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domingo, outubro 17, 2021

São Junípero Serra: Um missionário que fez História

Homem de tenacidade indomável, soube esperar com paciência a hora de Deus em cada fase de sua vida, traçando, com letras de ouro, admiráveis linhas nas páginas da História americana e universal.

Redação (01/07/2021 09:28, Gaudium Press) “Meu filho, se entrares para o serviço de Deus, permanece firme na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a provação; humilha teu coração, espera com paciência, dá ouvidos e acolhe as palavras da sabedoria; não te perturbes no tempo da infelicidade, sofre as demoras de Deus; dedica-te a Deus, espera com paciência, a fim de que no derradeiro momento tua vida se enriqueça” (Eclo 2, 1-3).

Quanta sabedoria encerram estas palavras do Eclesiástico!

Comentando este trecho, diz o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira: “A vitória é dada a quem sofreu com paciência. Paciência aqui não é a indolência, mas aquela virtude forte por onde se aguenta a dor da espera”. [1]

Tal se poderia afirmar de São Junípero Serra, franciscano maiorquino cuja vida foi coroada com a vitória e as riquezas celestes, por ter dito sempre fiat à vontade divina, sofrendo com paciência e incondicionalidade inteira as demoras de Deus em cada fase de sua vida, tornando-se, assim, “digno de ser contado entre os imitadores dos Apóstolos”. [2]

Sob a égide do carisma franciscano

Nasceu ele em Petra, cidade de Maiorca, a maior das Ilhas Baleares, em 24 de novembro de 1713, e neste mesmo dia recebeu na pia batismal o nome de Miguel José.

Seus pais, Antônio Serra e Margarida Ferrer, eram honrados lavradores e terciários franciscanos do Convento de São Bernardino. Sua infância e juventude transcorreram sob a égide do carisma franciscano: desde pequeno frequentou a igreja da Ordem e estudou com os frades as primeiras letras, solfejo e canto gregoriano, destacando-se no coral infantil da comunidade, por sua bela voz.

Aos quinze anos, decidido a ser filho de São Francisco enquanto religioso, trasladou-se à capital, Palma de Maiorca, para estudar Filosofia, vivendo em companhia de um cônego, com quem muito aprendeu. Depois de um ano de estudos, solicitou o ingresso na Ordem.

Iniciaram-se, então, as provas das demoras de Deus em sua larga existência… Por ser um tanto enfermiço e de baixa estatura, não foi admitido de imediato. Teve de esperar que alguns sacerdotes conhecidos dessem ao superior provincial testemunho de suas qualidades espirituais e humanas, para ser aceito no Convento de Jesus.

No tempo de noviço, lia a vida dos Santos, em especial de seus irmãos de hábito, e já o entusiasmava a ideia de ser missionário. Em sua via de esperas, contudo, este anelo só se realizaria quase duas décadas depois!

Pregador e catedrático

Passado o ano de noviciado, professou solenemente, com enorme alegria, em 15 de setembro de 1731, tomando o nome religioso de Frei Junípero, em honra do humilde discípulo que fora objeto da elogiosa exclamação de seu Seráfico Pai: “Quisesse Deus que de tais Juníperos eu tivesse uma vasta selva!” [3]

Flexível à voz da obediência, característica que o marcaria a vida inteira, foi encaminhado ao principal convento de Palma, a fim de preparar-se para o sacerdócio. Depressa obteve o título de mestre em Filosofia e começou uma longa etapa de docência.

Em março de 1736 foi ordenado diácono com outros vinte e sete religiosos e ascendeu ao presbiterato no ano seguinte, porém alguns meses depois dos outros, porque precisou esperar a idade exigida. Recebeu em 1738 as “licenças ministeriais para pregar” [4] e passou a percorrer as aldeias e cidades da ilha.

Doutorou-se em Teologia na Universidade Luliana de Palma e foi nomeado professor titular nesta instituição. Dois de seus alunos se destacaram como missionários junto com ele, mais tarde, na Califórnia: Frei Juan Crespí e Frei Francisco Palou, seu primeiro biógrafo e companheiro durante quarenta anos.

Iniciam-se os “cristãos atrevimentos”

Brilhava como catedrático e pregador, mas sentia na alma a necessidade de atender ao chamado da Providência, mantido em segredo até então, e pedir para trabalhar na messe do Senhor em terras distantes.

