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A onipresença dos celulares

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É “como se os celulares fossem parte do nosso corpo”. Temos de nos prevenir contra o risco de nos tornarmos hiperdependentes das plataformas tecnológicas.

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Redação (14/08/2023 16:45, Gaudium Press) O tempo passa, o que aconteceu permanece e traz luz para o presente. Dizem que: “a história é o melhor professor”. Dentro dessa “história” próxima, havia escritores singulares que estavam “à frente” dos tempos escrevendo coisas que imaginavam que aconteceriam no futuro.

A presença de celulares, por exemplo, foi prevista – não diria por um profeta, mas por um “futurista” – por um dos muitos escritores de romances de ficção científica, esse gênero narrativo imaginário sobre os avanços científicos ou sociais que ocorrem no mundo. Em 1947, René Barjavel (+ 1985) declarou, em um curta-metragem intitulado “Televisão, o olho do amanhã”: “Vamos fabricar televisores em miniatura, do tamanho de uma lanterna. Não será mais necessário comprar o jornal, teremos tudo nessas telinhas, podendo vê-las em todos os lugares.” Ele chegou a prever como seria o panorama das ruas, todos empenhados em olhar para elas, tropeçando umas nas outras e sofrendo outras complicações que já conhecemos bem. A televisão começava a marcar sua presença. Sobre os avanços da tecnologia, afirmou: “ela até nos privará da liberdade de escolha, o indivíduo será apagado e se fundirá numa carne e alma coletivas”.

Outra previsão foi descrita em “Fahrenheit 451” (1953), na época considerado um dos romances mais marcantes da ficção científica. Ele apresenta um mundo em que os livros são proibidos. Os bombeiros, para evitar a “infecção do pensamento”, são responsáveis por queimá-los, daí seu título, a temperatura da queima do papel. A lenda visionária imaginava um futuro sem livros, um mundo sofrendo o domínio da tecnologia, substituindo a família e, pior, fazendo as pessoas viverem como simples robôs.

Os anos se passaram e vieram outros roteiristas e outros filmes, embora poucos, que anunciavam a crueldade do mundo que se começava a viver. Um deles, vencedor de vários Oscars, foi: “Network, Rede de Intrigas” (1976), escrito pelo romancista americano Paddy Chayefsky, no qual analisou o poder da televisão. Neste filme, um veterano apresentador proclamava: “as coisas andam mal e todo mundo sabe disso, há uma crise, todo mundo tem medo… Estamos sentados em frente à TV e o locutor nos diz: As coisas estão loucas… A única verdade que ouvem é a verdade que é transmitida. A televisão é o evangelho, ela tem o poder mais impressionante que existe em nosso mundo sem coração e sujo, vocês ficam aí sentados, dia após dia, noite após noite, pessoas de todas as idades, cores e credos. É a única coisa que vocês sabem, vocês fazem tudo o que a televisão lhes diz, vocês se vestem como ela lhe diz, vocês comem o que ela lhe diz, vocês criam seus filhos de acordo com suas regras, e até pensam como ela. Isso é uma loucura em massa.”

Os tempos da presença da televisão foram passando, dando origem hoje à omnipresença dos celulares, “como se fossem parte dos nossos corpos”. Se lembrarmos dos personagens dos filmes dos anos 90, eles geralmente mostravam seu “look” com um cigarro na mão. Agora todo mundo tem um celular na mão. Da mesma forma que o cigarro funcionava como ansiolítico, aliviando e reanimando, o celular começou a substituí-lo, com a característica de ser uma nova forma de submissão social, crescendo a cada dia.

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Um terço do tempo que a pessoa passa acordada

Seu uso cresceu, em 2021, para uma média de quase 5 horas por dia, por pessoa, ou seja, um terço do tempo que a pessoa passa acordada, chegando ao extremo de sofrer “nomofobia”, a angústia da desconexão, a ansiedade de se separar do celular ou ficar sem conexão com a internet, porque falta “algo essencial em suas vidas”.

Especialistas dizem bem que o vício em telas avança de forma silenciosa, vemos, no dia a dia, telas por toda parte, não há quem não a tenha em suas mãos. É um meio de comunicação difícil de se fazer sem ele e, mais ainda, como que define a personalidade de cada um…

O momento é vivido através de um mero clique; se a rede fica lenta ou é interrompida, produz desespero. O celular ocupa cada segundo que a pessoa tem livre. Como disse o falecido escritor e filósofo italiano Umberto Eco: “Não se pode prescindir da tecnologia, mas ela cria uma sensação de falso acompanhamento”.

Institutos Nacionais de Saúde, Departamentos de Saúde Pública e grandes universidades nos Estados Unidos e em outros países afirmam que o uso intenso das mídias sociais tem mais probabilidade de produzir problemas de saúde mental; mas que é difícil definir quantidade de tempo que o uso se torna efetivamente prejudicial. Isso depende de cada pessoa ou das coisas que a afetam em seu trabalho ou em suas relações pessoais. Eles o vinculam a vários distúrbios psicológicos: alterações de humor, ansiedade, depressão, insônia, isolamento social, sedentarismo físico e cerebral, perda da capacidade de concentração, etc.

Estão todos conectados, mas indiferentes aos que lhes são mais próximos. A solidão é maior do que nunca. “Flashes brilhantes de pseudo-prazer”, é como Justin Ronstein, o criador do “like”, descreveu os efeitos nocivos das redes sociais. Conhecemos bem o sistema criado para conectar inconscientemente os usuários aos dispositivos, desenhos que usam truques neuropsicológicos para reter a atenção de nossas mentes produzindo dependência.

Buscando captar a atenção, eles aparecem em todos os momentos do dia. O “like” ou um coração, por exemplo, dão uma sensação de prazer e confiança, como se fosse uma injeção de dopamina (neurotransmissor da satisfação pessoal); “scrolling” (rolagem) nos obriga a seguir e continuar vendo novas informações; o clique para atualizar a página; notificações, porque a maioria das pessoas não quer deixá-las pendentes. E finalmente, quando percebem, chegaram às 2 da manhã… olhando para o seu celular.

Nesse panorama, chama a atenção que, no Silicon Valley (Califórnia) – zona de importantes empresas da indústria digital –, os filhos dos executivos são educados em escolas livres de tecnologia. Por saberem de tudo isso, são cautelosos no cuidado com os filhos.

Devemos estar prevenidos para o risco de nos tornarmos hiperdependentes das plataformas tecnológicas, por trás das quais há obviamente um imenso maquinário de laboratórios de inteligência artificial. Diz-se bem que o mal não está nos instrumentos em si, mas na forma como são usados. Uma faca doméstica pode ser útil para cozinhar ou … para matar. O meio digital é benéfico se o usarmos com educação, sabendo limitar sua presença entre nós, colocando-o a nosso serviço, e não estando sujeitos a ele, porque temos tudo em … um simples clique.

Por Pe. Fernando Gioia, EP

www.reflexionando.org

(Originalmente publicado na La Prensa Gráfica de El Salvador, 13 de agosto de 2023.)

 

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