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quinta-feira, maio 6, 2021

Jesus trouxe à Terra a era da misericórdia

 De acordo com o desejo de Nosso Senhor Jesus Cristo, foi instituída a festa da Divina Misericórdia no primeiro domingo depois da Páscoa. Todos nós somos como um filho doente, que atrai sobre si as atenções do pai.

Redação (09/04/2021 11:14, Gaudium Press) No Antigo Testamento, as manifestações da onipotência de Deus tinham um caráter marcadamente justiceiro, visando incutir nas almas o temor e o respeito.

Assim se deu, por exemplo, quando foram entregues a Moisés as tábuas da Lei sobre o monte Sinai: “Na manhã do terceiro dia, houve um estrondo de trovões e de relâmpagos; uma espessa nuvem cobria a montanha e o som da trombeta soou com força. Toda a multidão que estava no acampamento tremia. […](Ex 19,16).

Para alcançar o perdão dos pecados, os homens deviam repará-los por meio de uma vida de penitência; e, com frequência, sentiam pesar sobre si, ao menos em parte, o duro castigo imposto por suas culpas.

Foi também o que aconteceu com Moisés que, por uma única infidelidade, viu fecharem-se diante de si as portas da Terra Prometida e pôde apenas contemplá-la do alto do monte Nebo (cf. Dt 32, 4852).

Circunstância semelhante é a do rei Davi, cuja falta acarretou-lhe, ao longo de seus últimos anos de vida, grandes dissabores oriundos do interior de sua própria família (cf. II Sm 15ss; I Rs 1). E cujo arrependimento exemplar o levou a compor os insuperáveis Salmos Penitenciais.

A era da misericórdia

De modo diverso, ao descer à Terra e encarnar-Se no seio virginal de Maria, quis o Filho de Deus atrair-nos pela bondade de Seu Coração: “Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo por Ele, seja salvo” (Jo 3, 17).

Por meio de exemplo de vida, conselhos e parábolas, instruiu os homens – habituados até então à lei de Talião – acerca do dever de perdoarem-se mutuamente as ofensas e se compadecerem dos males alheios.

Com o arrebatador modelo de sua conduta, ensinou a acolher os pecadores arrependidos: “Filho, perdoados te são os pecados” (Mc 2, 5); ou então: “Nem Eu te condeno. Vai e não tornes a pecar” (Jo 8, 11b).

Tudo no Salvador convidava os homens à confiança e ao abandono nas mãos da Providência, na certeza de serem acolhidos com a benignidade de um Pai ou de um Amigo.

Quando “o Verbo Se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14), começou uma nova época. Jesus fundou Sua Igreja, instituiu os sacramentos e, pela efusão de Seu Preciosíssimo Sangue, trouxe à Terra uma nova perspectiva de relações do Criador com a humanidade e dos homens entre si.

A era da Lei havia terminado. A misericórdia vencera a justiça.

Condição absoluta para a salvação da nossa alma

A misericórdia é definida por Santo Agostinho como “a compaixão do nosso coração pela miséria alheia, que nos leva a socorrê-la, se pudermos”.

Exercitar esta virtude não é dever apenas dos homens que desejam a perfeição. Pelo contrário, Jesus ordenou que todos a pratiquem, afirmando categoricamente: “Sede misericordiosos”, e propondo, a seguir, o supremo exemplo do Pai: “como também vosso Pai é misericordioso” (Lc 6, 36).

Usar de misericórdia é condição absoluta para obter o perdão dos pecados e a salvação da própria alma, como diz o Evangelho em outra passagem: “Se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará” (Mt 6, 15).

Ou seja, o cristão deve procurar ser perfeito como o é o próprio Deus, mas só atingirá este grau supremo se praticar a virtude da misericórdia.

À primeira vista, isto nos parece extremamente difícil, e até impossível. Como poderemos nós, pobres criaturas, nos assemelharmos a um Deus infinitamente superior, cujas virtudes são a própria substância de Seu Ser?

Nenhuma virtude pode ser praticada de modo estável pelo puro esforço de nossa natureza. Mas com o auxílio da graça divina tornamo-nos capazes de imitar a Deus e de sermos espelhos da perfeição que é Ele por essência.

Pela misericórdia, Deus manifesta Sua onipotência

A palavra compaixão – do latim com-passio, “padecer com” – denota certa tristeza ou sofrimento por parte daquele que se debruça sobre o miserável.

O Salmo 102 nos oferece uma belíssima síntese das disposições de Deus em relação ao pecador penitente, muito diferentes dos sentimentos de ódio e vingança comuns às almas egoístas e arredias à graça:

“O Senhor é bom e misericordioso, lento para a cólera e cheio de clemência. Ele não está sempre a repreender, nem eterno é o Seu ressentimento. Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos castiga em proporção de nossas faltas, porque tanto os céus distam da terra quanto a Sua misericórdia é grande para aqueles que O temem; tanto o oriente dista do ocidente quanto Ele afasta de nós nossos pecados” (Sl 102, 8-12).

