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segunda-feira, abril 18, 2022

Beata Maria de Jesus Deluil-Martiny: Fogo, luta e holocausto

Maria de Jesus Deluil-Martiny previu trágicas provações futuras e ofereceu-se como vítima expiatória pela Santa Igreja e pelo sacerdócio, sofrendo com ânimo varonil e espírito combativo, confiante na vitória final do bem.  

Redação (27/02/2022 09:19, Gaudium Press) A Beata Maria de Jesus Deluil-Martiny é praticamente uma desconhecida. Nos livros de História da Igreja quase não se encontram menções a seu respeito. Entretanto, sua biografia e seus escritos descortinam surpreendentes horizontes.

Mulher de estatura bíblica, com uma elevação de vistas altíssima e uma coragem mais que varonil, merece ser contada entre as maiores Santas do século XIX. Sua vida, interrompida brutalmente por mão assassina aos quarenta e três anos de idade, abriu uma via de fogo, holocausto e luta admiráveis, dando lugar a uma obra, ainda hoje existente, de virgens chamadas a ser “Serafins da terra”: as filhas do Sagrado Coração de Jesus.

Maria Deluil-Martiny veio à luz em Marselha, França, a 28 de maio de 1841, no seio de uma família abastada. Primeira de cinco filhos, já no dia seguinte ao seu nascimento foi levada à Igreja de São Vicente de Paulo para receber o Santo Batismo.

Típica marselhesa, Maria era inteligente e alegre, mas possuía uma seriedade e tenacidade incomuns aos habitantes dessa cidade mediterrânea. Desde pequena habituou-se a mortificar seu espírito e a vencer os caprichos da infância com espírito de fé.

Maria fez a Primeira Comunhão em 22 de dezembro de 1853, depois de ter se preparado com as zelosas freiras do convento das visitandinas onde se conservava o coração da Venerável Anne-Madeleine Rémusat, sua tia-avó materna. Ao longo dos dois anos de catequese, as religiosas ficaram maravilhadas pela sua capacidade de comunicar-se, inteligência incomum e inalterável boa disposição.

Encontro com São João Maria Vianney

Após receber o Sacramento da Crisma, em 1854, um misterioso véu de tristeza desceu sobre a alma vivaz e inocente de Maria, quiçá pela falta de clareza a respeito da própria vocação.

Aos quinze anos de idade, ela “fundou” entre as alunas da escola das visitandinas uma “Ordem” com regra, noviciado e algo à maneira de profissão religiosa: as Oblatas de Maria. A iniciativa, porém, durou pouco tempo: ao saber de sua existência, as irmãs amavelmente a “dissolveram”…

Esse nome, porém, daria sentido ao futuro instituto de perfeição que, já adulta, ela fundaria: suas filhas espirituais, membros da Congregação das Filhas do Sagrado Coração de Jesus, seriam “oblatas”, pois se ofereceriam a Jesus por Maria como espelhos da imolação da Divina Vítima e de sua Mãe Santíssima.

Aos dezessete anos encerra-se o período transcorrido no internato do Sagrado Coração de La-Ferrandière, em Lyon. Antes de partir, ela fez um retiro sob a direção do Pe. Bouchaud, jesuíta. Nessa ocasião, Maria embebeu-se da espiritualidade de Santo Inácio, que ela saberia viver num requinte de lógica e fervor, aplicando-a com ardor nas futuras regras de sua congregação.

Também pôde ler os escritos de Santa Teresa de Jesus, que lhe pareceram tão familiares como se ela mesma tivesse experimentado as graças descritas pela gigante da mística.

Ainda antes de retornar a Marselha, Maria decide empreender viagem a Ars, a fim de consultar o Santo Pároco sobre sua vocação. A estada no pequeno vilarejo, mais tarde mundialmente famoso, transcorreu sem que a anelada Confissão fosse possível.

Resignada, Maria decide ir à igreja paroquial para despedir-se do Senhor no sacrário, com uma última oração. Durante esses instantes de recolhimento sentiu uma presença a seu lado… Era São João Maria Vianney que rezava, ajoelhado no mesmo genuflexório!

Ela, então, manifestou-lhe o desejo de consultá-lo sobre sua vocação, ao que o sacerdote respondeu: “Sua vocação, minha filha, ah! Antes de conhecê-la, você terá de recitar muitos Veni Sancte Spiritus”. E a conduziu ao confessionário. Ninguém soube quais confidências e bons conselhos intercambiaram a penitente e o confessor nesse momento.

