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quinta-feira, outubro 28, 2021

A espada do Espírito e o escudo da Fé

Para viver as exigências da Fé, é necessário vencer obstáculos, negar-se a si mesmo, carregar a Cruz, temos que militar! As forças para esse árduo compromisso nos vem da graça de Deus, sendo os Sacramentos veículos da graça.

Redação (11/01/2021 10:30, Gaudium Press) Ao iniciar o ano, o tema do coronavírus segue, naturalmente, na boca de todo mundo. As normas que se sucedem sobre o assunto tem, em geral, um foco unidimensional e nem sempre “cientificamente correto”. Algumas causam desconcerto. Sem falar das doses de Fake News com as quais se engana a opinião. ‘Sursum corda!’. Vamos ao nosso tema eucarístico de cada mês, que abordaremos sob um ângulo diferente… e desafiador.

Igreja militante x Igreja peregrina

Há pouco tempo era comum se utilizar o termo “Igreja militante” para referir-se a Igreja da qual fazemos parte os vivos -ou os mortais- e que, junto com a purgante e a gloriosa, constitui a única Igreja Católica Apostólica Romana… expressão que também vai caindo em desuso.

“Não é, acaso, uma luta a vida do homem sobre a terra?” (Jó, 7. 1). Em vez de “militante”, agora se opta por dizer “Igreja peregrina”, o que não é incorreto, mas é menos preciso, já que, para viver as exigências da Fé, é necessário vencer obstáculos, negar-se a si mesmo, carregar a Cruz, temos que militar! As forças para esse árduo compromisso nos vem da graça de Deus, sendo os Sacramentos veículos da graça; o da confirmação, por exemplo, que transforma o batizado em soldado de Cristo.

Este combate é, antes de mais nada, de corte espiritual: “Porque nossa luta não é contra homens de carne e osso, mas contra os principados, contra as potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra os espíritos malignos do ar” (Ef. 6, 11-12). Não obstante, o embate tem desdobramentos no campo material, dado que não existem apenas anjos maus, há também maldade entre os homens, e maldade deliberada e culposa.

A Cavalaria e as Cruzadas

Quando na Cristandade floresceu a cavalaria e se deram as gestas das Cruzadas -hoje tão criticadas e tão desconhecidas- houve contendas admiráveis, tanto na Europa como no Oriente Médio. Certamente alguém dirá por aí que a miséria humana não esteve ausente, mas até as empresas mais santas se viram manchadas com a fragilidade congênita dos desterrados filhos de Eva! As cruzadas foram impulsionadas pelos Papas e nelas participaram santos como São Luís IX de França e São Fernando de Castela.

Séculos mais tarde, assim se expressou Santa Teresinha do Menino Jesus: “Sinto em mim a vocação de um guerreiro, a coragem de um cruzado, de um zuavo pontifício. Queria morrer no campo de batalha em defesa da Igreja. Que felicidade teria sentido em combater no tempo das cruzadas ou, mais tarde, em lutar contra os hereges. Será possível que morra em uma cama?”. Lirismo? Expansões juvenis? São dizeres de uma Doutora da Igreja!

De fato, no santoral figuram vários guerreiros, modelos de heroísmo cristão. Há outros que, sem ter entrado propriamente na arena, estimularam lides justas merecendo a honra dos altares. E são numerosíssimos os valentes defensores da Fé que, ainda que não estejam no catálogo dos santos canonizados, ganharam o Céu.

Conflitos narrados na Sagrada Escritura

Na Sagrada Escritura se relatam permanentes conflitos entre fiéis (etimologicamente: os que tem Fé) e infiéis (os que não a tem). Se lê no Gênesis que Deus disse a serpente depois da queda original no Paraíso: “Porei inimizades entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”, (Gn 3, 15). Trata-se de uma inimizade posta por Deus, não pela vontade ou capricho humano. E o último Livro Sagrado, recolhe a mesma verdade: “Este [o dragão], então, se irritou contra a Mulher e foi fazer guerra ao resto de sua descendência, aos que guardam os mandamentos de Deus (…)” (Ap. 12, 17).

Assim, a Bíblia se abre e se fecha com este ensinamento chave: a vida é uma batalha constante, sendo a luta na terra uma prolongação da dos anjos: “Houve uma batalha no céu. Miguel e seus anjos combateram contra o dragão. O dragão e seus anjos travaram combate” (Ap. 12, 7).

Nos Evangelhos há passagens significativas que apontam para este estado de beligerância; vejamos apenas dois exemplos: Simeão que disse de Jesus, na Apresentação: “Este menino está destinado a ser uma causa de ruína e ressurreição de muitos em Israel; será um sinal de contradição” (Lc. 2, 34), ou o dito pelo próprio Senhor: “Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada” (Mt. 10, 34).

A causa de Deus é sagrada e irrenunciável

Bem, o que pensar de tudo isto? Antes de tudo, digamos com o Mestre: “Bem-aventurados os que trabalham pela paz” (Mt. 5, 9). Ele nos ensinou o amor aos inimigos, o perdão até “setenta vezes sete”, a oração pelos que nos perseguem, etc, isso também está nos Evangelhos. Então como explicar a aparente contradição? É que o amor a “minha pessoa” é, digamos, negociável, mas o amor a Deus, não. Tratando-se de interesses próprios, tantas vezes devo ceder e colocar a outra face, mas a causa de Deus é sagrada e irrenunciável… salvo que ignore o primeiro Mandamento, resumo de toda a Lei.

É um fato que as ideias e os reflexos de muitos católicos foram afetados pelos miasmas do relativismo, ao não querer ver de frente uma verdade elementar: o amor e o ódio se acompanham como a luz e a sombra. Se se adora ao Senhor, se combate a idolatria; se se ama a virtude, se odeia o pecado; se se dá culto a Deus e aos Santos, se detesta ao demônio e seus agentes. Como pode não ser assim? Existe uma incompatibilidade entre a luz e as trevas.

A esta altura, algum leitor pode estar surpreendido com a direção incomum que tomou esta meditação eucarística (?) que está chegando ao seu fim. No entanto, toda esta introdução – talvez muito extensa – ajuda a conduzir mais facilmente ao nosso compromisso permanente: a promoção do culto eucarístico…

…porque nossa “militância” passa pela adoração e difusão do amor a Jesus-Hóstia, o que implica “cruzar-se” pela Eucaristia. Trata-se de uma cruzada pela exaltação da Presença Real do Ressuscitado, não para reconquistar o Santo Sepulcro. Nesta singular cruzada lutamos contra a ignorância e a apatia, com as armas da palavra e do exemplo, para vencer a generalizada inconsequência dos nossos irmãos na Fé e atraí-los ao Pão do Céu. Façamos esta “guerra santa” sob o manto de Nossa Senhora “Bela como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército em ordem de batalha” (Cânticos 6, 10).

Mairiporã, Brasil, janeiro de 2021.

Por Padre Rafael Ibarguren EP – Assistente Eclesiástico das Obras Eucarísticas da Igreja

Traduzido por Emílio Portugal Coutinho

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