Doutor Seráfico

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São Boaventura, tornando-se Superior dos franciscanos, enfrentou graves problemas ocorridos em sua Congregação religiosa. E, na Universidade de Paris, travou árduos combates contra os que pretendiam extinguir as ordens mendicantes.

Foto: Wikipedia

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Redação (16/12/2023 09:35, Gaudium Press) São Boaventura teve tal união de alma com São Francisco de Assis, chamado “pai seráfico”, que foi considerado o segundo Fundador da Ordem dos Frades Menores. Escreveu obras nas quais demonstra seu ardente amor a Deus, fazendo-nos lembrar do primeiro coro dos Anjos. Por essas razões, São Boaventura recebeu o glorioso título de “Doutor Seráfico”.

Príncipe dos místicos

Dentre os diversos livros que redigiu, destacaremos alguns a fim de contemplarmos determinados aspectos da alma desse varão virginal.

Na Itália, visitando os conventos de sua Ordem para afervorar os monges, São Boaventura, em 1259, subiu ao Monte Alverne, onde São Francisco recebera os estigmas da Paixão de Cristo. Nesse local carregado de bênçãos, permaneceu por uma semana e escreveu “Itinerário da mente a Deus”, que “é uma das joias da literatura filosófico-teológica e mística, um dos livros mais típicos e sublimes de São Boaventura”.[1]

Essa obra, onde ele ensina como a partir das criaturas se deve chegar ao Criador, é de Teologia Mística porque move sobretudo a vontade e a sensibilidade para o amor a Deus, enquanto a Teologia especulativa impulsiona de modo especial a inteligência visando esse fim.

Afirmou Dr. Plinio Corrêa da Oliveira:

“O Catolicismo é essencialmente místico. A mística consiste nas relações íntimas do fiel com Deus, provenientes da generosidade com as quais este se oferece e da misericórdia com que Ele Se digna operar em cada alma, purificando-a e santificando-a.”[2]

Leão XIII, em 1890, declarou: “Após ter alcançado o pináculo da especulação, [São Boaventura] escreveu sobre a Teologia mística com tal perfeição que os mais capazes o consideravam o príncipe dos místicos”.[3]

Combate aos erros de Joaquim de Fiore

Em suas aulas na Universidade de Paris, São Boaventura fez claríssimas exposições sobre os mais elevados temas da Doutrina Católica. E combateu firmemente os inimigos da Igreja.

Certo dia, diante de todos os mestres e alunos, ele desferiu uma batalha contra um professor averroísta, “erguendo um grandioso monumento da verdade católica”.[4]  Averroes (1126-1198) foi um filósofo árabe que afirmava ser o mundo eterno, negava a imortalidade da alma e defendia o panteísmo.[5]

Em 1273, São Boaventura proferiu na Universidade de Paris 23 conferências sobre os seis dias da Criação – compendiadas no livro Hexaemeron , nas quais ensina “as verdades mais sublimes da Teologia especulativa e mística”,[6] a fim de formar os estudantes e premuni-los contra os erros difundidos por Joaquim de Fiore (1130-1202), abade de um mosteiro cisterciense da Calábria – Sul da Itália.

Segundo Fiore, a História se divide em três eras:  a do Pai, a do Filho e a do Espírito Santo. Esta será a “época da reconciliação dos homens e das religiões”. A Igreja hierárquica dará lugar à Igreja do Espírito, “desvinculada das velhas estruturas”.[7]

O Padre Joseph Ratzinger – futuro Bento XVI –, para obter a docência na Faculdade de Teologia de Munique, Alemanha, apresentou, em 1957, a tese intitulada “A Teologia da História de São Boaventura”.

Afirma Ratzinger que São Boaventura rejeitou o plano de implantar uma “Igreja pneumatológica e profética dos novos pobres”,[8] como pretendiam os seguidores de Joaquim.

E em nossos dias, o veneno ideológico fabricado por Fiore penetrou em setores da Igreja, como explicou Dr. Plinio Corrêa de Oliveira.