Entrega-se como vítima expiatória

Aos vinte e dois anos, a jovem ainda caminhava entre as sombras de uma terrível noite escura. Em certa ocasião, porém, soube pelas freiras visitandinas que havia sido fundada a Guarda de Honra do Sagrado Coração Jesus. Seu entusiasmo foi imediato e sua resolução fulminante, passando a fazer parte da confraria com grande consolação.

As freiras fundadoras de Bourg-en-Bresse a nomearam “Primeira Zeladora”, pois graças à sua aguda inteligência, admirável capacidade organizativa e zelo ardente, a obra tomou proporções surpreendentes em pouco tempo.

Anos mais tarde, em 1866, durante um exercício vespertino sobre a boa morte, Maria se impressionou vivamente com as palavras do Pe. Calage, sábio e virtuoso jesuíta, tomando-o por diretor espiritual. Aos vinte e sete anos, entregou-se irrevogavelmente a Deus, com a permissão daquele padre.

Nesse ato preparatório ao voto de castidade perfeita, a Beata bem sabia não só ter entregue tudo a Nosso Senhor, mas que Ele aceitara tudo! Finalmente, em 8 de dezembro de 1868, Maria fez de modo privado seu voto de virgindade.

Na véspera, porém, teve de digladiar-se contra horríveis sugestões de um demônio impuro. E tão violenta foi a luta que sua alma inocente ficou perturbada com a ideia de ter ensombrado em algo a alvura de sua túnica batismal.

Seu diretor espiritual a tranquilizou com palavras inspiradas, anotadas pela Beata em seu diário íntimo: “Isto que te afirmo não vem de mim, mas de Nosso Senhor, que me encarregou de to dizer dando-me luzes claras sobre tua alma. Eu sei que ela é muito querida por Jesus, e que satanás tem envidado todos os esforços contra ti desde a tua infância. Mas, depois destas últimas luzes, compreendi tudo mais do que nunca. Lembra-te que o lírio de tua virgindade não é um lírio comum, mas é o lírio de Jesus e de Maria, do qual Eles mesmos cuidaram com amor imenso. Quando fores para o Céu, carregarás um lírio à guisa de palma. Tu estarás entre as virgens mártires. Este lírio, para ti, é um lilium inter spinas. Tuas tentações são o teu martírio!”

A estes atos de consagração perpétua a Deus, Maria acrescentou, na festa do Sagrado Coração de Jesus de 1868, sua entrega como vítima expiatória. O Pe. Calage, na ocasião, lhe disse: “Minha intenção formal é que te dês ao Coração de Jesus na qualidade de vítima. Eu te oferecerei na Missa: Nosso Senhor fará o resto”.

Imoladas com Maria aos pés da Cruz

Dados com firmeza e ousadia todos esses primeiros passos, era chegado o momento de erigir um novo instituto, nascido de seu inocente, audaz e fogoso coração: as Filhas do Sagrado Coração de Jesus.

Finalmente, em 20 de junho de 1873, sob os auspícios do destemido Cardeal Dechamps, a nova congregação é fundada em Berchem, Bélgica. Uma flor vermelha e branca desabrochava aos pés do Calvário a fim de reparar os pecados do mundo contra o Coração de Jesus, mediante a Adoração ao Santíssimo Sacramento exposto em suas capelas.

As orações das irmãs seriam oferecidas pela Santa Igreja e pelo sacerdócio, em espírito de oblação, como a Santíssima Virgem Maria aos pés da Cruz. Assim o explica a própria Beata: “Uns serão apóstolos, combatentes ativos jogados na confusão da batalha! Nós seremos, junto com a dulcíssima Virgem Maria, os holocaustos, escondidas em Jesus Cristo, imoladas com Jesus Cristo, e comprando com Ele, para Ele, n’Ele, a salvação do mundo”.

Luta contra a “Revolução social e religiosa”

Mas não só. A espiritualidade da Beata Maria Deluil-Martiny é toda feita de fé intrépida, de largos horizontes, de espírito de luta contra o mortal inimigo do bem.

Ela e suas filhas espirituais, no recolhimento dos claustros, estarão sempre enfrentando com zelo sacrossanto as hostes do mal. Hão de rezar pela expulsão do demônio da trama dos acontecimentos e pela destruição dos poderes ocultos que sustentam a ação da hidra do mal.

A congregação nascera num período conturbado do ponto de vista político e religioso. A nação filha primogênita da Igreja, em consequência dos pecados da Revolução Francesa, foi chacoalhada ao longo do século XIX por terríveis vagalhões.

