Remédios para o diálogo inter-religioso

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Redação (07/10/2020 09:59, Gaudium Press) Os primeiros dias do mês de outubro estão marcados de eventos importantes. De um lado, recordamos datas e festas no nosso calendário; de outro, os contemporâneos tomam atitudes inesquecíveis que, por sua vez, passarão para a História.

Curiosamente – falamos aqui do âmbito eclesiástico – esses episódios têm traços comuns.

Fatos do passado e fatos do presente. Comecemos pelos mais antigos.

O primeiro acontecimento digno de nota é que no dia 8 de outubro a Igreja celebra Nossa Senhora do Bom Remédio.

A invocação nasceu entre os frades trinitários de São João da Mata. Conta a tradição que a Santíssima Virgem apareceu ao bem-aventurado tendo nas mãos um saco de dinheiro, o qual deveria ser empregado em favor dos mais necessitados: na época, os cristãos cativos nas prisões mulçumanas no norte da África e no Oriente próximo.

Em Marselha, na casa dos Trinitários, a Virgem Maria é representada sobre um trono, segurando um volumoso saco de moedas. Chama-se Nossa Senhora “do Bom Remédio”, porque em latim, os verbos “redímere” e “remediare” e os substantivos “redémptio” e “remédium”, tem um significado similar: redimir, resgatar; resgate, remédio (com o sentido de salvação, libertação). Por isso, a invocação.

O mês de outubro traz-nos ainda, no dia 7, a recordação da batalha de Lepanto; aliás, Dom João d’Áustria consagrou a esquadra cristã a Nossa Senhora do Bom Remédio. Naquelas águas, navegaram naus financiadas pelo próprio Papa, São Pio V.

Voltando ao calendário, a 4 de outubro a Igreja comemorou São Francisco de Assis, um santo do qual trataremos mais adiante.

Agora os fatos do presente. Eles são tantos e tão difíceis de tratar que mencionamos apenas a “Fratelli tutti”, inspirada, segundo se diz, no Povorello. Nas palavras do autor, a encíclica, dirigida a todo o mundo, é de cunho social, pois ela trata principalmente da “fraternidade” e da “amizade social”.

***

Dissemos no início que existe um traço comum entre estes acontecimentos passados e presentes. Qual é, afinal?

Todos esses fatos nos falam de relação entre religiões, ecumenismo e proselitismo, “fraternidade”, “amizade social” e até mesmo somas de dinheiro. Alguns protagonistas são homônimos, mas bem distintos.

O diálogo inter-religioso nunca foi questão fácil. Os próprios meios para alcançá-lo foram vários ao longo da História, como atestam os episódios mencionados acima: ora pagava-se o resgate de cativos com dinheiro; ora proclamavam, de parte a parte, guerras violentas.

Nesse diálogo apareceu também São Francisco de Assis. O Povorello viajou para o Egito e lá discorreu sobre a Fé católica diante de Malik-al-Kamil, sultão mulçumano. Narram as crônicas que o potentado teve que despedir o religioso, “porque temia se converter”. A convicção de São Francisco, sua Fé ardente, sua virtude e sua santidade foram mais loquazes que ameaças.

Hoje em dia, já não se armam esquadras. Dos cristãos que padecem em prisões nos países de maioria mulçumana, já não se fala. Aqueles mesmos, para os quais frades trinitários negociavam a liberdade, são esquecidos em nossos dias. E se aparecessem miraculosamente pelas mãos de Maria sacos de moedas para libertá-los, sabe Deus que fim teriam esses valores. É como diz a “Fratelli”: “se alguém não tem o necessário para viver com dignidade, é porque outrem se está a apropriar do que lhe é devido” (119).

Hoje, o diálogo se faz com discursos e documentos, mas não parece que algum sultão tenha prestado ouvidos a esse palavrório.

Que Nossa Senhora do Bom Remédio interceda por todos nós, especialmente por aqueles mais prejudicados pelas malsucedidas tentativas de diálogo ou de algum resgate financeiro.

Por Paulo da Cruz

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