Deus como que necessita de nossa fragilidade e miséria

A consideração da misericórdia divina deve nos encher de confiança e de enlevo para com Deus: nossos pecados, por mais graves e numerosos que sejam, não conseguirão esgotar Sua bondade ou exaurir Sua paciência.

Pelo contrário, cometida a falta, Ele o mais das vezes não envia o castigo de imediato, mas aguarda, à semelhança do pai do Filho Pródigo, na esperança de que o infeliz transviado retome o caminho da casa paterna. E quando o avista ao longe, corre-lhe ao encontro, movido de compaixão, lança-se ao seu pescoço e beija-o com ternura, sem mesmo dar ouvidos aos protestos de penitência do faltoso (cf. Lc 15, 11-24).

Infinitamente superior àquele bom pai, Deus não só usa de generosidade, retardando uma intervenção definitiva de Sua justiça, mas cria Ele mesmo as graças necessárias para estimular as consciências e converter os pecadores mais empedernidos.

Para usar uma linguagem analógica, dir-se-ia que Deus necessita de nossa fragilidade e miséria para dar vazão aos transbordamentos de bondade que brotam de suas “entranhas de misericórdia” (Lc 1, 78).

Se todos os homens fossem fiéis à graça e exímios cumpridores dos Mandamentos, sem jamais se desviar ou cair, os tesouros da misericórdia divina ficariam para sempre recolhidos nos esplendores do Padre Eterno, desconhecidos dos Anjos, ignorados pelos justos, e este aspecto tão essencial de Sua glória deixaria de brilhar na ordem da criação.

O Filho de Deus nos colocou à direita do Pai

Todos os acontecimentos são permitidos por Deus, embora nem sempre tenham partido de Sua expressa vontade.

Muitas vezes o Criador serve-Se de circunstâncias produzidas pela maldade das criaturas, para dali tirar bens maiores, nos quais refulge de modo esplêndido o poder de Sua misericórdia.

Ao longo da História, observamos essa constante: às faltas cometidas, Deus responde com requintes de clemência; aos grandes desastres provocados pela infidelidade de alguns, sucedem-se restaurações cuja beleza excede à do plano anterior; invariavelmente os desígnios de Deus se cumprem, sem que Sua glória seja manchada ou diminuída.

Tal é o caso do pecado do primeiro homem no Paraíso, cujos estigmas todos nós carregamos, e que trouxe como consequência a privação da graça e do Céu para ele e sua descendência. E qual a resposta divina?

Elevou a alturas inimagináveis a natureza humana decaída, ao enviar ao mundo o Seu Unigênito, o qual, “depois de ter realizado a purificação dos pecados, está sentado à direita da Majestade no mais alto dos céus” (Hb 1, 3b), conforme lhe fora dito: “Senta-Te à Minha direita” (Sl 109, 1).

“Desejo salvar todas as almas”

No decorrer dos séculos, não deixou o Senhor de prodigalizar manifestações de Sua misericórdia. Seria por demais extenso enumerá-las. Foram mensagens com as quais a Providência Divina quis chamar o mundo à conversão, procurando tocar os corações por meio da ternura de um Deus ébrio de amor pelas criaturas.

Bem próximo de nós, na primeira metade do século passado, Santa Maria Faustina Kowalska recebia dos lábios de Jesus o apelo que levou o Papa João Paulo II a instituir a festa da Divina Misericórdia no primeiro domingo depois da Páscoa, de acordo com o desejo expresso pelo próprio Senhor.

Disse-lhe Ele, em fevereiro de 1937: “As almas se perdem, apesar de Minha amarga Paixão. Ofereço-lhes a última tábua de salvação, ou seja, a Festa de Minha Misericórdia. Se não adorarem Minha misericórdia, morrerão por toda a eternidade. Secretária de Minha misericórdia, escreve, fala às almas desta grande misericórdia, pois está próximo o dia terrível, o dia de Minha justiça”.

Em outra ocasião, o Divino Mensageiro revelava-lhe claramente sua especial predileção pelos mais miseráveis: “Minha filha, escreve que, quanto maior é a miséria de uma alma, tanto maior é o direito que tem à Minha misericórdia e [convida] todas as almas a confiar no inconcebível abismo de Minha misericórdia, pois desejo salvá-las todas”.

Nestas comovedoras palavras discernimos o anseio de Jesus, de livrar as almas de suas fraquezas e pecados.

Todos nós somos como um filho doente que atrai sobre si as atenções do pai, que conhece suas necessidades e deseja aliviá-lo do mal; ou uma ovelha desgarrada, por amor da qual o pastor não duvida em deixar as outras noventa e nove na montanha para ir à sua procura (cf. Mt 18, 12).

Coloquemos, portanto, toda a nossa confiança no divino Médico e usemos do eficaz remédio que Ele nos oferece.

Texto extraído, com adaptações, da Revista Arautos do Evangelho n.88, abril 2009.

 

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