província de Mendoza.

Legal ou ilegal, o aborto mata igual!

Participando de uma caravana com o slogan “Legal ou ilegal, o aborto mata igual”, a mãe da jovem lamentou: “Eu perdi minha filha e meu neto por causa de um aborto seguro, legal e gratuito, porque minha filha acreditava na segurança, no legal e no gratuito. E não há segurança, não pode e não deve ser legal, e não é grátis porque se paga com a vida”.

E este é apenas um exemplo entre muitos. Legalizar ou descriminalizar a prática do aborto não diminui esse delito. Só há uma maneira legal, segura e conforme à vontade de Deus no que concerne a não ter filhos: manter a castidade e a pureza. Qualquer coisa diferente disso é usurpação do direito à vida e desobediência às Leis de Deus.

Na prática de um aborto, seja legal ou clandestino, numa clínica sofisticada, no silêncio do lar ou numa “fazedora de anjinhos”, sempre haverá duas mortes, a do feto e a da mãe. O filho, indefeso, sofrerá a morte física e a mãe, a morte espiritual. Falem os padres sobre o que lhes chega aos confessionários a respeito do estrago feito nas almas das mulheres que praticaram aborto. Falem os psicólogos sobre o desequilíbrio mental de suas clientes que abortaram. É uma marca que não se apaga, que fica colada no corpo, na mente e no espírito da criatura que a pratica.

Os bebês, os morcegos e os ovos de tartaruga

Até aqui, pode parecer que este artigo não condiz com o título que lhe foi atribuído; vamos a isso. Em dezembro de 2005, o jurista Ives Gandra Martins escreveu um artigo intitulado “O Projeto Tamar” no qual discorre sobre a Lei de Crimes Ambientais, fazendo uma comparação entre a discrepância existente entre a defesa da legalização do aborto e a defesa da flora e da fauna em nosso país, onde “quem destruir um único ovo de tartaruga comete crime contra a fauna e poderá ir para a cadeia”, mas matar seres humanos é visto como uma questão legal e de direito das mulheres.

Esta semana, descobri que o ruído que tenho ouvido sob o forro do meu telhado não é feito por pássaros, e sim por morcegos. E descobri também que precisarei gastar uma fortuna para a remoção segura dos intrusos visitantes e a colocação de espumas, telas e outros meios de vedação que impeça a entrada dos morcegos que, embora pareçam, não são ratos de asas, mas são mamíferos da Ordem Chiroptera, legalmente defendidos pela Lei 9.605/98 que determina que matar morcegos constitui crime ambiental. O mesmo se dá com serpentes, ovos de tartarugas e outros animais que estão sob o amparo da lei.

Assim como o Dr. Gandra, não desmereço a lei e muito menos o Projeto Tamar, que contribui para a manutenção da vida e reprodução de muitas espécies marinhas ameaçadas de extinção. São atitudes louváveis. O que talvez o Dr. Gandra não compreenda, e muito menos eu, que nem sou da área jurídica, é porque se gasta tanto dinheiro, se faz tanta campanha e se leva tão a sério a defesa de plantas e animais e se trata com tamanha banalidade a vida humana.

Recentemente, este veículo publicou um precioso artigo sobre o aborto, recomendo a quem não leu que o leia (https://gaudiumpress.org/content/todo-aborto-e-assassinato-de-um-inocente/). Fetos não são abcessos, não são tumores, unhas encravadas, não são coisas que devem se retirar de dentro de um corpo para defender a sua saúde. São seres humanos, criados por Deus dentro das leis biológicas e naturais de reprodução. Ainda nas primeiras semanas de vida, eles já têm toda a constituição física e os órgãos de um ser humano adulto. Eles têm direito à vida, possuem alma, são criados à imagem e semelhança de Deus e não há direito de liberdade de escolha que justifique o seu assassinato.

O artigo 29 da Lei de Proteção Ambiental determina pena de multa e prisão de seis meses a um ano a quem “matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória”, a quem “impedir a procriação da fauna” e a quem “modificar, danificar ou destruir ninho, abrigo ou criadouro natural”.

O artigo 32 determina punição semelhante a quem “praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados”. E, quando os maus-tratos se referirem a cães e gatos – aqueles dos quais éramos donos, nos tornamos tutores e agora “pais”, passando a viver e a gastar parte de nossos recursos em prol do seu conforto e bem-estar –  “a pena será de reclusão de dois a cinco anos, multa e proibição da guarda”.

Eu gosto de animais e tenho vários, mas, o que posso dizer sobre isso é que as tartarugas conseguem esconder seus ovos, parte dos peixes consegue nadar em fuga, morcegos e serpentes se viram muito bem sem os seres humanos, gatos arranham e cães mordem. Ou seja, por mais riscos que a atitude predatória do ser humano possa oferecer, eles foram dotados pela natureza de um sistema de defesa. E, sobretudo, nenhum deles destrói a sua própria cria, muito ao contrário, protegem-nas de todas as formas.

Entretanto, os seres humanos, infelizmente, preferem proteger cobra venenosa, morcego transmissor da raiva, inócuos ovos de tartaruga e cachorros que sofrem maus-tratos, porém, não aprendem com os animais a defender a sua própria espécie.

Imagino que cada vida que Deus cria, Ele deve regar com uma lágrima, pois sabe que aquela vida poderá não vingar e estará ameaçada por sua própria espécie, principalmente por sua mãe, que poderá escolher eliminá-la apenas para continuar ostentando a bandeira da liberdade e o direito de decidir.

Por Afonso Pessoa

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