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A Santíssima Trindade quer viver em nós

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Vencedor do pecado e da morte, Jesus envia seus discípulos na conquista das almas a fim de que, juntamente com o Pai e o Espírito Santo, possa viver dentro de cada um de nós. Qual deve ser a nossa resposta diante desta imensa dádiva?

Foto: Wikipedia

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Redação (26/05/2024 11:53, Gaudium Press) No primeiro domingo após a Solenidade de Pentecostes, a Santa Madre Igreja convida seus fiéis a considerarem um dos principais mistérios de nossa fé: a Santíssima Trindade.

Com quanta doçura e simplicidade estamos acostumados a ouvir desde a infância os nomes do Pai, do Filho e do Espírito Santo. É encantador ver no começo de uma celebração eucarística, os fiéis adultos, e até uma criança traçar com suas mãozinhas o sinal da Cruz ao ouvir a invocação dos nomes divinos. Ou quem não terá se comovido ao presenciar um Batismo, no qual uma alma passa de mera criatura a um sacrário vivo do próprio Deus. Entretanto, estes fatos — tão comuns e habituais em nossos dias — foram outrora objeto de grandes convulsões.

Fim das perseguições e início das heresias

No início do século IV, a Barca de Pedro navegou em rios de sangue. Os anos de paz que a Igreja viveu e que marcaram boa parte do governo de Diocleciano foram sucedidos por um curto período de atroz perseguição.[1] Os decretos imperiais chegaram às últimas consequências. Grande foi o número dos fiéis que receberam a palma do martírio proclamando a fé católica.

Contudo, a renúncia de Diocleciano findou a última grande perseguição e, poucos anos depois, em 313, Constantino promulgou o Edito de Milão concedendo a liberdade aos cristãos.

A benéfica influência de Santa Helena, mãe do imperador, contribuiu para que a Igreja saísse finalmente das sombras das catacumbas e pudesse exercer seu ministério de salvação à luz do sol.

Mal se vencia uma batalha e já outra se vislumbrava no horizonte. Falsas doutrinas se espalhavam por todas as partes; interpretações arbitrárias das Sagradas Escrituras desviavam as almas da verdadeira tradição herdada dos Apóstolos. Uma nova fase se figurava diante da Igreja: a luta contra as heresias.

Ataques contra a Santíssima Trindade

Nascido na Líbia e ordenado presbítero, Ario recebeu de Santo Alexandre de Alexandria o encargo de cuidar da igreja de Baucalis. Dotado de grande habilidade dialética, negava a divindade da segunda Pessoa da Santíssima Trindade, afirmando que o Verbo era a maior de todas as criaturas e que fora o instrumento utilizado por Deus para criar o universo. Entretanto, não possuía a mesma natureza que o Pai, e, portanto, não era Deus.[2]

Diante de tal absurdo, Santo Atanásio e Santo Hilário levantaram-se em defesa da ortodoxia. Toda a bacia do Mediterrâneo entrara em ebulição. Após longas e acérrimas discussões, a doutrina da divindade do Filho ficou solidamente definida no Concílio de Niceia, em 325.

Poucas décadas depois, novos ataques, dirigidos desta vez contra a divindade do Espírito Santo. Aconteceu que o Patriarca de Constantinopla, Macedônio, admitindo uma semelhança completa entre o Pai e o Filho, recusou crer que o Espírito Santo compartilhasse a mesma natureza. Declarava que a terceira Pessoa era uma mera criatura, se bem que excelsa, elevada acima dos anjos e ministro supereminente das graças, porém subordinado e inferior a Deus.[3]

A voz defensiva ergueu-se na Capadócia. São Basílio Magno, São Gregório Nazianzeno e São Gregório de Nissa combateram a heresia, sendo definitivamente condenada no Concílio de Constantinopla em 381. Corroborando a definição de Niceia e a ela acrescentando a parte que cabe à divindade do Espírito Santo, o Concílio consignou a fé na Trindade, expressa no Símbolo niceno-constantinopolitano, o qual temos a alegria de proclamar nas liturgias dominicais.

Deus, que é uno e trino, quer conviver com os homens e fazê-los partícipes da sua felicidade. Em que consiste a felicidade divina? Uma felicidade que supera infinitamente todos os prazeres juntos?

A vida íntima de Deus

Como três Pessoas podem ser um único Deus? A pergunta, incompreensível ao intelecto humano, demonstra como Deus é infinitamente superior a toda inteligência criada.

Conta-se que certa vez, Santo Agostinho caminhava pelas areias de uma praia pensando interiormente:

— “Como pode ser que três Pessoas sejam um só Deus?”

 Quando uma cena inusitada se apresentou diante de seus olhos. Viu um menino que fez um buraquinho na areia e, com suas mãos, recolhia a água do mar jogando-a no buraco. Como o jovem continuasse a curiosa operação, o santo perguntou-lhe:

— “Meu filho, o que está fazendo?

— “Colocando o oceano dentro do buraco” — respondeu o pequeno.

— “Mas não percebe que isso é impossível?” — redarguiu Agostinho.

Ao que respondeu o jovem menino:

— “É mais fácil colocar o oceano dentro deste buraco, do que entender o mistério da Santíssima Trindade”.

Dito isto, desapareceu.

Este mistério não é inacessível somente aos homens, mas até aos próprios anjos. Entretanto, aprouve a Deus que a razão iluminada pela fé, pudesse captar certos lampejos da intimidade divina.

Ora, qual a finalidade do homem senão conhecer e amar a Deus? Dele, quanto mais se conhece mais se ama, e quanto mais se ama mais se deseja conhecer. A salvação de nossa alma, ou seja, a felicidade eterna no Céu, nada mais é do que participar da felicidade eterna e perfeita do próprio Deus, contemplando as infinitas maravilhas de seu Ser.

Deus quer conviver conosco

Neste sentido, a liturgia desde domingo faz-nos um convite.

Então Jesus aproximou-Se e falou: “Toda autoridade Me foi dada no Céu e na Terra. Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei! Eis que Eu estarei convosco todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28,18-20).

Logo após a Ressurreição, Nosso Senhor aparece aos discípulos na Galileia e, munido da autoridade que lhe foi conferida, lhes incumbe a missão de conquistar todas as nações da Terra para Deus. O Coração divino anseia em poder dispensar as riquezas de seu amor aos homens, mas não o faz diretamente. Ele deseja utilizar-Se de intermediários, de modo que uns comuniquem aos outros os benefícios recebidos.

Assim, através do Sacramento do Batismo, essa conquista se torna efetiva, pois a Santíssima Trindade passa a habitar no batizado e este, passa a pertencer à família divina, onde o Pai está constantemente gerando o Filho e o amor recíproco entre ambos está fazendo proceder o Espírito Santo.

Que insondável mistério de amor! O Criador, o Eterno, o Sumo Bem dignou-Se olhar para suas ínfimas criaturas e conceder-lhes o maior dom que existe, Ele, o próprio Deus.

Peçamos Àquela que foi escolhida pelo Pai como Filha predileta, pelo Filho como Mãe admirável e pelo Espírito Santo como Esposa fidelíssima, que custodie este sacrário vivo que somos nós, não permitindo que manchemos tão elevada dignidade pelo pecado.

Por Rodrigo Siqueira


[1] Cf. DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires. Trad. Emérico da Gama. São Paulo: Quadrante, 1988, v. I, p. 389, 390.

[2] Cf. LLORCA, Bernardino. Historia de la Iglesia Católica. 5. ed. Madrid: BAC, 1976, p. 385.

[3] Cf. ibid., p. 433.

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