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sábado, julho 31, 2021

Cardeal Muller se pronuncia sobre ‘Traditionis Custodes’

Há vozes que devem falar, há vozes que devem calar. Há vozes que merecem ser ouvidas. Há vozes que são muito ouvidas.

Redação (19/07/2021 15:40, Gaudium Press) Não é exagero dizer que após o impacto produzido pelo motu proprio ‘Traditionis Custodes’ – que restringe fortemente o uso do missal de 1962, também conhecido como de São Pio V, entre outras disposições – a intelectualidade católica do mundo inteiro esperava ansiosamente pelas reflexões do Cardeal Gerhard Muller, ex-prefeito da Doutrina da Fé.

Em inglês, estas já apareceram em ‘The Catholic Thing’. Delas, oferecemos uma boa parte aos leitores. Os subtítulos são da redação da Gaudium Press.

O Cardeal Muller reconhece a intenção manifestada no motu proprio de “assegurar ou restaurar a unidade da Igreja”, com a drástica restrição dos usos litúrgicos antigos, que no pensamento do Cardeal é um “condenar a Forma Extraordinária [do rito romano] à extinção no longo prazo”.

O purpurado teria desejado “uma argumentação teológica estrita e logicamente compreensível” Traditionis Custodes que acompanhava a exigência da mera obediência às suas disposições.

Expressa o Cardeal que “a unidade na confissão da Fé revelada e a celebração dos mistérios da graça nos sete sacramentos não requerem de forma alguma uma uniformidade estéril na forma litúrgica externa, como se a Igreja fosse como uma das redes hoteleiras internacionais com seu design homogêneo. A unidade dos crentes entre si se baseia na unidade em Deus através da Fé, das Esperança e do Amor e não tem nada a ver com a uniformidade na aparência, na passagem de uma formação militar ou no pensamento de grupo da era da grande tecnologia”.

“Mesmo depois do Concílio de Trento -ressalta o Cardeal-, sempre houve uma certa diversidade (musical, celebrativa, regional) na organização litúrgica das Missas. A intenção do Papa Pio V não era suprimir a variedade de ritos, mas conter os abusos que levaram a uma falta de compreensão devastadora entre os reformadores protestantes a respeito da substância do sacrifício da Missa (seu caráter sacrificial e de presença real). No Missal de Paulo VI, se rompe a homogeneização ritualística (rubricista), justamente para superar uma execução mecânica em favor de uma participação ativa interna e externa de todos os crentes em suas respectivas línguas e culturas. No entanto, a unidade do rito latino deve ser preservada mediante a mesma estrutura litúrgica básica e a orientação precisa das traduções para o original latim”.

As tentativas de ‘melhorar’ o verba domini afetam muito mais a unidade da Igreja

“A Igreja Romana não deve transferir sua responsabilidade pela unidade no culto para as Conferências Episcopais. Roma deve supervisionar a tradução dos textos normativos do Missal de Paulo VI, e inclusive dos textos bíblicos, que podem obscurecer o conteúdo da Fé. As presunções de que se pode ‘melhorar’ a verba domini (por exemplo, ‘pro multis’ – ‘para muitos’ – na consagração, ‘et ne inducas nos in tentationem’ – ‘e não nos deixeis cair em tentação’ – no Pai Nosso), contradizem a verdade da Fé e da unidade da Igreja muito mais do que celebrar a Missa segundo o Missal de João XXIII [Missal de 1962]”, expressa o Cardeal Muller.

“Naturalmente, o Papa, em sua preocupação pela unidade da Igreja na Fé revelada, deve ser plenamente apoiado quando a celebração da Santa Missa segundo o Missal de 1962 é uma expressão de resistência à autoridade do Vaticano II, quer dizer, quando a doutrina da Fé e a ética da Igreja são relativizadas ou mesmo negadas na ordem litúrgica e pastoral”, declara.

Uma Igreja que não é a ‘velha’ nem a ‘nova’

Aprofunda o Cardeal Muller no que chama de “reconhecimento incondicional do [Concílio] Vaticano II”, presente em ‘Traditionis Custodes’.

“Ninguém pode chamar-se católico se quiser voltar atrás do Vaticano II (ou de qualquer outro concílio reconhecido pelo Papa) como a época da ‘verdadeira’ Igreja ou que queira deixar para trás essa Igreja como um passo intermediário em direção a uma ‘nova Igreja’. Pode-se medir a disposição do Papa Francisco de trazer de volta à unidade os chamados “tradicionalistas” deplorados (ou seja, aqueles que se opõem ao Missal Paulo VI) com o grau de sua determinação em pôr fim aos inumeráveis abusos ‘progressistas’ da liturgia (renovada de acordo com o Vaticano II) que equivalem a blasfêmia. A paganização da liturgia católica – que em essência nada mais é do que o culto ao Deus Uno e Trino – através da mitologização da natureza, da idolatria do meio ambiente e do clima, assim como o espetáculo da Pachamama, foram bastante contraproducentes para a restauração e renovação de uma liturgia digna e ortodoxa que reflita a plenitude da Fé Católica”.

