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sexta-feira, abril 15, 2022

Explicação das palavras do Anjo Gabriel na Anunciação do Senhor

No dia de hoje, 25 de março, a Igreja Católica recorda em sua liturgia o momento no qual o anjo São Gabriel anuncia a Encarnação do Verbo à Nossa Senhora.

O trecho que diz “rogai por nós na hora de nossa morte” foi acrescentado durante a terrível Peste Negra que causou milhões de mortes na Europa no século XIV.

Redação (25/03/2022 06:00, Gaudium Press) Ao anunciar a Encarnação do Verbo à Virgem Maria, o Anjo São Gabriel disse: “Ave, cheia de graça”. São Bernardo, explicando tais palavras, diz que “a graça da divindade está em seu seio, a graça da caridade em seu coração, a graça da afabilidade em sua boca, a graça da misericórdia e da generosidade em suas mãos”.

E acrescenta que “Ela é verdadeiramente cheia de graça, pois de sua plenitude todos os cativos recebem redenção; os doentes, cura; os tristes, consolação; os pecadores, perdão; os justos, graça; os anjos, alegria; enfim, toda a Trindade, glória; o Filho do homem, a natureza humana”.

“O Senhor está contigo”

São Bernardo explica que estas palavras significam “contigo está o Senhor enquanto Pai, que gerou Aquele que concebeste, enquanto Espírito Santo, do qual concebeu, enquanto Filho, que se revestiu de tua carne”. Bendita entre as mulheres significa que: “acima de todas as mulheres, porque sereis mãe e virgem, e mãe de Deus”.

O anjo acrescentou: “o Senhor está contigo” por quatro razões, que do Céu resplandeceram em sua pessoa, ainda conforme São Bernardo: a santificação de Maria, a saudação angélica, a vinda do Espírito Santo, a Encarnação do Filho de Deus.

“Bendita entre todas as mulheres”

Disse também: “Bendita entre as mulheres” por quatro outros privilégios que, segundo São Bernardo, resplandeceram em sua carne: rainha das virgens (virgindade absoluta), fecundidade sem corrupção, gravidez sem incômodos, e parto sem dor.

As mulheres estavam sujeitas a uma tríplice maldição: a da desonra, a da maldição, e a do suplício. A da desonra atingia as que não concebiam, e assim Raquel dizia: “O Senhor me tirou do opróbrio em que estive”; a do pecado recaía nas que concebiam, daí o salmo dizer que “fui concebido em iniqüidade”; a do suplício afligia as parturientes, conforme está no Gênesis: “terás filhos com dor”.

Somente a Virgem Maria é bendita entre todas as mulheres, pois sua virgindade está unida à fecundidade, sua fecundidade à santidade na concepção e sua santidade à alegria no parto. Ela é cheia de graça, pelo que diz São Bernardo, por quatro razões que fulguravam em seu espírito: a devoção da humildade, o respeito ao pudor, a grandeza da fé e o martírio do seu coração.

Perturbação de Nossa Senhora

“Ao ouvir tais palavras do anjo, ficou perturbada e refletiu sobre o significado daquela saudação”. Ao ouvir o elogio, a Virgem ponderou sobre ele; afetada na sua modéstia, ficou calada; tocada no seu pudor, pensou com prudência o que significava aquela saudação.

Ela ficou perturbada pelas palavras do anjo, não pela sua aparição, porque a bem-aventurada Virgem vira anjos com freqüência, porém nunca os tinha ouvido falar daquele jeito. Pedro de Ravena comentou: “a anjo era de aparência doce mas de palavras impressionantes, daí ela o ter visto com júbilo e ouvido com apreensão”.

Segundo São Bernardo, “a perturbação que ela sentiu foi resultado de seu pudor virginal, e se ela não ficou mais perturbada isso deveu-se à força de alma, que a levou a calar e refletir, dando prova de prudência e discrição”.

“Não temas, Maria, tu encontraste a graça junto ao Senhor”

E então o anjo tranquilizou-a, dizendo: “não temas, Maria, tu encontraste a graça junto ao Senhor”. São Bernardo comenta: “encontrou graça de Deus, a paz dos homens, a destruição da morte, a reparação da vida”.

“Eis que tu conceberás e darás à luz um menino a quem chamarás Jesus, isto é, Salvador, pois Ele salvará o povo de seus pecados. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo”. Diz São Bernardo que “isso significa que aquele que é grande como Deus será também grande homem, grande doutor, grande profeta”.

Diferença das dúvidas de Maria e de Zacarias

Então Maria perguntou ao anjo: “Como será isso possível, se não conheço homem?”, isto é, se não me proponho a conhecer? Ela foi virgem de espírito, de carne e de intenção. No entanto Maria interroga; ora, quem interroga tem dúvida. Por que então ela não foi, como Zacarias, castigada pela mudez? A esse respeito Pedro de Ravena dá quatro razões:

Quem conhece os pecadores considera não apenas as palavras, mas o fundo de seus corações, julga não o que disseram, mas o que sentiam. A causa que os levou a interrogar foi diferente, e o que esperavam não eram a mesma coisa. Maria acreditou no que ia contra a natureza, Zacarias duvidou pela natureza. Ela quis saber como as coisas aconteceriam, ele negou serem possíveis as coisas que Deus queria fazer. Ele, apesar de existirem exemplos anteriores, não teve fé; ela, sem tais exemplos, a teve. Ela ficou admirada de uma virgem dar à luz, ele contestou a concepção. Portanto ela não duvida do fato, mas apenas indaga sobre seu modo e suas circunstâncias, porque como há três modos de concepção – o natural, o espiritual e o maravilhoso – ela se pergunta sob qual deles conceberia.

