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domingo, abril 17, 2022

Quando a cruz envergou a espada dos césares

Jubileu de Constantino, o Grande, e a liberdade de religião.

Redação (26/02/2022 11:41, Gaudium Press) Convencionou-se fixar o dia 27 de fevereiro de 272 como a data de nascimento de Constantino, o Grande. Em 2022, completa-se, pois, o jubileu de 1.750 anos.

O imperador romano é célebre por sua conversão ao cristianismo e por conceder liberdade à religião. Há quem afirme, porém, que ele teria até mesmo fundado a Igreja Católica… Ao ouvir isso, evoco Napoleão: exilado na ilha Santa Helena, o imperador recordava ocasiões em que bajuladores lhe propunham instituir uma nova religião. Certa vez, já impaciente, retrucou: “Basta! Queres que eu também me deixe crucificar?” De fato, fundar uma religião é fácil, difícil é morrer na cruz…

Constantino efetivamente não fundou o cristianismo – nem queria ser crucificado! –, mas é possível atestar que, com ele, a Igreja pôde finalmente suspirar, após três séculos de sádicas perseguições.

Decerto, pouco depois da morte do Crucificado, o Senado romano promulgou “non licet esse christianos” – “não é lícito ser cristão”. Nero incendiou Roma em 64 e, segundo Tácito, culpou os cristãos. Com Domiciano, o cristianismo foi considerado “superstição ilícita”. Mais tarde, Décio decretou o culto público e universal a deuses romanos, sob pena de morte. Valeriano ordenou, em 257, que todas as igrejas fossem fechadas e os bens, confiscados. O edito imperial de 303, sob Diocleciano, proibiu as reuniões dos cristãos, privou-os dos direitos civis e destruiu suas igrejas e livros sacros.

Em 28 de outubro de 312, porém, as páginas da história foram sacramentadas para sempre por uma surpreendente reviravolta. Segundo Lactâncio, antes da batalha da ponte Mílvia contra Maxêncio, considerado um usurpador, Constantino tivera um sonho no qual Jesus lhe indicava marcar os escudos de seu exército com um cristograma. Conforme Eusébio, o imperador, durante o embate, avistou ainda uma cruz no céu com o mote: “Por este sinal, vencerás”. Por fim, a cruz de Cristo envergou a espada dos césares…

No ano seguinte, o chamado “Edito de Milão” concedeu aos “cristãos e a todos a liberdade e a possibilidade de seguir a religião de sua escolha”. Proporcionou ainda a irrestrita liberdade de culto, pronta restituição dos bens e dos templos confiscados e apoio à comunidade cristã.

Embora Constantino conservasse ainda liames com o paganismo, as suas decisões assentaram as primeiras bases da civilização cristã e um período de relativa paz. Cumpriu-se, enfim, como em diversas fases históricas, a promessa do verdadeiro fundador do cristianismo ao primeiro papa: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja, e as portas do inferno nunca prevalecerão contra ela” (Mt 16,18).

Como conclusão, a vida de Napoleão pode dialogar mais uma vez com a de Constantino e a de seus predecessores no sólio: conta-se que o imperador dos franceses – alcunhado por uns de “Nero corso”, por outros de o “deus Marte” – assistia certa vez a uma parada militar em sua honra. Ao final, exclamou: “Que poder!” Ante aquela cena, o sibilino Talleyrand não hesitou em disparar: “Pode-se fazer qualquer coisa com uma baioneta, menos sentar-se sobre ela”.

Em outras palavras: é fácil conquistar e oprimir pelo gládio, difícil, entretanto, é mantê-lo afiado por muito tempo… De fato, os césares imaginavam que podiam se eternizar sentados em tronos, armados até os dentes. Com razão, porém, alertou Jesus: “Os que pegam a espada, pela espada perecerão” (Mt 26,52).

É verdadeiramente difícil carregar a cruz, contudo, como apregoa o lema dos cartuxos, só ela permanece de pé enquanto o mundo gira…

Por Pe. Felipe de Azevedo Ramos, EP

Publicado originalmente em O Tempo, 26 fev. 2021, p. 22, ano 25, n. 9205.

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