Meditações de Santo Afonso Maria de Ligório — Bispo e Doutor da Igreja

Quanto os religiosos devem confiar no patrocínio de Maria

Sábado: Quinta Semana depois da Epifania

— “Eu amo os que me amam: e os que vigiam desde a manhã por me buscarem, achar-me-ão” (Pr 8,17)

Sumário:

Se a divina Mãe ama todos os homens com tão grande afeto, que nenhum outro lhe seja superior, ou mesmo igual, quanto mais não amará os religiosos, que sacrificaram a liberdade, a vida e tudo ao amor de Jesus Cristo? Ponhamos, pois, toda a nossa confiança em tão boa Mãe. Provemos-lhe a nossa devoção, honrando-a fervorosamente e fazendo com que os outros também a honrem. Um religioso que não tem para com nossa Senhora uma devoção especial, perseverará dificilmente.

I. Se é certo, como é certíssimo, no dizer de São Pedro Damião, que a divina Mãe Maria ama todos os homens com tamanho afeto, que, depois de Deus, não há nem pode haver quem a exceda ou iguale no amor: amat nos amore invincibili — “ama-nos com amor inexcedível”, quanto devemos pensar que a grande Rainha ama os religiosos, que consagraram a sua liberdade, a sua vida, tudo ao amor de Jesus Cristo? Ela bem vê que a vida deles é mais semelhante à sua e à do seu divino Filho.

Vê-os empregados continuamente em louvá-la e em honrá-la com novenas, visitas, rosários, jejuns e outras práticas de devoção. Vê-os muitas vezes a seus pés a invocá-la e a pedir-lhe graças, graças essas todas conformes aos seus santos desejos, como sejam: a perseverança no serviço divino, a força contra as tentações, o desapego da terra, o amor para com Deus.

Ah! Como poderemos duvidar que ela deixe de empenhar todo o seu poder e misericórdia em benefício dos religiosos, especialmente de nós, que vivemos nesta santa Congregação (Santo Afonso escreveu esta meditação para os noviços da Congregação do Santíssimo Redentor por ele fundada), na qual, como se sabe, se faz profissão especial de honrar a Virgem Mãe com visitas, jejum no sábado, mortificações particulares nas suas novenas, etc., e com promover por toda a parte a sua devoção, por meio de pregações e novenas em sua honra?

A nossa excelsa Senhora é grata, e tão grata, que, como diz Santo André Cretense, costuma dar grandes coisas em retribuição a quem lhe oferece o mais pequeno obséquio: Solet maxima pro minimis reddere. A quem a honra e procura fazê-la honrar dos outros, ela promete, na sua benevolência, livrá-lo do pecado: Qui operantur in me, non peccabunt; promete-lhe também o paraíso: Qui elucidant me, vitam aeternam habebunt (Eclo 24,30-31).

Por esta razão devemos nós especialmente dar graças a Deus por nos haver chamado a esta Congregação, onde, pelos costumes da comunidade e pelos exemplos dos companheiros, somos frequentemente advertidos e como que constrangidos a recorrer a Maria e a honrar continuamente esta nossa Mãe amantíssima, que se chama e é a alegria, a esperança, a vida e a salvação de quem a invoca e honra.

II. Grande é a confiança que os religiosos devem ter no patrocínio de Maria Santíssima; e grande deve ser a sua devoção, porque, aliás, perseverarão dificilmente. — São Francisco de Borgia perguntou certa vez a uns noviços, de que Santo eram mais devotos, e achou que alguns deles não tinham devoção especial a Nossa Senhora. Advertiu por isso ao Mestre dos noviços que olhasse com mais atenção para aqueles desgraçados; e aconteceu que todos eles perderam miseravelmente a vocação e saíram da religião.

Minha Mãe amabilíssima e amantíssima, pelo amor de Jesus Cristo vos suplico, não permitais que tão grande desgraça venha sobre mim. Agradeço sempre ao meu Senhor e a vós, que além de me haverdes arrancado do mundo, me chamastes para viver nesta Congregação, onde se pratica uma particular devoção para convosco. Aceitai-me, portanto, minha Mãe, para vos servir, e não tomeis por mal que entre tantos vossos diletos filhos vos sirva também este miserável. Vós, depois de Deus, haveis de ser sempre a minha esperança, o meu amor.

Em todas as minhas necessidades, em todas as tribulações e tentações, sempre recorrerei a vós, que haveis de ser o meu refúgio, a minha consolação. Não quero outro conforto nos combates, nas tristezas e nos aborrecimentos desta vida, senão Deus e a vós.

Minha amabilíssima Mãe, para vos servir, renuncio a todos os reinos do mundo; o meu reino nesta terra será servir, bendizer e amar a minha dulcíssima Senhora: cui servire, regnare est, como diz Santo Anselmo — “a quem servir, é reinar”. Visto que sois a Mãe da perseverança, obtende que eu vos seja fiel até à morte.

— Fazendo assim, espero, e espero com segurança, ir um dia louvar-vos e bendizer-vos eternamente e nunca mais apartar-me de vossos pés. Iesus et Maria — assim protesto com vosso amante servo Santo Afonso Rodrigues — amores mei dulcissimi, pro vobis patiar, pro vobis moriar; sim totus vester, sim nihil meus — “Jesus e Maria, amores meus dulcíssimos, padeça por Vós, morra por Vós, seja todo vosso e nada meu”.

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