Existem “correntes de teólogos e canonistas que visam transformar a nobre e óssea rigidez da estrutura eclesiástica, como Nosso Senhor Jesus Cristo a instituiu e vinte séculos de vida religiosa que a modelaram magnificamente, num tecido cartilaginoso, mole e amorfo, de dioceses e paróquias sem circunscrições territoriais definidas, de grupos religiosos em que a firme autoridade canônica vai sendo substituída gradualmente pelo ascendente dos ‘profetas’ mais ou menos pentecostalistas, congêneres, eles mesmos, dos pajés do estruturalotribalismo, com cujas figuras acabarão por se confundir. Como também com a tribo-célula estruturalista se confundirá, necessariamente, a paróquia ou a diocese progressista-pentecostalista”.[9]

Fraticelli

“Com frequência aconteceu na Igreja que, quando se preconiza muito o ideal de pobreza, alguns exageram isso e se voltam, à maneira de protestantes, contra a pompa da Igreja.

“Assim, por exemplo, pouco depois da morte de São Francisco de Assis, alguns franciscanos deram origem à heresia chamada dos fraticelli, que era comunista, contrária à propriedade privada, a toda honra e pompa, e a todo o brilho da civilização.”[10]

Os erros de Joaquim causaram gravíssimos danos entre os franciscanos. Em 1257, São Boaventura deixara suas conferências na Universidade de Paris para assumir o cargo de Superior da Ordem dos Frades Menores.

Seu antecessor, João de Parma, fora afastado porque defendia as teses de Fiore e queria transformar a Ordem segundo a concepção desse abade. Ele liderou uma facção de franciscanos, os quais eram denominados espirituais e defendiam a “Igreja dos pobres”, anunciada por Fiore. Posteriormente, deram origem à heresia dos fraticelli.

Celestino V, eleito papa aos 85 anos de idade em julho de 1294, autorizou os espirituais a se desligarem da Ordem dos Frades Menores e fundarem outra comunidade, que passou a ser denominada fraticelli. Diversas questões surgiram e ele renunciou em 13 de dezembro desse mesmo ano.

Em 24 de dezembro de 1294, Bonifácio VIII assumiu o pontificado e anulou todas as concessões feitas por Celestino. Os fraticelli se revoltaram e declararam que Bonifácio VIII não era papa legítimo e o poder supremo da Igreja permaneceria em mãos deles, enquanto a Igreja não fosse reformada.

Alguns fraticelli afirmavam que certos atos impuros não contrariavam o Sexto Mandamento, e propugnavam a comunidade de bens, pois, diziam, a propriedade privada era “fruto do pecado e da corrupção humana”.[11]

João XXII assumiu o papado em 1316 e extinguiu a associação dos fraticelli, pois seus membros haviam caído em heresia. Como representavam perigo para a sociedade temporal, o Poder civil condenou quatro deles à fogueira e um à prisão perpétua.

Por Paulo Francisco Martos

Noções de História da Igreja


[1] VILLOSLADA, Ricardo Garcia. Historia de la Iglesia Católica – Edad Media.3. ed. Madri: BAC, 1963, v. II, p. 805.

[2] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Madre Francisca do Rio Negro e a santidade brasileira. In Dr. Plinio. São Paulo. Ano XXVI, n. 299 (fevereiro 2023), p. 22.

[3] VACANT, A.; MANGENOT, E. Dictionnaire de Théologie catholique. Paris: Letouzey et Ané. 1910, v. 2-I, coluna 980.

[4] VILLOSLADA, Ricardo Garcia. Op. cit., p. 787.

[5] Cf. VACANT, A.; MANGENOT, E. Dictionnaire de Théologie catholique. Paris: Letouzey et Ané. s/d. v. 1- II, col.  2635, 2636.

[6] Idem. 1910, v. 2-I, col. 966.

[7] Montes, Jésus Sanz. In Ratzinger, Joseph. La Teología de la Historia de San Buenaventura. Madri: Encuentro. 2. ed. 2010, p. II.

[8] Ratzinger, Joseph. Op. cit., p. 14.

[9] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Revolução e Contra-Revolução. 5. ed. São Paulo: Retornarei. 2002, p. 191-192.

[10] Idem. Deus deseja a pompa dentro da Igreja. In Dr. Plinio. Ano XXIII, n. 262 (janeiro 2020), p. 25.

[11] VACANT, A.; MANGENOT, E. Dictionnaire de Théologie catholique. Paris: Letouzey et Ané 1920, v. 6-I, col. 781.

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