O grave ataque à unidade do ‘Caminho Sinodal’ alemão

“Ninguém pode fechar os olhos ao fato de que até os sacerdotes e leigos que celebram a Missa de acordo com a ordem do Missal de São Paulo VI são agora amplamente criticados como tradicionalistas. Os ensinamentos do Vaticano II sobre a singularidade da redenção em Cristo, a plena realização da Igreja de Cristo na Igreja Católica, a essência interior da liturgia católica como adoração de Deus e mediação da graça, Revelação e sua presença nas Escrituras e Tradição apostólica, a infalibilidade do magistério, o primado do Papa, a sacramentalidade da Igreja, a dignidade do sacerdócio, a santidade e indissolubilidade do matrimônio, tudo isto está sendo hereticamente negado em aberta contradição com o Vaticano II pela maioria dos Bispos alemães e funcionários leigos (embora disfarçados com frases pastorais)”.

Do acima exposto, o Cardeal Muller dá vários exemplos:

“Apesar de todo o aparente entusiasmo que expressam pelo Papa Francisco, estão negando categoricamente a autoridade conferida por Cristo como sucessor de Pedro. O documento da Congregação para a Doutrina da Fé sobre a impossibilidade de legitimar os contatos sexuais extraconjugais e do mesmo sexo através de uma bênção é ridicularizado por bispos, sacerdotes e teólogos alemães (e não apenas alemães) como simplesmente a opinião de funcionários pouco qualificados da cúria. Aqui temos uma ameaça à unidade da Igreja na Fé revelada, que recorda do tamanho da secessão protestante de Roma no século XVI. Dada a desproporção entre a resposta relativamente modesta aos ataques massivos à unidade da Igreja no ‘Caminho Sínodo’ alemão (assim como em outras pseudo-reformas) e a severa disciplina minoritária do antigo ritual, me vem à mente a imagem do rebelde corpo de bombeiros, que, em vez de salvar a casa em chamas, primeiro salva o pequeno celeiro ao lado”.

Às vezes, as ovelhas não recebem carícias, mas cajado

“Sem a menor empatia, se ignoram os sentimentos religiosos dos (muitas vezes jovens) participantes nas Missas segundo o Missal João XXIII. (1962) Em vez de apreciar o cheiro das ovelhas, o pastor aqui as golpeia com força com seu cajado. Também parece simplesmente injusto abolir as celebrações do rito ‘antigo’ só porque atrai algumas pessoas problemáticas: abusus non tollit usum ”, expressa o Cardeal Muller, recordando o antigo provérbio latino.

O purpurado alemão recorda que a fórmula repetida em ‘Traditionis Custodes’, lex orandi-lex credendi (Regra de oração-Regra de Fé), refere-se “à substância dos sacramentos (em sinais e palavras), mas não ao rito litúrgico, do qual houve vários (com diferentes variantes) na era patrística. Não se pode simplesmente declarar que o último missal é a única norma válida da Fé católica sem distinguir entre a ‘parte que é imutável em virtude da instituição divina e as partes que estão sujeitas a mudanças’. (Sacrosanctum Concilium 21). Os ritos litúrgicos mutáveis ​​não representam uma Fé diferente, mas antes testemunham da única e mesma Fé apostólica da Igreja em suas diferentes expressões.

No missal de 1962 está também “a substância” da Eucaristia de Cristo

“A carta do Papa confirma que permite a celebração de acordo com a forma anterior, sob certas condições. Assinala com razão a centralidade do canon romano no Missal mais recente como o coração do rito romano. Isto garante a continuidade crucial da liturgia romana em sua essência, desenvolvimento orgânico e unidade interior. Sem dúvida, espera-se que os amantes da liturgia antiga reconheçam a liturgia renovada; assim como os adeptos do Missal Paulo VI também devem confessar que a Missa segundo o Missal de João XXIII é uma liturgia católica verdadeira e válida, ou seja, contém a substância da Eucaristia instituída por Cristo e, portanto, existe e pode ser apenas ‘a única Missa de todos os tempos’”.

“Um pouco mais de conhecimento da dogmática católica e da história da liturgia poderia combater a desafortunada formação de partidos contrários e também salvar os Bispos da tentação de agir de forma autoritária, sem amor e de mente estreita contra os partidários da ‘antiga’ missa”. Os bispos são nomeados pastores pelo Espírito Santo: ‘Vigiai a vós mesmos e a todo o rebanho do qual o Espírito Santo os constituiu custódios. Sejam pastores da Igreja de Deus, que ele comprou com seu próprio sangue’. (Atos 20, 28) Não são simplesmente representantes de um escritório central, com oportunidades de avançar. O bom pastor pode ser reconhecido pelo fato de que se preocupa mais pela salvação das almas do que por recomendar-se a uma autoridade superior mediante um ‘bom comportamento’ servil. (1 Pedro 5, 1-4) Se a lei da não contradição ainda se aplica, não se pode logicamente punir o carreirismo na Igreja e ao mesmo tempo promover os carreiristas”.

O Cardeal Muller espera que “as Congregações para os Religioso e para o Culto Divino, com sua nova autoridade, não se embriaguem de poder e pensem que devem empreender uma campanha de destruição contra as comunidades do antigo rito, com a insensata crença de que ao fazê-lo estão prestando um serviço à Igreja e promovendo o Vaticano II”. (EPC)

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