Santo Antônio Maria Claret: consumido pela sede de almas

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Ardente de caridade, Santo Antônio Maria Claret atendeu com humildade e grandeza ao chamado divino para ser missionário, enfrentando com ufania as mais difíceis situações, pelo bem das almas e glória de Deus.

 

Redação (24/10/2020 09:16, Gaudium Press) “Tendo-me pedido o padre José Xifré, Superior dos Missionários Filhos do Coração de Maria, […] uma biografia de minha insignificante pessoa, sempre me escusei, e ainda agora não decidiria escrevê-la se ele não me tivesse mandado. Somente por obediência o faço e por obediência revelarei coisas que eu preferia manter ignoradas” […]

Ao iniciar sua Autobiografia com estas palavras, deixou claro Santo Antônio Maria Claret que contaria a ação de Deus em sua vida apenas pela necessidade de obedecer à voz do superior geral da ordem… por ele mesmo fundada!

Meditar na eternidade: semente do missionário

Nascido numa família de profundas raízes religiosas, diz o Santo a respeito de sua primeira infância: “A Divina Providência sempre velou por mim de forma particular”. É interessante notar que, ao contar sua origem, não escreve a data de seu nascimento, mas apenas a de Batismo: 25 de dezembro de 1807.

As primeiras ideias de que tem memória remontam aos seus cinco anos. Havendo recebido dos pais as primeiras noções de bem e mal, Céu e inferno, tinha noites de insônia e se punha a pensar na eternidade: “sempre, sempre, sempre; imaginava distâncias enormes, e a estas se acrescentavam outras e outras, e ao ver que não alcançava o fim, estremecia e pensava: aqueles que tiverem a desgraça de ir para a eternidade de penas, jamais deixarão de sofrer, sempre padecerão? Sim, sempre, sempre terão de penar!”. E se condoía do fundo da alma.

Este pensamento foi o motor, “a mola e o aguilhão de meu zelo pela salvação das almas”, do apostolado em prol da “conversão dos pecadores, no púlpito, no confessionário, por meio de livros, estampas, folhetos, conversas familiares”. Pois, “ao ver a facilidade com que se peca, a mesma com que se toma um copo d’água, por riso ou por diversão; ao ver a multidão de pessoas continuamente em pecado mortal e que vão assim caminhando para a morte e para o inferno, não posso ter repouso, preciso correr e gritar”. A esta preocupação pela salvação das almas, não tardou em unir-se o zelo pela glória de Deus: “Se um pecado é de uma malícia infinita, impedir um pecado é impedir uma injúria infinita a meu Deus, a meu bom Pai”.

Despertar da vocação sacerdotal

Bem menino ainda entrou na escola, onde aprendeu as primeiras letras. Vivo e inteligente, tudo assimilava com rapidez, em especial o catecismo e a História Sagrada. Aos dez anos fez a Primeira Comunhão e, a partir daí, não mais deixou de frequentar os Sacramentos. Logo despertou-se no pequeno Antônio a vocação sacerdotal: “Com que fé, confiança e amor falava com o Senhor, com meu bom Pai! Eu me oferecia mil vezes a seu santo serviço, desejava ser sacerdote para consagrar-me dia e noite a seu ministério”.

No entanto, as dificuldades da época obrigaram o pai a levá-lo para trabalhar em sua pequena fábrica de fios e tecidos, em vez de mandá-lo ao seminário.

A fábrica ou o sacerdócio?

Como primeira tarefa, enchia os carretéis das lançadeiras dos teares. Mais tarde tornou-se chefe dos operários, e nesta função aprendeu “como é verdade que melhor proveito se tira tratando os outros com doçura do que com aspereza e irritação”. Entretanto, ele considera esta fase de sua vida como um período de entibiamento, por se ter lançado com ímpeto no mundo dos teares, trocando sua vocação pelas máquinas, desenhos e urdiduras. Em 1825 encaminha-se a Barcelona, onde se aperfeiçoou na arte da tecelagem. Autodidata, só de analisar as mostras de tecidos vindos de Paris ou Londres já ideava um meio de fabricá-los, com resultados idênticos ou melhores. Por três anos estes assuntos ocuparam sua mente a ponto de ter, mesmo durante a Missa, “mais máquinas na cabeça do que santos havia no altar”.

Até que, como uma flecha aguçada a penetrar-lhe o coração, em plena Missa recordou-se desta passagem do Evangelho: “Que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?” (Mc 8, 36). “Senti-me, como Saulo, no caminho de Damasco […]. Despertaram-se em mim os fervores de piedade e devoção”.

De cartuxo a jesuíta…

Decidiu tornar-se cartuxo para fugir do século, com grande pesar do pai, que punha a esperança de seus negócios no talento do filho.

A caminho da Cartuxa de Monte Alegre, próxima de Barcelona, enfermou-se gravemente e precisou regressar a Vic. Compreendeu, então, haver sido circunstancial o chamado à vida contemplativa: “O Senhor me levava mais longe para desligar-me das coisas do mundo, e para que, desapegado de todas elas, me fixasse no estado clerical”.

Afinal, ingressou no seminário e, completados os estudos, foi ordenado sacerdote em 13 de junho de 1835. Enviado para a Paróquia de Santa Maria, em sua cidade natal, constituiu para si uma rigorosa regra de vida. Sem embargo, Deus o incitava a ser missionário. “Em muitas passagens da Santa Bíblia sentia a voz do Senhor que me chamava a pregar. O mesmo acontecia na oração. Assim, decidi deixar o curato, ir a Roma e apresentar-me à Congregação de Propaganda Fide para ser mandado a qualquer parte do mundo”.

