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terça-feira, junho 14, 2022

Quando Deus sai, a morte entra

A menina abraçou o pai, toda contente, e mostrou o desenho da Sagrada Família que tinha acabado de pintar. Ele pegou o papel mimeografado e perguntou, colérico, afastando a menina de seus braços: Onde você arrumou isso?  

Redação (09/12/2021 18:35, Gaudium Press) De acordo com a Organização Mundial de Saúde, o suicídio representa uma de cada cem mortes ocorridas no mundo, sendo a quarta maior causa de morte de jovens entre 15 e 29 anos.

O que a ciência diz sobre o assunto?

De acordo com a área médica, a maior parte dos suicídios está relacionada à depressão, que é definida pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) como “presença de humor triste, vazio ou irritável, acompanhado de alterações somáticas e cognitivas que afetam significativamente a capacidade de funcionamento do indivíduo”.

Caracterizada por tristeza profunda e persistente, a depressão pode afetar os pensamentos, comportamentos, sentimentos e o bem-estar, fazendo com que as pessoas acometidas por ela se sintam ansiosas, desesperadas, vazias, preocupadas, impotentes, inúteis, culpadas, irritadas, magoadas ou inquietas.

Nem todas as pessoas que sofrem de depressão se suicidam, mas, praticamente todas as pessoas que se suicidam, sofrem de depressão.

Origem da depressão

Embora seja considerada como o mal do século, ao contrário do que muitos imaginam, não se trata de uma doença nova. Inicialmente chamada de melancolia e, nos casos mais extremos, de loucura, a depressão é um distúrbio afetivo que acompanha a humanidade ao longo da sua história.

No início do século 19, o médico francês Philippe Pinel classificou a melancolia como doença e destacou a predisposição dos pacientes acometidos por ela a cometerem suicídio.

O termo depressão começou a aparecer nos dicionários médicos por volta de 1860 e, desde então, ela tem sido dividida em diversas categorias, e os tratamentos têm variado bastante, sem, no entanto, encontrar-se a cura ou conter-se a sua disseminação.

A doença da alma

Quanto mais se estuda, mais aspectos se descobrem sobre a doença, que pode envolver fatores fisiológicos, como o desequilíbrio químico do cérebro, vulnerabilidade genética, eventos estressantes da vida, uso de medicamentos, dependência de álcool e drogas, variação sazonal e outros problemas de saúde.

Não existem exames para detectar a depressão e o diagnóstico é restrito à avaliação clínica e suas limitações. Os próprios médicos admitem que, mesmo que os sintomas sejam bem descritos, enfrentam dificuldades para tratar algo que não é bem compreendido.

Embora o corpo sofra as consequências da depressão, trata-se de uma doença da alma, localizada num lugar que o bisturi e os exames laboratoriais jamais alcançarão.

Fator comum

O assunto é complexo e os profissionais da área médica, embora conheçam os sintomas que permitem o diagnóstico e as drogas usadas para tentar minimizar os seus efeitos, não têm respostas à pergunta: Por que as pessoas se matam?

Considerando a questão do suicídio, além dos sintomas que, geralmente, precedem a consumação, e que variam pouco de um indivíduo a outro, existiria um fator comum entre essas ocorrências?

Sim, existe um fator comum. E, para falar sobre ele, vou narrar um pequeno episódio da vida real. Chamarei a sua protagonista de Maria.

A inocência violentada

A menina era fascinada pelo pai, que o tinha como seu herói. Ela não devia ter mais que sete anos na tarde em que o abraçou após a chegada dele do trabalho e, toda contente, mostrou o desenho da Sagrada Família que tinha acabado de pintar. O pai pegou o papel mimeografado e perguntou, colérico, afastando a menina de seus braços: “Onde você arrumou isso?”.

A menina explicou que ganhara de uma amiguinha que estava no Catequese e, antes que o pai tivesse tempo de falar qualquer coisa, ela já emendou o pedido para que ele a matriculasse na Catequese para fazer a Primeira Comunhão.

A atitude do pai, e o ódio presente no olhar que dirigiu a ela, marcaram-na como uma tatuagem de fogo. Rasgando o papel, ele primeiro gritou com a esposa, acusando-a de deixar a filha se envolver com coisas da Igreja, sabendo que ele não admitia isso na sua casa.

