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domingo, setembro 26, 2021

Cardeal Sarah: Bispos são guardiães da fé ou líderes políticos?

O Cardeal guineano publicou um artigo no Le Figaro, em 13 de agosto.

Redação (17/08/2021 11:18, Gaudium Press) Apesar de sua aposentadoria à frente da Congregação para Culto Divino em fevereiro passado, e de seus já longos 76 anos, o cardeal guineano Robert Sarah continua mais atual do que nunca, e há muitos que seguem atentamente as expressões de seu pensamento.

Em um recente artigo para Le Figaro (13-08-2021), o purpurado refere-se à crise do Ocidente, lembra que a Igreja é guardiã e guia da civilização, mas fundamentalmente é o canal até Jesus Cristo. Adverte que a Igreja “deve deixar de pensar em si mesma como algo suplementar ao humanismo ou à ecologia”, mostra que a credibilidade da Igreja está em seu respeito pela tradição – também litúrgica – e que os bispos devem ser guardiães da fé recebida sob pena de parecerem líderes políticos.

Eis a tradução do texto do Cardeal:

Ninguém é demais na Igreja de Deus

“A dúvida tomou conta do pensamento ocidental. Intelectuais e políticos apresentam a mesma impressão de colapso. Diante da ruptura das solidariedades e da desintegração de identidades, alguns se voltam à Igreja Católica. Solicitam que ela dê uma razão para viver junto a indivíduos que esqueceram o que os une como um só povo. Eles suplicam que ela forneça um suplemento de alma para tornar suportável a dureza fria da sociedade de consumo. Quando um sacerdote é assassinado, todos ficam sensibilizados e muitos se sentem golpeados no coração.

Mas a Igreja é capaz de responder a esses apelos? Certamente, ela já desempenhou esse papel de guardiã e transmissora da civilização. No crepúsculo do Império Romano, ela soube transmitir a chama que os bárbaros ameaçavam extinguir. Mas ela ainda tem os meios e a vontade de fazê-lo hoje?

Na essência de uma civilização há um núcleo sagrado

No fundamento de uma civilização, só pode haver uma única realidade que a supere: uma invariante sagrada. Malraux o constata com realismo: “A essência de uma civilização é o que se reúne em torno de uma religião. Nossa civilização é incapaz de construir um templo ou um túmulo. Ela será obrigada a descobrir seu valor fundamental ou ela irá se decompor.”

Sem um fundamento sagrado, as fronteiras protetoras e intransponíveis são abolidas. Um mundo inteiramente profano torna-se uma vasta extensão de areia movediça. Tudo fica tristemente aberto aos ventos da arbitrariedade. Na ausência da estabilidade de um fundamento que escapa ao homem, a paz e a alegria – sinais de uma civilização durável – são constantemente tragadas por um sentimento de precariedade. A angústia do perigo iminente é a selo de tempos bárbaros. Sem fundamento sagrado, todo laço se torna frágil e inconstante.

O que a Igreja oferece é sua fé em Jesus

Alguns pedem à Igreja Católica que desempenhe esse papel de fundamento sólido. Eles gostariam de vê-la assumir uma função social, ser um sistema coerente de valores, uma matriz cultural e estética. Mas a Igreja não tem outra realidade sagrada a oferecer do que sua fé em Jesus, Deus feito homem. Sua única finalidade é tornar possível o encontro dos homens com a pessoa de Jesus. O ensino moral e dogmático, bem como o patrimônio místico e litúrgico, são o ambiente e os meios desse encontro fundamental e sagrado. A civilização cristã nasce desse encontro. A beleza e a cultura são seus frutos.

Para atender às expectativas do mundo, a Igreja deve redescobrir o seu próprio caminho e retomar as palavras de São Paulo: “Pois, entre vós, não julguei saber coisa alguma, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado”. Ela deve cessar de se considerar como um substituto do humanismo ou da ecologia. Essas realidades, embora boas e justas, não são para ela que consequências de seu único tesouro: a fé em Jesus Cristo.

O que é sagrado para a Igreja é uma cadeia que se une a Jesus

O que é sagrado para a Igreja é, portanto, a cadeia ininterrupta que a une com certeza a Jesus. Uma cadeia de fé sem ruptura nem contradição, uma cadeia de oração e liturgia sem ruptura nem negação. Sem essa continuidade radical, que credibilidade a Igreja poderia ainda reivindicar? Na Igreja não há volta atrás, mas um desenvolvimento orgânico e contínuo que chamamos de tradição viva. O sagrado não pode ser decretado, ele é recebido de Deus e transmitido.

É sem dúvida, a razão pela qual Bento XVI pôde afirmar com autoridade:

“Na história da Liturgia há um crescimento e um progresso, mas nenhuma ruptura. O que as gerações precedentes consideraram como sagrado, permanece sagrado e grande para nós também, e não pode, de repente, ser inteiramente proibido ou mesmo considerado como nocivo. Cabe a todos nós preservar as riquezas que foram desenvolvidas na fé e na oração da Igreja, e dar-lhes o devido lugar.”

É urgente relembrar isso no momento em que alguns teólogos pretendem reabrir as guerras litúrgicas opondo o missal revisado pelo Concílio de Trento ao que está em uso desde 1970. Se a Igreja não for capaz de preservar a continuidade pacífica de seu vínculo com Cristo, ela não será capaz de oferecer ao mundo “o sagrado que une as almas”, segundo as palavras de Goethe.

A credibilidade da Igreja está em jogo

Além da querela dos ritos, é a credibilidade da Igreja que está em jogo. Se ela afirma a continuidade entre o que é comumente chamado de Missa de São Pio V e Missa de Paulo VI, então a Igreja deve ser capaz de organizar a coabitação pacífica das duas e seu enriquecimento mútuo. Se devêssemos excluir radicalmente uma em favor da outra, se devêssemos declará-las irreconciliáveis, reconheceríamos implicitamente uma ruptura e uma mudança de orientação. Mas, então, a Igreja não poderia mais oferecer ao mundo essa continuidade sagrada que é a única que pode lhe dar a paz. Ao alimentar uma guerra litúrgica em seu seio, a Igreja perde sua credibilidade e se torna surda aos apelos dos homens. A paz litúrgica é o sinal da paz que a Igreja pode trazer ao mundo.

O problema é, portanto, muito mais grave do que uma simples questão de disciplina. Se ela reivindicar uma mudança radical de sua fé ou de sua liturgia, em nome de quê a Igreja se atreveria a dirigir-se ao mundo? Sua única legitimidade é sua coerência na sua continuidade.

O Pai não deve criar desconfiança e divisão

Além disso, se os bispos, responsáveis pela coabitação e enriquecimento mútuo das duas formas litúrgicas, não exercerem sua autoridade a esse respeito, correm o risco de não aparecer mais como pastores, guardiães da fé que receberam e das ovelhas que lhes foram confiadas, mas como líderes políticos: comissários da ideologia do momento em vez de guardiães da tradição perene. Eles correm o risco de perder a confiança dos homens de boa vontade.

Um pai não pode introduzir a desconfiança e a divisão entre seus filhos fiéis. Não pode humilhar uns opondo-os aos outros. Não pode descartar alguns de seus sacerdotes. A paz e a unidade que a Igreja procura oferecer ao mundo devem ser vividas, em primeiro lugar, no seio da Igreja.

Em matéria litúrgica, nem a violência pastoral nem a ideologia partidária jamais produziram frutos de unidade. O sofrimento dos fiéis e as expectativas do mundo são grandes demais para se entrar nessas vias que não levam a lugar nenhum. Ninguém é demais na Igreja de Deus!

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