Francisco José, a missão austríaca e a união europeia

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O mês de novembro traz à baila fatos de relevância mundial. Entre estes, destaca-se notadamente o do falecimento do Imperador Francisco José, ocorrido em 21 de novembro de 1916; e, como decorrência – ao menos psicológica e tendencial – de sua morte, o desfazimento do Império Austro-húngaro, em fins de novembro de 1920, há 100 anos.

Recordemos, em breves traços, a personalidade deste governante e de sua missão, guia de um Império por mais de 60 anos.

Redação (22/11/2020 16:16, Gaudium Press) Eram 4 horas, a alvorada ainda não havia sido tocada, e o Imperador Francisco José, prontamente se encontrava de pé. Antes, porém, ainda ao lado de seu leito, de joelhos, dirigiu algumas preces a Deus e, de imediato, prosseguiu para a sua toilette: invariavelmente, água gelada, mesmo durante o rigoroso inverno.

Em seguida, já pronto, cobria-se com uma grossa lã para retomar o calor. Embora advertido inúmeras vezes por seus médicos, para abandonar este costume, sempre rejeitou tal conselho, inclusive na ancianidade.

Logo após, alimentava-se de um frugal café da manhã: alguns pedaços de pão e um copo de leite. Dirigia-se então, já revestido de seu uniforme militar de marechal, para iniciar suas audiências privadas.

Os visitantes encontravam-se com um personagem de rica personalidade, de alta estatura, que sempre permaneceu esbelto e, de feitio sóbrio e recatado. Os contemporâneos seus, dificilmente puderem vê-lo trajando alguma roupa social, a menos que uma viagem “incognitus” ao estrangeiro o reclamasse.

Ainda hoje, é possível admirar sua categoria, seja em fotos ou em pinturas fidedignas, trajando sua característica dólmã bien étriquée[1] e sua calça impecavelmente ajustada, além do chapéu melon.

Com efeito, sua preocupação por estar sempre com o uniforme em perfeita ordem, acompanhou-o até o fim de sua vida. A este pormenor, sempre foi de atenção extrema, rigorosa e exigente. Seria inconcebível a menor infração às regras disciplinares; pois ele era o primeiro a dar o exemplo.

Ao meio dia, pontualmente, almoçava. A refeição não deixava de ser simples e moderada, tomada em não mais de quinze minutos. Era pouco, mas era tudo.

O período vespertino, costumava ser dedicado àquelas audiências mais relevantes e solenes, estendidas até o horário do jantar. Sendo preciso fazer uso desta refeição para assuntos de caráter informal, o menu sempre era condizente com o valor do anfitrião: além de bem elaborado, vinha escrito em francês, embora as músicas de fundo viessem enunciadas num perfeito alemão.

Gestos característicos da alma admirativa

Através desses pequenos e matizados gestos, pode-se entrever notáveis qualidades do povo austríaco, especialmente reluzidas na vida de seu notável imperador. Com efeito, a Áustria sabe bem casar os bons aspectos das outras nações, obtendo para si um valor de quilate mais alto, pois à força de admirá-las, acaba haurindo muitas dessas virtudes numa capacidade de síntese formidável.

Enfim, concluída a refeição e despedidos os convidados, o Imperador dirigia-se ao salão, no qual permanecia em prosa, até por voltas das 20h, quando se encaminhava aos seus aposentos.

Estando só, lia os jornais e tomava as providências para o dia seguinte. Sempre, o emprego de seu tempo estava regrado, regido e consagrado – mesmo os minutos – para o dever, o trabalho a serviço do Estado.

O que caracterizou sua existência, a preocupação constante pela ordem, pela disciplina, pela regularidade e pelo cumprimento exímio das obrigações públicas.

No entanto, como apontam certos autores, a grande lacuna da existência desse eminente chefe de estado foi a de dedicar-se demais a uma “existência burocrática”, acompanhada de um insólito afastamento de muitas personagens de considerável relevo, o que lhe granjeou alguma antipatia, pois – sem o perceber – certa parcela do mundo que lhe era exterior, preferia um monarca mais “próximo”, mais “amigo” que “imperador”.

