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sábado, junho 25, 2022

Assim nasceu o feudalismo

A Europa ocidental, ao longo dos séculos IX e X, sofreu devastadoras invasões dos normandos pelo Norte, dos húngaros pelo Leste e dos sarracenos pelo Sul.

Foto : Wikipedia

Foto : Wikipedia

Redação (18/05/2022 11:21, Gaudium Press) Os reis das diversas regiões, guerreando muitas vezes entre si, tornaram-se incapazes de defender as populações que fugiam das cidades.

Os proprietários de maiores extensões de terra foram cercando-as de paliçadas, e quando os fugitivos, geralmente acompanhados de suas famílias, pediam-lhes auxílio celebrava-se um acordo pelo qual os donos os protegeriam e os desvalidos trabalhariam a fim de alimentar a todos. Assim nasceu o feudalismo.

Local sagrado que deve ser defendido acima de tudo

Nos períodos de certa tranquilidade, o proprietário construía moradias para os trabalhadores manuais, abrigos para o gado e, sobretudo, colocava especial cuidado em edificar uma capela, pois alguns sacerdotes que haviam se estabelecido na fazenda celebravam Missas e ministravam os Sacramentos.

A paliçada foi substituída por muros de pedra. E surgiram os castelos que eram autênticas fortalezas, com suas muralhas e torres. Entre estas a mais alta era a torre de menagem, de cuja base partiam túneis subterrâneos para lugares onde os donos e os trabalhadores podiam fugir, caso estivessem perdendo a batalha. E no interior do castelo, havia a capela, o local sagrado que devia ser defendido acima de tudo.

Ao cabo de algum tempo, os patrões construíram grades acima da porta principal do castelo, as quais eram abaixadas por roldanas para impedir a entrada dos inimigos.

Os patrões eram homens de combate

Dr. Plinio Corrêa de Oliveira explica:

“Os trabalhadores manuais conseguiram que os patrões fizessem recintos enormes em torno das casas destes últimos, de maneira que, quando viam de longe chegarem os bárbaros ou os mouros, os trabalhadores mandavam trazer rapidamente de suas casas as famílias, o gado, os móveis que eles mais prezavam, e colocavam tudo dentro do recinto dos patrões.

“Dessa forma, quando eles tivessem rechaçado o invasor, o gado, que constituía a fortuna deles, e os móveis, que eram as condições para poderem morar, estavam intactos.

“A casa do patrão deixou de ser exclusivamente dele para tornar-se um enorme braço paterno, segurando em torno de si toda a população local.

“Evidentemente, para fazer tudo isso era preciso uma cabeça. Quem dirigia a defesa eram os patrões, os quais eram homens de combate, porque em época de paz matavam as feras existentes no mato, para que os camponeses pudessem trabalhar livremente.

“Enquanto os patrões viviam em luta contra os javalis e outros animais selvagens, que havia nas florestas profundas da Europa, os empregados não eram homens de guerra, mas de trabalho. E no tempo de guerra os patrões comandavam os empregados, porque aqueles sabiam como dirigir uma guerra e estes não sabiam. Assim, as relações entre patrões e empregados acabaram sendo de pais e filhos. […]

O senhor feudal, pai dos seus súditos

 “Quando investiam contra os inimigos, os sacerdotes não podiam atacar porque, de acordo com a missão deles, não deviam usar armas, mas estavam junto aos atacantes incitando-os: ‘Coragem, vamos salvar a Cruz, Deus o quer!’; mostravam um crucifixo e iam para a frente, seguidos por todos os homens do povo. O senhor feudal, com espada, couraça, elmo, montando um cavalo, ia à dianteira; ele era o chefe e o pai daquele povo.”

“Essa organização feudal, extremamente simpática, familiar, em que nós vemos o senhor feudal viver como um pai dos seus súditos, e os súditos casarem seus filhos entre si, e cada feudo no fundo formava uma ‘familiona’.”

“Era necessária uma autoridade para dirigir o castelo e resistir contra o adversário. Ora, a autoridade era o patrão. […] Na época de paz, o patrão exercia as funções de juiz e delegado no lugar onde morava.

“Mas as invasões normandas e hunas eram muito grandes, e tornava-se conveniente e até necessário estabelecer ligações entre vários donos de castelos.

“A resistência se põe em torno do mais poderoso e, quando um castelo é ameaçado, levam todas as tropas para defendê-lo. Criava-se, assim, uma hierarquia de senhores feudais, por cima dos quais estava o rei.”

Princípio de subsidiariedade

O feudalismo respeitava “o princípio de subsidiariedade [que] se compõe dos seguintes elementos: primeiro, a ideia de que a sociedade é constituída por membros vivos; segundo, cada membro deve tender livremente a se bastar a si próprio; terceiro, essa autossuficiência tem limites; quarto, esses limites conduzem a uma hierarquização que rege os limites da liberdade e da autoridade da seguinte maneira: o que cada um não consiga realizar por si, o grau superior supre.

“Assim, tanto quanto possível, liberdade na base; tanto quanto necessário, autoridade na cúpula. Por esta forma se conciliam liberdade e autoridade.

“Este é o sapientíssimo princípio de subsidiariedade que não dá nem em liberalismo nem em socialismo. […] Quer dizer, ele não dá lugar nem à liberdade completa nem à igualdade total com que sonhava a Revolução Francesa, pois esse princípio estabelece uma hierarquia, limita tanto a autoridade quanto a liberdade, e isso irrita os revolucionários. […]

“Um senhor feudal manda em sua terra e faz nela tudo quanto pode. O senhor feudal superior só intervém ali para realizar o que senhor feudal menor não consegue fazer. O rei só intervém na esfera da autoridade do senhor feudal superior pelo mesmo mecanismo.”

Hierarquia feudal

O senhor feudal “deveria dar o exemplo, sendo o guerreiro por excelência que ia montado a cavalo, de espada em punho; o mais corajoso tinha de ser ele.

“Depois, vinham seus filhos e sua parentela. Só mais para trás estavam os camponeses. Porque os primeiros do lugar deveriam ser os primeiros na luta e no sacrifício.

“Desta maneira, estabeleceu-se uma espécie de identificação pela qual a classe dos proprietários rurais era a dos guerreiros, dispostos a dar a vida por aqueles a quem governavam. Sendo pequenos ‘reis’ locais, eles compunham a nobreza – o barão, o conde, o marquês – sob a direção de outro ‘rei’ maior, que era o duque, o qual, por sua vez, estava sob as ordens do rei propriamente dito. Constituía-se, assim, a hierarquia feudal. […]

“Era o equilíbrio social estabelecido, com uma sabedoria extraordinária, em função das condições militares e políticas do tempo.”

Por Paulo Francisco Martos

Noções de História da Igreja

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