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Nunca houve tantos mestres e tão pouca sabedoria

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 Imaginem o fascínio de poder ter um conhecimento infinito dentro da nossa própria cabeça, num chip ou outro mecanismo ali implantado, vendo computadores e celulares se tornarem coisas do passado! Quem pode resistir a isso?

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Redação (19/08/2023 08:59, Gaudium Press) Quando uma pessoa mais velha desejava se referir ao passado, costumava dizer “antigamente”. Hoje, as coisas se sucedem e se transformam numa tal velocidade que basta dizer “há algum tempo, há pouco tempo” e já fica claro que estamos nos referindo ao passado; para alguns, próximo, para outros, longínquo. Afinal, com a atenção e os olhos postos no amanhã, o ontem pode parecer algo extremamente distante, ultrapassado e, infelizmente, sem valor.

Referindo, então, a esse tempo que passou, diremos que, em outras épocas, o conhecimento era acessível a poucos e, mesmo com a democratização do ensino, o saber dava muito trabalho, requeria muitas pesquisas em livros, enciclopédias e uma tal confiança nos professores que, bem preparados para esse ofício, o que diziam costumava ser lei. Esses preceitos procurávamos assimilar e guardar para nos servir de guia na vida, no exercício de nossa profissão e em nossas ações do dia a dia.

Um exemplo bem simplório são as quatro operações matemáticas básicas: somar, subtrair, multiplicar, dividir; sem esquecer da tabuada que, já no primeiro ano escolar, éramos obrigados a decorar, não apenas para ir bem nas provas, mas para nos virarmos na vida, para não sermos enganados num troco ou nos preços das coisas. Hoje, para que ter esse conhecimento, se basta pegar o celular, jogar na calculadora e em segundos ter o resultado?

É claro que não precisamos decorar o Teorema de Bhaskara, saber calcular bissetriz e mediatriz, saber o valor de Pi (π) ou como extrair a raiz quadrada de 8956. No entanto, não saber responder rapidamente quanto é 9 x 7 ou perder a noção de quanto é 2+2 pode ser um grande complicador em nossas vidas.

Teremos o homem híbrido?

As necessidades dos estudos são outras. Se antes os alunos eram disciplinados e induzidos ao aprendizado, agora tem-se a livre escolha e não há a necessidade de guardar muita coisa na cabeça, porque está tudo na rede, essa interminável e morbidamente obesa fonte de informações. Encontra-se praticamente tudo lá; é só “dar um Google” e a informação vem prontinha e em várias versões.

Isto não é totalmente ruim, pois, desde que as fontes sejam confiáveis, nos poupa bastante tempo e trabalho, e o conhecimento nos é oferecido de forma mais rápida e eficaz. O problema está em que já não se retém mais nada, afinal, para quê? Não está tudo lá? E o dia que, por alguma razão, não houver mais este “lá” que engloba tudo? Já falamos sobre isso aqui e muitos estudiosos sérios têm refletido e falado a respeito, embora suas vozes sejam abafadas pela tirania da rede.

Questionar o perigo de confiar tudo a uma fonte tão etérea e tão efêmera como a internet não é ser retrógrado, mas, sim, precavido. Está na nuvem, mas um dia pode chover… O formato das mídias muda, o do armazenamento de informações também. Só temos, verdadeiramente, o que está dentro de nós, o resto é vã utopia.

Tudo indica que logo mais – espero não estar aqui para ver – teremos a Inteligência Artificial implantada no cérebro humano. Imaginem o fascínio de poder ter todo esse conhecimento infinito dentro da nossa própria cabeça, num chip ou outro mecanismo ali implantado, vendo computadores e celulares se tornarem coisas do passado! Quem pode resistir a isso? E a coisa acontecerá tão rápido e tão completamente que as gerações nascidas no império do virtual nem mesmo questionarão.

Surgirá, assim, o homem híbrido, meio humano meio máquina e, com a tendência humana à acomodação, certamente acontecerá com a mente o mesmo que acontece com o corpo: uma multidão de sedentários, aumento da obesidade e das comorbidades oriundas da má alimentação e falta de exercícios físicos. Ao sedentarismo físico, juntar-se-á o sedentarismo mental e, da mesma forma que grande parte da população evita se exercitar fisicamente, muitos evitarão pensar. Não precisa, tudo estará lá, artificialmente presente dentro deste pobre homem do amanhã.

A pior escravidão

Um conceito que não me canso de repetir é que a pior escravidão é aquela que se aceita de bom grado, a escravidão consentida. Para muitos, não importam as algemas, desde que elas ofereçam um mínimo de conforto e, de preferência, tenha um aspecto atrativo.

Se hoje enfiamos qualquer tipo de lixo e veneno goela abaixo, sem nos importarmos com a qualidade ou a procedência do que comemos, desde que seja fácil, prático e saboroso, estaremos colocando, mente adentro, o que de mais tóxico possa haver e, não duvidem, o ateísmo é um dos ingredientes que encabeçará essa lista.

Além das informações de livros, artigos científicos e congêneres que são encontrados na internet, há também um boom de especialistas em todos os assuntos possíveis e imagináveis. Gurus, mestres, professores, filósofos e “sábios” de todo tipo estão ali, ensinando alguma coisa (geralmente vendendo seu conhecimento).

Pseudossábios

Há muito conteúdo bom, feito por gente séria, e este é o lado positivo da rede, a disseminação de conhecimento ao qual dificilmente acessaríamos, mas também há muitos “picaretas”, pessoas que, de uma hora para outra, viram experts e vão formando uma corrente de seguidores que levam a sério tudo o que apregoam, por mais estapafúrdio que seja. Nunca houve tantos mestres e tão pouca sabedoria!

E não é pequeno o número de pessoas que seguem (e enriquecem) esses pseudossábios, consumindo conteúdo grátis e pago com frequência cada vez maior. No entanto, não raro, mudam de um guru a outro, de um mestre a outro, porque a fonte da Verdade é uma só: límpida, cristalina, grátis e acessível a todos. Só há um Mestre e uma Verdade: “Nem vos façais chamar de mestres, porque só tendes um Mestre” (Mt 23, 10).

Observando a angústia de tantas pessoas que bebem em muitas fontes e nunca se saciam, não alcanço entender por que, para tanta gente, é tão difícil acessar a Fonte Verdadeira e seguir os preceitos nela contidos.

Mergulhando profundamente nas águas do Evangelho de Cristo, São Paulo prescreveu a necessidade de permanecermos firmes na fé: “Para que não continuemos crianças ao sabor das ondas, agitados por qualquer sopro de doutrina, ao capricho da malignidade dos homens e de seus artifícios enganadores. Mas, pela prática sincera da caridade, cresçamos em todos os sentidos, naquele que é a Cabeça, Cristo” (Ef 4, 14-15). Palavras que não constituem um novo ensinamento, mas ratificam o que Jesus ensinou: “E Jesus dizia aos judeus que nele creram: ‘Se permanecerdes na minha palavra, sereis meus verdadeiros discípulos; conhecereis a verdade e a verdade vos livrará’” (Jo 8, 31-32).

Tão simples e tão difícil! Até quando vagaremos sem rumo, enganando e deixando-nos enganar?

Por Afonso Pessoa

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