Santo Agostinho: a glória da penitência

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No dia 28 de agosto, a Igreja celebra a memória de Santo Agostinho, bispo de Hipona, Doutor da Igreja. Sua figura memorável, sua conversão exemplar e sua obra inigualável serão sempre objetos da admiração cristã, reverente e agradecida.

Redação (26/08/2020 10:43, Gaudium Press) Superabundam as biografias de Santo Agostinho. Sua movimentada e peculiar existência foi objeto de incontáveis escritos, de inumeráveis estudos e vulgarizações, como se não bastasse para descrever os seus males e preconizar seus exemplos, suas próprias “Confissões”.

Entretanto, a ocasião de sua festividade pede uma palavra a mais. Não será excessivo evocar aos olhos de nossos leitores o mistério colossal e riquíssimo do personagem: a perversão, a conversão, a santificação, a vida, a epopeia deste varão cuja estatura moral ultrapassa, dentro da História da Igreja, todos os limites do monumental.

Mas, desta vez, vamos nos deter sobre um dos fulgores desta pedra preciosa e este bastará para uma meditação fecunda para nossas almas católicas.

Agostinho era um homem perverso, oferecendo sempre provas evidentes do mal no qual se afundava. Onde o encontraríamos se o buscássemos naqueles idos anos de sua juventude por Cartago ou Roma? Ora entre hereges maniqueístas, ora entre ébrios e celerados. Havia abandonado todo o depósito sagrado do bom exemplo e da instrução que recebera de sua santa mãe, Mônica. Seu pai era pagão, veio a ser catecúmeno, mas a maldade tão original de Agostinho havia superado as origens paternas.

Chegou a tal nível de degradação aquela pobre alma que dizia ter alcançado o gosto do mal pelo mal, se de alguma forma isso era possível. O pecado o havia possuído, o mal passou a atraí-lo, a iniquidade era uma meta a ser almejada e consumada.

Ficou célebre o caso das peras. Roubar, que fascínio roubar, não para alimentar-se, nem para gozar da doçura do fruto escondido. O que mais tinha sabor era roubar. Não importa o que. O objeto é um pretexto. O fim é o mal e para ele bastava, buscando na ignomínia a própria ignomínia. (Cf. Confissões II, 4, 9)

Tentava ultrapassar a maldade de seus companheiros, e quando não conseguia, “fingia ter feito o que não cometera”. (Confissões II, 3, 7)

Sua conversão não foi instantânea como a de São Paulo. Deus dispõe uma via diferente para cada homem. De qualquer forma, toda conversão, lenta ou fulminante, é obra divina.

Para Agostinho o caminho foi longo, tortuoso, e sua alma sofria a violência de uma vontade dividida entre a atração por Deus e por sua bondade, e pelo mundo, pelas paixões, pelo pecado. Quando corremos rapidamente os olhos sobre sua compungida e sincera narração não podemos calcular o universo de dores, de lutas interiores, de sofrimentos morais, de indecisões que fendiam sua alma e abalavam sua esperança no que poderíamos chamar processo de conversão.

Graças a ele, entretanto, podemos desvendar hoje não tudo mas muito do que se passa no interior de uma alma nestas ocasiões. Entender melhor para poder ajudar a si e aos outros. Foi este um dos preciosíssimos legados que Santo Agostinho deixou à posteridade, expondo-se à humilhação e ao esforço de transmitir, tanto quanto pode, o que se passou na “grande contenda de minha casa interior”. (Confissões VIII, 8, 19). Legado este que equivale, ou melhor, supera qualquer mensagem de esperança, de alento, qualquer conselho meramente teórico que possamos sugerir a uma alma necessitada, que se angustia no caminho da perfeição, ou se arrisca nas sendas da desesperação. Está ali o exemplo de sua vida a dar testemunho da onipotência e da penetração da Graça divina.

Sua conversão traz-nos, de momento, duas conclusões importantes.

A primeira é a que sustentou, durante o processo de conversão, a muitos católicos complicados e pertinazes como Santa Teresa de Jesus e Santo Inácio de Loyola. Se somos ruins, não nos desesperemos. Se somos péssimos, ainda assim, não desistamos. Se experimentarmos a maldade humana para além dos limites conhecidos pela história, ainda teremos alguma solução, pois a bondade de Deus não tem limites e a conversão é obra única e exclusivamente da Graça de Deus. Se chegarmos a resistir a esta Graça quando ela venha ao nosso encalço, se parecer que a Graça tenha desistido e voltarmos a cair no lodaçal do pecado, olhemos para o exemplo de Agostinho, o homem que, no pior sentido da palavra, tentou ser forte contra Deus, resistir-lhe, vencê-lo, até que, sujeitado por completo, tombou sobre os próprios joelhos e, invadido por contrição profunda, exclamou como Jeremias: “fostes mais forte, tiveste mais poder!”(Jr 20, 7)

A segunda traz uma esperança aos cristãos convertidos, ao menos ao que assim se consideram, pois, não nos esqueçamos, a conversão é obra de todos os dias. Há esperanças para o mundo hoje, sim. No entanto, as soluções não encontraremos nos homens, nem nas obras dos homens, mas sim, em Deus e nas obras de Deus. Coloquemos nossa esperança antes de tudo em Deus, que faz dos perseguidores, apóstolos, como de Saulo fez Paulo. Que faz dos perversos, doutores e pastores exemplares, como fez de Agostinho um santo, apóstolo infatigável, confessor forte, coluna de luz postada para sempre iluminar a vida cristã e o recinto sagrado. No momento oportuno, Deus converte os corações de alguns homens para que estes trabalhem santamente por sua Igreja.

O Divino Espírito Santo nunca abandonou o edifício sagrado e nunca o fará. Nunca morrerá o Corpo Místico de Cristo, nunca deixará de ser vivificado pelas graças e pelos carismas mais diversos. Assim, nossa esperança reside em Deus e na Graça de Deus e estarmos certos de que nenhuma filantropia obstinada poderá transformar este mistério profundo que é o coração de um só homem, como o pode a graça.

Por Gabriel Borges

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