Talvez sua virtude e dedicação tenham sido seu grande defeito…

Sem embargo do que, o papel de um chefe de estado, como o de quem tem sob seu encargo um Império Austro-Húngaro, é assaz complicado, sendo necessário inclusive muito tino psicológico para conduzi-lo por mais de 60 anos.[2]

Política externa do Imperador Francisco José

Nesta esteira, a política internacional adotada por Francisco José também é bastante questionada: não pequeno número de historiadores prefere vê-lo um tanto isolado, alheio a muitos acontecimentos, dos quais dependeu a posição austro-húngara. Haja vista, o assassinato de um membro da família imperial, Francisco Ferdinando, sobrinho seu, fator decisivo para o estopim da 1ª Guerra Mundial.

Sem sabê-lo, ou não, Francisco José era um dos homens que guiava o timão da história de seu século.

Algo pouco comentado, mas de relevante importância, foi o carteio entre São João Bosco e o Imperador. Décadas antes da estourar a guerra de 1914, com seu singular tino profético, o salesiano alertou ao monarca que, se ele desejava cumprir a vontade divina, seria preciso “apoiar-se nas nações do norte [europeu], mas não na Prússia; estreitar as relações com a Rússia, porém não fazer aliança alguma. Associar-se com a França católica e, depois da França, com a Espanha. Seria imprescindível formar um só espírito. Uma só ação[…], sem pactuar com os inimigos do Crucificado”.[3]

Fato é que, infelizmente, o monarca não deu ouvidos a São João Bosco e o fim do Império Austro-Húngaro, em virtude do caminho oposto encetado por Francisco José, resultou na dissolução tão vergonhosa a que foram submetidos Carlos I e Zita, com a extinção do império católico mais antigo quanto tradicional. Tudo isso foi posto na balança do juízo do Habsburgo.

“Símbolo vivo da excelente civilização cristã”

Num outro viés, sendo testemunha da mudança psicológica de que fora alvo seu século, quando a ciência, a técnica e a mecânica lograram desenvolvimentos absurdos, um tanto contrafeito a esses novos ares, Francisco José não os alentava; como testificam seus próprios gestos, como o de nunca haver desejado servir-se de um telefone para quaisquer assuntos; ou ainda de ter protelado, um sem-fim de vezes, em andar de automóvel.

Enfim, como aponta certo pensador, “apesar dos seus defeitos e frivolidades, para os quais não se deve fechar os olhos, Francisco José e a Imperatriz Elizabeth – a legendária Sissi – eram, entretanto, símbolos vivos do que a Civilização Cristã havia engendrado de mais excelente. Daí terem escrito uma das páginas nas imorredouras da história austríaca”.

A universalidade da missão austríaca e a União Europeia

Se Francisco José houvesse sabido medir as consequências de sua rica personalidade, de seu alto chamado, do quilate da vocação com o qual Deus o dotara, colocando-se de joelhos e reconhecendo n’Ele a Verdadeira Grandeza, seguramente os rumos da História do Sacro Império – e a do século passado – teriam sido bem diversos: quiçá teríamos a concretização de uma sincera União Europeia, por meio de mãos tão harmonizadoras, quanto disciplinadas de um Imperador morto diante dos escombros de sua própria obra em 1916.[4] [5]

Sem exagero, e com certo viso de verdade, teria se verificado a orgulhosa divisa: A.E.I.O.U – Austriae est imperare orbi universo.

Por Bonifácio Silvestre


[1] Sem folga.

[2] Francisco José (1830-1916), Imperador da Áustria de 1848 a 1916, e Rei da Hungria de 1867 a 1916.

[3] Cf. Carta ao Imperador da Áustria Francisco José, de 24 de maio de 1873. In: SAN JUAN BOSCO. Biografia y escritos. Madrid: BAC, 2ª ed.,1967, p. 899-900.

[4] Francisco José morreu em 21 de novembro de 1916. Em fins de novembro de 1920 deu-se a dissolução do Império Austro-Húngaro.

[5] O presente artigo está baseado em dados históricos compilados pela revista francesa Historia, nº 362, jan. 1977. In: François-Joseph, por Raymond Recouly, p. 106-111. E no livro SAN JUAN BOSCO. Biografia y escritos. Madrid: BAC, 2ª ed.,1967, p. 899-900.

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