Cristo foi concebido do Espírito Santo

E o anjo respondeu: “o Espírito Santo virá sobre ti, e Ele mesmo te fará conceber”. Diz-se que Cristo foi concebido do Espírito Santo por quatro razões:

1. Mostrar que é pela inefável caridade divina que o Verbo de Deus se fez carne, conforme diz João: “Deus amou tanto o mundo que lhe deu seu Filho único”. Esta explicação nos é dada pelo Mestre das Sentenças.

2. Mostrar que foi uma graça concedida sem que para isso houvesse algum merecimento por parte dos homens. Essa razão é dada por Santo Agostinho.

3. Mostrar que foi por poder e obra do Espírito Santo que Ele foi concebido. Essa explicação é da autoria de Ambrósio.

4. Hugo de São Victor diz que o motivo da concepção natural é o amor do marido pela esposa, e da esposa pelo marido: “ocorreu o mesmo com a Virgem, pois o amor que ela tinha ao Espírito Santo ardia singularmente em seu coração, enquanto o amor do Espírito Santo a ela operava maravilhas em seu corpo”.

O trecho que diz “rogai por nós na hora de nossa morte” foi acrescentado durante a terrível Peste Negra que causou milhões de mortes na Europa no século XIV.

“E a virtude do Altíssimo te cobrirá com sua sombra”

Segundo a Glosa, isso quer dizer que a sombra é naturalmente formada por um corpo colocado no caminho da luz, e como a Virgem, por sua natureza humana, não podia receber a plenitude da divindade, “a virtude do Altíssimo te cobrirá com sua sombra” significa que nela a luz incorpórea da divindade assumiu a humanidade do corpo a fim de que Deus pudesse sofrer. São Bernardo parece aceitar esta explicação quando diz: “Como Deus é espírito e como na verdade somos o corpo de sua sombra, Ele veio entre nós para que por meio da carne vivificada víssemos o Verbo na carne, o sol na nuvem, a luz na lâmpada, a vela no castiçal”. São Bernardo, ainda comentando a mesma passagem, afirma:

É como se o anjo dissesse que o modo pelo qual tu conceberás Cristo do Espírito Santo será ocultado pela sombra do poder de Deus em seu asilo mais secreto, para que seja conhecido apenas por Ele e por ti. É como se o anjo dissesse: “Por que me perguntas o que saberás por experiência própria? Tu saberás, saberás, felizmente saberás, mas por intermédio daquele que ao mesmo tempo será teu professor e teu autor. Fui enviado para anunciar a concepção virginal, não para criá-la”. Aquela frase pode ainda indicar que ele a cobrirá com sua sombra, isto é, extinguirá o ardor do vício.

“Eis que tua prima Isabel concebeu um filho na velhice”

O anjo disse isso para contar que ocorrera uma grande novidade na vizinhança. Segundo São Bernardo, a concepção de Isabel foi anunciada a Maria por quatro motivos. O primeiro, aumentar sua alegria; o segundo, aperfeiçoar seu conhecimento; o terceiro; melhorar sua doutrina; o quarto, possibilitar sua misericórdia.

Sobre tudo isso, São Jerônimo disse: A gravidez da prima estéril foi anunciada a Maria para que um milagre somado a outro milagre juntasse alegria a uma outra alegria. Ou então, porque era conveniente que a Virgem soubesse pela boca de um anjo, e não pela de um homem, a novidade que devia estar sendo divulgada por toda parte, a fim de que a mãe de Deus não ficasse afastada das coisas de seu filho, não permanecesse na ignorância de acontecimentos tão próximos.

Ou ainda, porque sabendo da vinda tanto do Salvador quanto do Precursor, sabendo do momento e do encadeamento dos fatos, poderia posteriormente revelar a verdade a escritores e pregadores do evangelho. Ou, por fim, para que conhecendo a gravidez de sua prima já idosa, a jovem a pudesse ajudar, e permitir ao pequeno profeta João prestar homenagem ao Senhor, ocorrendo, diante de um milagre, um milagre ainda mais admirável.

“Eis aqui a escrava do Senhor, que se faça comigo segundo tua palavra”

Então Maria, estendendo as mãos e erguendo os olhos para o Céu, disse: “Eis aqui a escrava do Senhor, que se faça comigo segundo tua palavra”. São Bernardo explica: “Conta-se que uns receberam o Verbo de Deus no ouvido, outros na boca, outros na mão. Quanto a Maria, recebeu-a no ouvido pela saudação angélica, no coração pela fé, na boca pela confissão, na mão pelo tato, no ventre pela Encarnação, no seio pelo sustento, nos braços pela oferenda”.

“Que se faça comigo segundo tua palavra”. São Bernardo continua: “Que ele seja feito em mim não como palavra vazia e declamatória, nem como alegoria, nem como sonho imaginário, mas como inspiração silenciosa, personalidade encarnada que habita corporalmente em minhas entranhas”. Imediatamente o Filho de Deus foi concebido no seu ventre como Deus perfeito, homem perfeito e, desde o primeiro dia de sua concepção, tinha a mesma sabedoria e o mesmo poder de quando alcançou a idade de trinta anos.

“Então Maria partiu, foi para a casa de Isabel nas montanhas, e ao ouvir sua saudação João [Batista] estremeceu no ventre da mãe”. Diz a Glosa que como ele não podia fazê-lo com a língua, demonstrou por movimento sua alegria e começou assim sua função de Precursor. Ela ajudou sua prima durante três meses, até o nascimento de São João [Batista], que ela ergueu com suas mãos, como se lê no Livro dos Justos. Ao longo dos tempos Deus sempre realiza neste dia grande número de maravilhas. (EPC)

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