Rezou e encomendou-se a Maria Santíssima e a São Francisco Solano, o Apóstolo da América do Sul, rogando que lhe enviassem um companheiro como sinal de ser este seu caminho. E não conteve as lágrimas quando Frei Palou lhe confidenciou suas aspirações missionárias, dizendo: “Ao mesmo tempo que pedia a Deus para tocar o coração de algum, sentia minha total inclinação para Vossa Reverência; sem dúvida será esta a vontade de Deus”. [5]

Entretanto não havia mais vagas para missionários naquele ano de 1746… Dócil às esperas de Deus, continuou suas aulas e pregações ainda por três anos. Na Quaresma de 1749 pregava em sua cidade natal, quando Frei Palou recebeu uma comunicação do encarregado das missões franciscanas, ordenando que partisse com Frei Junípero para Cádiz, pois alguns religiosos se haviam retirado da expedição que seguiria para a América e havia lugar para os dois.

Com júbilo, mas muita discrição, em duas semanas prepararam a viagem, sabendo que não regressariam mais à Pátria. No Domingo da Oitava Pascal despediram-se da comunidade reunida no refeitório, acusando- -se de suas faltas e pedindo perdão a todos. Frei Junípero foi “beijando os pés de todos os religiosos, até do menor noviço”. [6] Recebida a bênção do superior, embarcaram numa pequena nave inglesa com destino a Málaga, e dali para Cádiz, a fim de iniciarem seus “cristãos atrevimentos”. [7] O principal alvo de Frei Junípero era a Califórnia, que ainda demoraria bem mais de uma década para conhecer…

Viagem à Nova Espanha

O barco zarpou em 30 de agosto de 1749, levando vinte franciscanos e sete dominicanos. Segundo Frei Palou, a viagem até o porto mexicano de Veracruz durou noventa e nove dias, e apresentou muitas “incomodidades e sustos”. [8]

São Junípero jamais se deixou abater, encontrando forças na Cruz de Cristo, que levava ao peito. Salvo nos dias de tempestade, celebrava a Missa diariamente, atendia os tripulantes em Confissão, e já então “todos o veneravam como muito perfeito e santo, pelo grande exemplo que dava com sua humildade e paciência”. [9] Tiveram que desembarcar em San Juan de Porto Rico, onde permaneceram dezoito dias, tempo aproveitado pelos religiosos para pregarem uma frutuosa missão.

Aportando em Veracruz, deveriam os franciscanos dirigir-se ao Colégio Apostólico de São Fernando, na Cidade do México, distante quinhentos quilômetros. Enquanto os outros viajaram em mula ou cavalo, nosso Santo, seguido de Frei Palou, obteve licença para percorrer todo o caminho a pé, “sem mais guia nem viático que o breviário e sua firme confiança na Divina Providência”. [10] Partiram em 15 de dezembro e, no caminho, foram agraciados com prodígios e auxílios sobrenaturais, especialmente de São José, a quem se haviam encomendado.

Uma picada de inseto, todavia, provocou na perna de Frei Junípero uma ferida que nunca mais cicatrizou, causando-lhe amiúde inchação e sangramento. Esta ferida e a asma foram cruzes que ele carregou até à morte, sem que jamais estas lhe tirassem o ânimo ou o impedissem de trabalhar em prol da evangelização.

Primeira missão: Serra Gorda

Tendo chegado ao Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe no último dia do ano, ali pernoitaram, para celebrar a Santa Missa junto a Ela no primeiro dia de 1750, consagrando-Lhe o apostolado a que se dedicariam.

Naquela mesma manhã seguiram para o Colégio de São Fernando. Os colégios apostólicos franciscanos foram “fundados para a formação de um corpo seleto de homens de exaltados ideais espirituais, preparados para difundir o Cristianismo entre os aborígenes americanos”. [11] Neles se vivia em comunidade conventual, o superior, chamado padre guardião, tinha jurisdição independente, como um provincial. No primeiro ano os religiosos aprendiam os idiomas locais, o modo de dirigir uma missão, enfim, aparelhavam-se para as tarefas missionárias, antes de se porem a campo.

