Como tenho usado o tempo que Deus me concede?

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Não parece haver um consenso entre os estudiosos, mas estima-se que São Paulo teve a sua experiência de encontro com Cristo entre os anos 33-36 d.C., quando estava a caminho de Damasco. Após ser batizado, ele foi até a Arábia, onde passou três anos em oração, recebendo do próprio Jesus a revelação da Boa Nova, que lhe custaria, ao longo das décadas que se seguiram, perseguições, perigos, açoites, prisões e, ao fim de tudo, a própria vida. Entre os três anos no deserto e a primeira das suas longas viagens apostólicas, que mudaram a história do mundo ao levar o Evangelho para a Europa, há algo na vida de Paulo que uma leitura rápida dos Atos dos Apóstolos e das suas muitas cartas não deixa transparecer: Ele passou dez anos em Tarso até ser convidado por Barnabé para pregar o Evangelho em Antioquia. Não se sabe ao certo o que Paulo fez nesse tempo, mas muito possivelmente ele continuou no seu trabalho de fabricante de tendas, dedicou-se à oração e ao conhecimento da vida e dos ensinamentos de Jesus e pregou o Evangelho localmente. Foram treze longos anos de preparação silenciosa e discreta para que Paulo se tornasse o apóstolo dos gentios.

O tempo de Deus

Alguns dias atrás, refletindo sobre esse fato, dei-me conta de que eu estou no meu décimo terceiro ano de comunidade Canção Nova, e assim como Paulo, eu, de certa forma, comecei minha vida apostólica mais abrangente esse ano, por meio dessa atividade evangelizadora que eu tanto prezo que é a escrita. À primeira vista, essa “coincidência” pareceu-me, tremendamente auspiciosa e feliz, um sinal de que eu estou agindo em conformidade com os planos de Deus para mim. Afinal, esperei foram anos de amadurecimento até que Deus instruísse irmãos que, como Barnabé, me convidaram para escrever textos que acabam chegando a pessoas que provavelmente nunca conhecerei. Acontece que eu nunca me permito ficar com as conclusões mais superficiais acerca de nenhum assunto, aquelas que a minha consciência primeiro me oferece, porque elas costumam ser condescendentes, tendem a pintar um retrato meu mais bonito do que eu mereço. Pus-me a pensar sobre esses treze anos de silêncio de Paulo e não foi difícil imaginar que esse gigante da nossa fé deve ter se aplicado com um grande esmero ao conhecimento de Cristo, buscando uma vida de oração, de intimidade cada vez maior com o Senhor. Quantos conflitos não viveu Paulo em suas conversas com Deus! De perseguidor a apóstolo, o menor dos apóstolos, indigno até de receber esse nome, como ele mesmo falou. Ao falar das aparições de Jesus, faz questão de se colocar como o último de todos, a quem o Senhor apareceu “como a um abortivo”. Esse judeu zeloso, esse homem versado nas Escrituras, habilidoso na oratória, ousado como poucos, esse pequeno Saulo precisou de mais de uma década de silêncio e oração para ser formado por Deus e transformar-se em Paulo, uma das colunas da Igreja.

O chronos no kairos

Foi então que me dei conta de que eu estava olhando de maneira errada para esses treze anos: na minha cegueira, eu estava olhando apenas para os números, como se o meu “período de espera” fosse igual ao de Paulo apenas porque coincidiam matematicamente. Com que esmero, o Espírito Santo levou-me a refletir, eu busquei a intimidade com Deus nesse tempo? Como eu usei meu tempo nesse tempo? Como usei meu chronos (meus dias, minhas horas, meus minutos) nesse kairos (nesse tempo de graça que Deus reservou para a minha conversão)? Mais uma vez rejeito a primeira resposta que minha consciência me apresenta: “Usei bem, não está vendo? Ao longo desses treze anos avancei na minha vida de santidade, tenho perseverado na minha fé, sou hoje um cristão melhor do que antes de entrar na comunidade”. Mas a pergunta não é essa, e sim como eu usei meu tempo. E à medida que eu fui me aprofundando nessa questão, fui me dando conta de como vivemos na época dos grandes, mas sobretudo dos pequenos prazeres, aqueles que nos enredam sem que percebamos, consumindo nosso tempo tão vorazmente como um cardume de piranhas devora um boi, uma pequena mordida após a outra, numa rápida sucessão, dezenas, centenas, milhares de mordidas, de pequenas distrações. Quando nos damos conta, não resta mais nada do boi nem resta mais nada do nosso tempo, e assim se passaram dias, meses, anos. Ao longo desses anos todos quantas das minhas horas foram aplicadas à oração, ao estudo da Palavra, à adoração, à minha formação na doutrina da Igreja, e quantas foram desperdiçadas em joguinhos intermináveis no celular, em séries, filmes, ou simplesmente atualizando a linha do tempo de redes sociais ou acompanhando conversas inúteis em grupos de WhatsApp? Não estou aqui querendo defender uma vida totalmente ascética nem afirmando que seja pecado divertir-se vendo um filme, lendo um livro ou jogando videogame, nada disso. Estou falando de justa medida e de prioridade. Olhando para os meus treze anos, posso dizer que eles foram vividos numa busca intensa e prioritária de intimidade com Cristo ou meu sofá e meu celular foram as minhas prioridades? Uma vez mais é preciso esclarecer: estou falando de horas gastas, de tempo investido, não de meras intenções.

Tempo da graça sobrenatural

Em treze anos, Saulo tornou-se o Paulo que Deus sonhou. Nesses meus treze anos eu estou apenas “um pouco melhor” ou tornei-me o homem que Deus queria que eu me tornasse? Para responder isso adequadamente, recorro à famosa afirmação de Santo Tomás de Aquino: a graça supõe a natureza. Deus deu a mim, a Paulo e a você, que está lendo esse texto, um tempo para que a sua graça sobrenatural aja em nós, mas para que nós atinjamos “o estado do homem feito, a estatura da maturidade de Cristo”, é necessário que demos a nossa contribuição, que ocorre por meio da renovação permanente do nosso sim a Deus, na vida de oração, no combate espiritual, lutando para crescer na prática das virtudes. Nesse ponto, cada um decide como responder ao chamado de Deus. Uns perseveram e são mais diligentes, como Paulo. Outros, como eu, até lutam, mas não com todas as suas forças. Acabam se rendendo a tantas distrações que o Reino de Deus, que na teoria (ou na intenção) é a pedra preciosa pela qual vale a pena vender tudo, recebe apenas as sobras do dia, as horas mais cansadas, sonolentas e apressadas.

Não é possível voltar no tempo e consertar esses treze anos, portanto, não faz nenhum sentido fechar-me numa espiral de remorso e tristeza pelo que não fiz ou pelo que fiz de errado. Creio no Deus da Misericórdia, que olha com amor para o ladrão, que havia desperdiçado toda a sua vida até aquele momento na cruz, quando mostrou arrependimento e foi redimido. O ponto não é eu ficar preso olhando para trás, mas arrepender-me sinceramente do tempo que desperdicei e pedir a Deus que de hoje em diante eu escolha com meus atos – não apenas com intenções – amar mais a Ele do que às distrações e aos prazeres do mundo. Assim, perseverando no meu seguimento a Cristo, poderei experimentar que todo aquele que está em Cristo é uma nova criatura, como disse o próprio São Paulo. Passou o que era velho e tudo se fez novo! E tudo, diz o Monsenhor Jonas, é tudo.

Por José Leonardo Nascimento, via Canção Nova

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