Na Itália, as hostes recrutadas por Garibaldi usurpavam os territórios do Papa, e ventos de caos e perseguição turbavam o panorama geral da Cristandade. Nessas agitadas circunstâncias, a Beata explicitava o sublime chamado de suas filhas, afirmando: “Vossa vocação é lutar espiritualmente, com as armas da oração e da imolação, contra satanás e contra a forma atual de seus assaltos”, de modo que “aquilo que vós deveis obter é a exaltação daquilo que ele se esforça por abaixar, derrubar e destruir”.

Ora, diante de qual manifestação do poder diabólico teriam de combater as filhas do Coração de Jesus?

“O mal é muito maior do que vós imaginais”, asseverava a madre, explicando estarem diante de uma explosão de revolta do homem contra a ordem estabelecida por Deus.

O pecado sempre existiu, porém, “jamais como hoje em dia ele ousou guerrear com tanta audácia, cinismo e perfídia. […] Não é mais como outrora, um ataque parcial contra qualquer ponto do dogma e da moral católica […], ou uma revolta acidental e local contra qualquer príncipe; nos nossos dias é um vasto movimento geral contra todos os dogmas religiosos, contra todos os princípios da moral, e contra todas as bases da sociedade religiosa e civil. Esse mal é universal, e se expande entre todos os povos do mundo”.

Ele tem um nome: “Revolução social e religiosa”. É sustentado por falsos profetas e por estruturas que lhe asseguram uma dominação universal. Os fautores do mal, profetiza a Beata Maria, sonham com “a chegada de um dia em que se possa pôr a mão sobre o Papado e em que um dos seus se possa assentar sobre o trono de Pedro, a fim de que a Revolução se torne realmente mestra do mundo e o reino de satanás substitua o Reino de Jesus Cristo”.

Sofrer pela Igreja, à espera de seu triunfo

Diante de tão dramático e paroxístico panorama, a vocação das Filhas do Coração de Jesus é não só se oferecer em holocausto, mas manter viva a chama da esperança no irreversível triunfo da Igreja. “Jesus Cristo venceu satanás e o mundo! […] As nações Lhe foram dadas por herança. Enquanto Ele deixa a besta infernal se debater a seus pés entre passageiros e mentirosos sucessos, vencedor Ele triunfa, e seus Anjos do Céu cantam, desde já, sua vitória definitiva!”

De outro lado, sua esplêndida e indomável magnanimidade a levava a afirmar: “É muito mais grandioso, mais nobre e mais meritório viver em tempos difíceis. […] E assim, de século em século, os esforços de satanás se tornarão sempre mais furiosos e mais desesperados, e a santidade dos justos sempre maior até o fim dos tempos, quando satanás será para sempre rechaçado para o abismo”.

Vida de combate profético, coroada pelo martírio

Uma alma escolhida e sublime como esta deveria encerrar seus dias com a mais gloriosa das batalhas: sua luta contra a Revolução culminaria no martírio.

Encontrando-se no Mosteiro de La Servianne, em Marselha, foi vítima do ódio das forças ocultas que ela com seus sacrifícios desejava extinguir. O jardineiro do convento, anarquista velado, a assassinou com requinte de crueldade atingindo-lhe a jugular com vários disparos de pistola. Suas derradeiras palavras foram: “Eu o perdoo… pela Obra”.

Era o dia 27 de fevereiro de 1884. Seu sangue, de fato, fecundou a jovem congregação que, protegida pela sua caríssima madre desde o Céu, se estendeu por diversos países da Europa.

O corpo incorrupto da Beata se venera em Roma, no mosteiro das Filhas do Coração de Jesus.

Beata Maria de Jesus Deluil-Martiny, cuja espiritualidade se cifrou no amor de holocausto ao Sagrado Coração de Jesus e ao Coração Imaculado de Maria, foi uma alma de escol.

Sirvam sua figura luminosa e vida aguerrida de estímulo a todos os filhos da Igreja que desejam combater contra o caos hodierno. Esses poucos fiéis, sem fecharem os olhos diante do mal que parece dominar todos os campos, saibam confiar na vitória certa da causa do bem, quando se cumprirá a promessa consignada no lema da Beata Maria: “Opportet Illum regnare” (I Cor 15, 25), é necessário que Jesus reine!

Por Pe. Carlos Javier Werner Benjumea, EP

Texto extraído, com adaptações, da Revista Arautos do Evangelho, Fevereiro 2020, n. 218.

 

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