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quinta-feira, agosto 11, 2022

Santo Odilon: glória de Cluny

Dentre os abades de Cluny destacou-se de modo esplendoroso Santo Odilon, que batalhou incansavelmente pela Igreja e Civilização Cristã.

Redação (27/07/2022 14:34, Gaudium Press) Filho de um nobre de Auvergne – região central da França –, que possuía 15 feudos, nasceu ele em 962.

Desde sua infância, sofria de paralisia nas pernas. Certo dia, numa viagem, seus servidores o deixaram na porta de uma igreja, enquanto tomavam algumas providências. O menino se arrastou, foi até o altar de Nossa Senhora, rogou seu auxílio e ficou curado. Assim nasceu sua devoção à Virgem.

Quando adolescente, entrou numa igreja dedicada à Mãe de Deus e se consagrou a Ela como escravo. Foi assim um precursor de São Luís Maria Grignion de Montfort, o grande apóstolo da sagrada escravidão a Nossa Senhora.

Monges revoltosos são açoitados e expulsos

Em 991, tornou-se monge no Mosteiro de Cluny. Pouco tempo depois, o Abade São Mayeul, bastante idoso, o nomeou abade, pois temia que as enfermidades próprias à velhice o impedissem de manter em vigor a disciplina monástica. Quando São Mayeul faleceu, em 994, Santo Odilon tinha 32 anos de idade. Ele exerceu o cargo de abade por 55 anos.

Era magro, de estatura pequena e imponente no caminhar. Sua voz sonora e varonil exprimia geralmente muita doçura, mas às vezes tomava um acento terrível. Com os monges humildes era bondoso e acolhedor, porém tratava os revoltosos com firmeza.

Certa ocasião, houve uma fermentação má em Cluny. Para prevenir qualquer rebelião, Santo Odilon mandou que os monges conspiradores fossem açoitados com varas diante de toda a comunidade, e depois os expulsou.

Rei da França veste o hábito monacal

Uma de suas primeiras atividades foi viajar a Paris a fim de efetuar a reforma da Abadia de Saint-Denis, cujos monges estavam decadentes. Ele visitava com frequência o Rei Hugo Capeto, em seu palácio na Ilha da Cidade, centro da capital, o qual estava idoso e tristonho – dir-se-ia hoje que fora atingido pela depressão. Santo Odilon o aconselhou a ir ao túmulo de São Mayeul, no Mosteiro de Souvigny, junto ao qual se operavam muitos milagres.

O soberano para lá se dirigiu acompanhado de seu filho Roberto, que posteriormente tornou-se rei e recebeu o cognome de “Piedoso”. Hospedou-se no mosteiro e quis cumprir todas as regras. Vestiu o hábito monacal, ocupou uma cela e, no refeitório, era servido como qualquer religioso. Cantava o Ofício durante o dia e também à noite. Recuperado, regressou a Paris repleto de alegria.

Nos mosteiros cluniacenses não se comia carne, mas o vinho era servido todos os dias. Exigia-se extraordinária limpeza dos noviços. Os monges de Cluny puderam ser comparados a “um imenso exército de soldados do Senhor, hierarquizado”[1], capitaneado pelo abade.

Devido a graves questões existentes na diocese de Lyon – uma das mais importantes da França –, o Papa João XVIII enviou o pálio e o anel de bispo a Santo Odilon, rogando-lhe que assumisse aquela diocese. Ele recusou, dizendo que precisava cuidar da Ordem de Cluny, a qual abrangia muitos mosteiros.  O pontífice reiterou seu pedido, mas Santo Odilon não aceitou de modo algum.

Trégua de Deus

Nessa época, havia frequentes combates sangrentos entre católicos por questões de fronteiras, prestígio etc. A fim de fazer cessar essas guerras fraticidas, por iniciativa de Santo Odilon as autoridades eclesiásticas religiosas determinaram a Trégua de Deus.

Em honra da instituição da Sagrada Eucaristia, da Paixão e Morte de Nosso Senhor e de sua Ressurreição, ficavam proibidos os combates entre os próprios católicos, desde o pôr-do-sol das quartas-feiras até a aurora das segundas-feiras. Quem desrespeitasse esse preceito recebia severas punições eclesiásticas, podendo chegar até à excomunhão.

Evidentemente, as guerras contra os inimigos da Igreja não estavam incluídas nessa proibição.  Tanto é que, em 1095, no Concílio de Clermont – Sul da França –, o Beato Urbano II pregou a Cruzada contra os maometanos, os quais haviam tomado Jerusalém e perseguiam os católicos.

De tal modo Santo Odilon difundiu e aprimorou a Ordem de Cluny que ela se tornou “a nova força, pura e implacável, destinada a destruir os quadros apodrecidos da sociedade cristã e fazer reinar por toda a parte a virtude e o temor de Deus, apesar de todos os bispos simoníacos e devassos”[2].

“Toda a congregação cluniacense é considerada como constituindo um único mosteiro, e o abade de Cluny é o abade de todos, o abade geral. Os priores, isto é, os superiores das comunidades locais, são nomeados pelo abade.”[3]

E Bento VIII, pontífice de 1012 a 1024, declarou que Cluny estava livre da sujeição aos bispos, reis e nobres, e devia submissão apenas a Deus e ao Papa.

Coração da Igreja Católica

Muitos milagres foram realizados pela intercessão de Santo Odilon, tais como: multiplicação de peixes, travessia de rios a pés enxutos, transformação da água em vinho.

Nos últimos cinco anos de vida, sofreu violentas dores de estômago, mas não diminuiu em nada suas atividades. Foi a Roma onde conheceu Hildebrando – futuro São Gregório VII –, que estudara num mosteiro cluniacense da Cidade Eterna.

Regressando à França, hospedou-se no Mosteiro de Souvigny. Sentindo que a morte se aproximava, pediu que o colocassem no solo já recoberto de cinzas e com o cilício que usava. Olhando para um crucifixo, de seus lábios brotou um sorriso e ele entregou sua alma a Deus em 1 de janeiro de 1049, aos 87 anos de idade.[4]

Escreve Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias:

“Santo Odilon sobressai como a mais expressiva glória de Cluny e se encontra na raiz de todos os esplendores da Idade Média.

“Sua entrega generosa nas mãos de Nossa Senhora faz dele um antecessor de São Luís Grignion de Montfort e o insere no filão de almas mariais que, por irradiar as mais seletas graças do Redentor, concedidas somente através de sua Mãe, compõe o coração da Igreja Católica.”[5]

Por Paulo Francisco Martos

Noções de História da Igreja


[1] DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja dos tempos bárbaros. São Paulo: Quadrante. 1991, v. II, p. 592.

[2] POGNON, Edmond. L’an mille. Apud DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja dos tempos bárbaros. São Paulo: Quadrante. 1991, v. II, p. 592-593.

[3] DANIEL-ROPS, Henri. Op. cit., p. 593.

[4] Cf. PIGNOT. Jean-Henri. Histoire de l’ordre de Cluny, depuis la fondation de l’abbaye jusqu’à la mort de Pierre-le-Vénérable (909-1157). Paris: Durand, Libraire. 1868, v. 1, p. 306.365.461. passim. GOBRY, Ivan. Les moines en Occident. Paris: François-Xavier de Guibert. 2005, v. 4, p. 209.217.224.

[5] CLÁ DIAS, João Scognamiglio, EP. Maria Santíssima! O Paraíso de Deus revelado aos homens. São Paulo: Arautos do Evangelho. 2020, v. III, p. 80.

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