Decorridos apenas cinco meses, em conversa com um grupo de missionários recém-chegados, o padre guardião comentou-lhes como ali era grande a messe e poucos os operários, e expôs as necessidades das missões de Serra Gorda de Querétaro, para encorajar o surgimento de voluntários. Sem titubear, Frei Junípero se apresentou, repetindo o profeta: “Eis-me aqui, disse eu, enviai-me” (Is 6, 8). Vários outros o seguiram e o superior os distribuiu entre as cinco missões de Serra Gorda, que atendiam os índios jonaces e pames. Para Frei Junípero a Califórnia continuaria posta nas demoras de Deus, pois permaneceria oito anos naquela missão.

Seu método de ação e zelo apostólico se fundamentavam primordialmente na benevolência, para vencer a desconfiança dos nativos. Alguns já haviam sido batizados, mas viviam no nomadismo e indolência da vida selvagem. Era preciso ensinar- -lhes tudo: ler, escrever, contar, cantar e, sobretudo, trabalhar! Habilitados para ofícios diversos – agricultores, pecuaristas, pedreiros, carpinteiros, ferreiros, pintores –, podiam manter sua subsistência e colaborar nas construções da missão, em especial da igreja, junto com os missionários, que com eles punham mãos à obra. As mulheres não eram esquecidas e também tinham suas artes: tecer, fiar, costurar e cozinhar.

Um conjunto de normas regulava a comunidade missionária e, graças a elas, os indígenas eram instruídos na doutrina cristã, auxiliados em suas necessidades e incentivados a frequentar os Sacramentos. Ademais, os missionários os ensinavam a conviver “na paz e caridade cristãs, sem permitir escândalos ou maus exemplos”. [12]

Missionário entre os cristãos

Floresciam aquelas missões quando, em setembro de 1758, a voz da obediência chamou Frei Junípero para evangelizar os belicosos apaches e comanches, na Missão de Santa Cruz de San Sabá, no atual Texas.

Poucos meses antes fora ela destruída pelos comanches, que massacraram os missionários e arrasaram as instalações. Longe de desanimar, o superior do Colégio de São Fernando convocara outros religiosos para recomeçarem o trabalho evangelizador. Sem embargo, com muito pesar para Frei Junípero, a falta de segurança e a inesperada morte do vice-rei fizeram com que tudo ficasse suspenso.

Assim, nosso Santo passou mais nove anos de espera na Cidade do México, como missionário entre os cristãos… Percorreu também as dioceses de Puebla, Valladolid, hoje Morelia, e Oaxaca, locomovendo-se sempre a pé. Apesar de coxear devido ao inchaço das pernas, caminhou cerca de dez mil quilômetros nesse período.

Benigno com todos, mas rígido consigo mesmo, arrostava grandes perigos, como animais selvagens, serpentes venenosas e epidemias, para visitar conventos de religiosas, aldeias e fazendas, lugares muito distantes entre si, alguns dos quais não viam um sacerdote havia dezoito anos…

Afinal a grande aventura: Califórnia!

Contava quase cinquenta e quatro anos quando, por fim, começaria a trabalhar na Califórnia. Tal oportunidade se deu em 1767, devido à expulsão dos jesuítas dos domínios espanhóis, por ordem do rei Carlos III. O então visitador geral da Espanha no México, José Gálvez, ordenou que os franciscanos os substituíssem na Baixa Califórnia. Frei Junípero foi escolhido como superior da missão de Loreto, centro militar, marítimo e religioso da região.

Devido a inesperadas injunções políticas, no entanto, ficaram pouco tempo ali. A Rússia havia feito incursões na América, pelo Pacífico Norte, e avançava rumo ao sul. Informado de tal ameaça, o governo espanhol decidiu tomar medidas urgentes para frear a expansão russa. Foi este o fator que detonou a grande empresa missionária de Frei Junípero, marcando a História americana e universal. “Quiçá a Espanha nunca tivesse se preocupado em fundar missões e evangelizar os indígenas da Alta Califórnia; mas Deus Se valeu da política para levar a mensagem do Evangelho àqueles povos”. [13]

Por ter sabido esperar as demoras de Deus, quando encontrou campo aberto para atuar, Frei Junípero Serra fez brilhar sua tenacidade indomável: deu o melhor de si nos últimos dezesseis anos de sua existência, passados ali, o que lhe valeu o título de Apóstolo da Califórnia.