Depois, vendo que a menina tremia, assustada, ele a puxou para perto de si, sentou-a em seu colo e explicou longamente que Deus era uma ilusão, uma mentira criada pelos homens e, sem considerar o vocabulário limitado da criança, citou para ela um dos mais conhecidos chavões usado por seu  ídolo, Karl Marx: A religião é o ópio do povo!

Anos mais tarde

Quando conheci a Maria, na empresa em que trabalhávamos, ela já estava perto dos 40 anos, e o estrago que a atitude do seu pai provocou tinha deixado um rastro de miséria na vida dela. Posso afirmar que, poucas vezes, conheci sofrimento maior.

Nossa identificação foi imediata, por termos uma história comum, a depressão, da qual eu conseguira sair e ela ainda estava mergulhada. Ela emendava uma licença médica à outra, então, quase não nos víamos no trabalho, mas desenvolvemos uma grande amizade, fora do ambiente profissional.

Uma alma em conflito

O primeiro presente que ela me deu foi uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Explicou que queria me dar porque sabia que eu acreditava, ela não. Ganhara a imagem de um amigo que a trouxe de Aparecida. Justificava que não tinha coragem de jogar a imagem fora por consideração ao amigo. Foi nesse dia que notei o conflito daquela pobre alma…

Para resumir, em momentos de crise mais fortes, eu tentei ajudá-la com o que tenho: a fé e a religião católica. Consegui que ela aceitasse receber a visita de um sacerdote, mas, dominada pelo espírito do mal que aprisionava a sua alma, ela tentou se colocar numa discussão filosófica com ele e convencê-lo de que Marx estava certo e Jesus errado, aliás, Jesus nem existia, era uma invenção da Igreja!

Destruiu a imagem de Nossa Senhora

Outras crises se sucederam, várias tentativas de suicídio, conversas com outros padres. Foi ela mesma que me contou sobre a doutrinação feita pelo pai. Ele já estava morto quando a conheci, mas, ainda que estivesse vivo, creio que nem ele conseguiria desfazer o mal que causou à sua própria filha, persuadindo-a a se tornar ateia como ele, numa cantilena que se repetiu durante toda a sua infância e adolescência.

A mãe, uma senhora amargurada, ainda guardava os resquícios da fé, simbolizada por uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, trazida de Portugal, com mais de um metro de altura. O marido aceitou a imagem, desde que ela a mantivesse escondida num cantinho. Depois da morte dele, ela ousou dar um lugar de destaque para a santa, colocando-a sobre um móvel na entrada da casa, ladeada por dois vasos de flor.

A imagem de Nossa Senhora era o último bastião da resistência dentro daquela casa marcada pela angústia e pelo sofrimento. Num surto, Maria a jogou no chão, quebrando-a em vários pedaços. Depois, me ligou, chorando, desesperada, dizendo que Nossa Senhora não tinha culpa. “Bem, ela nem existe!”, foi a minha resposta, porque sempre a cutuquei com vara curta para tentar trazê-la à realidade.

A única coisa que ela me disse foi: “Por favor, não fala assim!”

O resumo desse episódio foi que ela gastou uma fortuna com uma das mais renomadas restauradoras do país para refazer a imagem.

Nesse período, entrou mais um padre no enredo, mas, ela também o repeliu. Já admitia que Deus pudesse existir, mas dizia que ele era sádico e cruel, por permitir tantas injustiças sociais. A sua guerra interior era imensa.

O que pode tirar desse abismo?

No último sábado, recebi a triste notícia: Maria se suicidou. Em meio a lágrimas e soluços, a única imagem que me veio à mente foi a da menininha, correndo ao encontro do pai, com a bonita figura da Sagrada Família que acabara de colorir…

Para fechar este relato, quero dizer que o fator comum entre todas as pessoas que cometem suicídio, sejam elas ateias ou pratiquem uma religião, é a falta de Deus. Porque, quando Deus sai, a morte entra.

Se você foi contaminado pela ideologia do ateísmo, saiba que mentiram para você. E, se tem filhos, ainda que tenha caído na desgraça de não acreditar, não cometa a violência moral de tirar isso deles.

A depressão sempre existiu e, em todas as épocas, pessoas se suicidaram, porém, depois que virou moda não dar formação religiosa aos filhos e deixar que eles decidam sobre isso quando forem adultos, muitos pais estão chorando diante de uma sepultura.

O que mais pode evitar ou tirar desse abismo se não Deus?

 

Afonso Pessoa

 

 

 

 

 

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