Lá chegando, o Cardeal Giacomo Filipo Fransoni, Prefeito da Congregação, estava de viagem. O padre Claret aproveitou a espera para fazer com os jesuítas os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola e, ao terminá-los, prestou contas de suas disposições de alma ao padre diretor. Este o convidou para entrar na Companhia de Jesus: “tornei-me jesuíta da noite para o dia”.

…de noviço a missionário e fundador

Sentia-se muito bem na Companhia de Jesus, mas um problema na perna o levou à enfermaria e não havia como curá-lo. Os superiores viram nisto um sinal sobrenatural de não estar ele onde era chamado por Deus e determinaram seu regresso à Espanha, incentivando-o a entrar, de fato, nas sendas das missões. Tal como os Apóstolos, com ufania anunciava o Evangelho, expulsava demônios e curava muitas doenças.

Ao voltar de uma viagem evangelizadora nas Ilhas Canárias, em meados de maio de 1849, pôs em prática um plano já bem refletido de fundar uma congregação de sacerdotes missionários, na qual cada membro devia ser “um homem que arde em caridade e abrasa por onde passa; deseja eficazmente e procura por todos os meios atear no mundo inteiro o fogo do divino amor. Nada o amedronta; delicia-se com as privações; busca os trabalhos; abraça os sacrifícios; compraz-se com as calúnias e se alegra com os tormentos. Não pensa senão em como seguirá e imitará Jesus Cristo no trabalhar, sofrer, e procurar sempre unicamente a maior glória de Deus e a salvação das almas”.

Reunindo no seminário de Vic cinco outros sacerdotes, e de posse das autorizações episcopais, fundou em 16 de julho daquele ano a Congregação de Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria. “Hoje começamos uma grande obra”, afirmou.

Não obstante, eis que menos de um mês depois o Bispo o chamou e entregou-lhe uma carta de nomeação como Arcebispo de Santiago de Cuba…

Na Arquidiocese de Cuba: amado e perseguido

Alegando não poder abandonar a livraria religiosa que dirigia, bem como sua congregação nascente, recusou. Todavia, ao receber ordem formal de seu prelado para aceitar, confiou a pequena comunidade a Maria Santíssima e, tendo sido ordenado Bispo, partiu para Barcelona, a fim de cruzar o Atlântico rumo à sua arquidiocese. É impossível narrar aqui as aventuras da viagem, na qual cada parada servia-lhe de pretexto para pregar, e menos ainda tudo quanto na antiga Pérola do Caribe se passou em termos de riscos, catástrofes naturais, epidemias, trabalhos e peripécias missionárias. Ele pôs ordem em tudo e a força de sua palavra serenava revoltas, moralizava os costumes e obtinha conversões em massa. “Em seis anos e dois meses visitei quatro vezes cada paróquia”, escreveu ele.

Por todo o bem ali feito, Santo Antônio Maria Claret conheceu de perto tanto a gratidão dos que beneficiara quanto o ódio e a perseguição. Já as provara na Espanha, mas em Cuba esta última chegou a ponto de quase matá-lo. Em princípios de 1856, terminou um fogoso sermão, saiu da igreja e caminhava pela movimentada Calle Mayor da cidade de Holguin, quando sofreu um terrível atentado. Fingindo querer beijar seu anel episcopal, aproximou-se dele um delinquente, no intuito de cortar-lhe o pescoço com uma navalha de barbear. Como, porém, ele tinha naquele momento a cabeça inclinada e cobria a boca com um lenço, o golpe o atingiu no rosto, da orelha ao queixo, e no braço direito. “Não posso explicar o prazer, o gozo e a alegria de minha alma ao ver que havia conseguido o que tanto desejava: derramar o sangue por amor a Jesus e Maria, e poder selar com o sangue de minhas veias as verdades evangélicas”, foi a reação do santo Bispo.

Algum tempo depois recuperou-se da profunda ferida, ficando, contudo, com o rosto bastante desfigurado, e regozijava-se por poder repetir com São Paulo: “trago em meu corpo as marcas de Jesus Cristo” (Gal 6, 17).

Nomeado confessor da rainha Isabel II, partiu de La Habana para Madri, em março de 1857. Afinal pôde contemplar os progressos de sua congregação. Exerceu a nova função com total integridade, sem entrar nas intricadas questões políticas da época; mas sua benéfica influência sobre a soberana e a sociedade deu origem a uma torrente de calúnias e perseguições, que culminaram com seu exílio na França. “Todos me odeiam e dizem que o padre Claret é o pior homem que jamais existiu e que sou a causa de todos os males da Espanha”, chegou a afirmar.

Abrasado de caridade

Como prêmio por tanto amor a Deus, foram-lhe concedidos muitos favores místicos, entre os quais a previsão de acontecimentos futuros e a permanência eucarística: “No dia 26 de agosto de 1861, estando em oração na Igreja do Rosário, em La Granja, às 7 horas da tarde, concedeu-me o Senhor a grande graça da conservação das Espécies Sacramentais, de ter sempre, dia e noite, o Santíssimo Sacramento no peito; por isso, devo estar sempre muito recolhido e devoto interiormente; ademais, devo rezar e fazer frente a todos os males da Espanha, como me disse o Senhor”.

Ancião, enfermo e cansado, ainda teve fôlego para assistir ao Concilio Vaticano I e ali comoveu a assembleia com seu discurso em defesa da infalibilidade pontifícia. Em 24 de outubro de 1870, de regresso à França, abrasado de caridade e fugindo de seus perseguidores, entregou sua alma a Deus no Mosteiro Cisterciense de Fontfroide.

Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP. Artigo extraído, com adaptações da Revista Arautos do Evangelho n.149. outubro 2015.

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