Se não tinha órgão para a Missa inaugural de uma missão, uma salva de canhões supria a falta do instrumento musical, e a fumaça da pólvora substituía o incenso, que também faltava. Sua determinação o levava a plantar Cruzes e erguer campanários com sinos nas missões, para atrair e conquistar novas almas para Cristo, pelas quais estava disposto a dar sua vida.

Fundou nove missões e encabeçou uma expedição de reconhecimento e exploração do Pacífico Norte, que marcou os destinos da América. Não o detinham as dificuldades materiais nem os inevitáveis problemas com algumas autoridades, nem mesmo a traição dos índios que chegaram, por vezes, a destruir o aldeamento que eles próprios haviam ajudado a construir.

Um nome que se perpetua

Impossível seria narrar em tão curtas linhas o portentoso labor desenvolvido por Frei Junípero ao longo de mais de trinta e cinco anos de vida missionária, durante os quais administrou cerca de oito mil Batismos e cinco mil Crismas, realizadas enquanto ministro extraordinário nomeado pelo Papa. [14]

A piedade na celebração da Santa Missa, a devoção a Maria Santíssima, a quem denominava “Puríssima Prelada”, [15] e aos Santos, “seus amigos e irmãos do Céu”, [16] eram o esteio de tão profícuo apostolado.

Depois de sua santa morte, em 28 de agosto de 1784, seus sucessores fundaram mais vinte e uma missões, que deram origem a igual número de cidades; além disso, prestavam assistência espiritual a vários povoados, ainda que não fundados por eles, como o de Los Angeles. Pouco antes de partir para a eternidade, prometera ele interceder pelas missões e pela conversão de todos os pagãos. “Vemos que vai se cumprindo, pois em todas as missões aumenta o número de cristãos, desde a morte de seu fervoroso fundador”, [17] atestaria Frei Palou.

Por ter esperado as horas de Deus com total docilidade, o nome de Frei Junípero fulgura na saga missionária franciscana. A Santa Igreja o elevou à honra dos altares e o poder temporal reconheceu a grandeza de sua obra, colocando sua estátua no Capitólio, em Washington, junto às de outras grandes figuras que fizeram a nação americana.

Realiza-se, assim, o vaticínio de Frei Palou: “Não se apagará sua memória, porque as obras que fez quando vivia hão de permanecer estampadas entre os habitantes desta Nova Califórnia, de se conservar e perpetuar, apesar da voracidade do tempo”. [18]

Por Irmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

(Revista Arautos do Evangelho, Agosto/2018, n. 200, p. 32-35)

[1] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Ai do homem a quem a espera não dói; ai do homem que não aguenta a dor da espera! In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano XV. N.172 (Jul., 2012); p.32.
[2] FONT, OFM, Pablo. Carta a Fray Jaime Alaxó, apud PEÑA, OAR, Ángel. Beato Junípero Serra. Apóstol de Califórnia. Lima: Libros Católicos, 2012, p.91.
[3] I FIORETTI DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS. 7.ed. Petrópolis: Vozes, 1985, p.187.
[4] GALMÉS MÁS, OP, Lorenzo. Fray Junípero Serra. Apóstol de Califórnia. Madrid: BAC, 1988, p.39.
[5] PALOU, OFM, Francisco. Relación histórica de la vida y apostólicas tareas del venerable padre Frei Junípero Serra. Ciudad de México: Felipe de Zúñiga y Ontiveros, 1787, p.8.
[6] Idem, p.11.
[7] CAMÕES, Luís Vaz de. Os Lusíadas. C.VII, n.14. 2.ed. Porto: Companhia Portugueza, 1916, p.60.
[8] PALOU, op. cit., p.14.
[9] Idem, ibidem.
[10] Idem, p.17.
[11] PEÑA, op. cit., p.25.
[12] MIGLIORANZA, OFM, Contardo de, apud PEÑA, op. cit., p.29.
[13] PEÑA, op. cit., p.37.
[14] Cf. MOLINA PIÑEDO, OSB, Ramón. Beato Junípero (Miguel) Serra. In: ECHEVERRÍA, Lamberto de; LLORCA, SJ, Bernardino; REPETTO BETES, José Luis (Org.). Año Cristiano. Madrid: BAC, 2005, v.VIII, p.1039.
[15] PEÑA, op. cit., p.93.
[16] Idem, ibidem.
[17] PALOU, op. cit., p.285.
[18] Idem, p.284-285.

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