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“Fim de um reinado no Vaticano”

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A Revista francesa Le Figaro publicou um artigo de Jean-Marie Guénois, intitulado: Fim de um reinado no Vaticano – Como a Igreja prepara o pós-Francisco (Fin de Régne au Vatican – Comment L’Église prépare l’après-François).

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Redação (01/04/2024 11:31, Gaudium Press) O enviado especial de Roma da revista Le Figaro, o renomado Jean-Marie Guénois, publicou um extenso artigo na edição do dia 29 de março passado, intitulado “Fim de um reinado no Vaticano – Como a Igreja prepara o pós-Francisco” (Fin de Régne au Vatican – Comment L’Église prépare l’après-François). O texto foi escrito, entre outros fatores, devido a saúde fragilizada do Papa Francisco; e mesmo assim ele mantém sua determinação em liderar a reforma da Igreja, que segundo Guénois, está mais forte do que nunca.

Ao descrever a situação física do Papa com 87 anos, Guénois adota um tom um tanto dramático, quando diz que é na Basílica Romana de Santa Maria Maggiore – muito apreciada por Francisco – que estão cavando seu túmulo. Ele quer descansar por toda a eternidade perto desse ícone amado [Salus populi romani]. Oficialmente, as placas de obras anunciam trabalhos de “restauração”. A revista Le Figaro pôde verificar que uma sepultura está sendo preparada. De fato, não é segredo que Francisco quer ser enterrado na Basílica Romana: “Quero ser enterrado em Santa Maria Maggiore”, declarou ele em uma entrevista, em 13 de dezembro passado.

É claro que devemos considerar a possibilidade do falecimento do Papa, dado que o Pontífice está chegando aos 90 anos de idade. Contudo, ultimamente tem surgido todo tipo de especulação, visto que, em diversas ocasiões, o Papa teve que delegar a leitura de seus ensinamentos a um colaborador da Secretaria de Estado, ou enfrentou dificuldades físicas, como entrar no papamóvel, ou permaneceu em silêncio no momento da homilia do Domingo de Ramos.

E, embora ele tenha reiterado várias vezes que considera o Ministério Petrino vitalício e que “não se governa com os joelhos, mas com a cabeça”, todos têm presente a “carta de renúncia”, entregue ao Cardeal Tarcísio Bertone no início de seu pontificado, que “poderia facilitar sua renúncia em caso de problemas graves de saúde”, conforme expresso pelo correspondente do Le Figaro.

Igreja e mídia

Guénois, após analisar as crescentes possibilidades de fim do pontificado, passa a fazer uma espécie de balanço, enfatizando que atualmente “a imagem de Francisco é sempre elogiada na mídia e na opinião mundial”, na Igreja, por outro lado, “o clima tem se deteriorado”.

“No Vaticano, a atmosfera está mais tensa do que nunca; nas paróquias, reina a confusão”, uma situação que se intensificou, segundo “numerosos responsáveis, testemunhas e especialistas, [com] a morte do Papa Bento XVI em 31 de dezembro de 2022”; morte esta que teria “produzido um efeito misterioso”, “impossível de medir”.

Uma decisão que marcou a era pós-Bento XVI

Após o falecimento do papa alemão, Francisco tomou “decisões importantes”, “e em um ritmo acelerado”, das quais “a mais significativa foi, em 1º de julho de 2023, a nomeação de Dom Victor Manuel Fernandez – argentino, amigo pessoal de Francisco – à frente do Dicastério para a Doutrina da Fé; uma nomeação que o posicionou como “número dois do pontificado”. Para contextualizar, devemos nos lembrar que João Paulo II havia escolhido Joseph Ratzinger para ocupar essa função-chave”, observa Guénois.

Enquanto “muitos viram essa nomeação como a escolha coerente de um teólogo considerado o ‘inspirador de Francisco’, outros a perceberam como uma ‘provocação’ direcionada aos conservadores”, evidenciando uma mudança de “orientação sem volta atrás”.

Outra das decisões pós-Bento destacadas pelo artigo do Le Figaro é, naturalmente, a declaração Fiducia supplicans de 18 de dezembro passado, assinada pelo então Cardeal Fernandez, autorizando, “sob certas condições, a bênção, por parte do sacerdote, de casais homossexuais”, o que resultou em “mais da metade dos episcopados do mundo, incluindo os da África negra, rejeitarem publicamente a bênção de ‘casais homossexuais’, opondo-se frontalmente à diretiva romana”.

“De acordo com um cardeal que vive em Roma, a Fiducia supplicans foi como ‘a gota d’água que fez o copo transbordar’, provocando essa fragmentação e polarização sem precedentes na Igreja, e desencorajando, até mesmo na Cúria Romana, setores inteiros de prelados, particularmente bispos, que até então eram bastante leais a Francisco”, aponta Guénois.

Apesar do “papa ter sido poupado de críticas públicas, o Cardeal Fernández acabou por perder sua credibilidade e sua autoridade”, tendo também sua imagem fortemente prejudicada pelo aparecimento de uma antiga obra sua, La Pasión Mística: Espiritualidad y sensualidad, com conteúdo sexual muito explícito, que havia sido “ocultada a ponto de ser removida da bibliografia oficial deste teólogo promovido ao mais alto cargo teológico da Igreja”. “O papa, amigo pessoal de Fernandez, não poderia ignorar a existência desse livro e a sua dissimulação”, garante um “conhecedor do dicastério para a Doutrina da Fé” a Guénois.

Outra decisão recente que causou grande agitação na Santa Sé, segundo o Le Figaro, foi a condenação a mais de cinco anos e meio de prisão do Cardeal Angelo Becciu, antigo substituto da Secretaria de Estado, uma sentença que “foi recebida como um golpe no Vaticano. Muitos pensavam [que o Cardeal Becciu] seria alvo de uma sentença simbólica, mas o julgamento revelou que a principal acusação contra ele, um desastroso investimento imobiliário em Londres, havia sido igualmente aprovado por seus superiores, incluindo (…) o próprio Francisco”.

“A severidade de um tribunal cujo magistrado supremo é o Papa – enquanto chefe de Estado da Cidade do Vaticano – teve o impacto de um choque elétrico em uma comunidade eclesiástica não acostumada a sanções legais”, asseguram as fontes de Guénois; severidade muito diferente daquela aplicada no “affaire Marko Rupnik, jesuíta e artista de mosaicos de renome mundial, acusado de dezenas de abusos sexuais em dezembro de 2022, que escapou da excomunhão, protegido pelo Papa”.

Prossegue Jean-Marie Guénois, aludindo a eventos pós-Bento, como as sessões sinodais de outubro de 2023, “nas quais a Igreja Católica dá a impressão de questionar seus fundamentos”, reformas que “cairiam muito mal em certos círculos clericais”.

Demos II

“Esses eventos e sua precipitação alimentaram uma espécie de ‘mal-estar geral’, revela um cardeal, uma ‘atmosfera deletéria’, claramente perceptível em Roma. [Este cardeal] acredita que, ‘desde a morte de Bento XVI, o trem saiu dos trilhos’”, relata Le Figaro Magazine, uma opinião compartilhada por vários residentes do Vaticano, inclusive autoridades de alto escalão, como o autor do Demos II, um documento que começou a circular na Cúria Romana no final de fevereiro passado, “de fato redigido por um cardeal (como pudemos verificar)”.

O documento Demos II, para o qual o autor consultou “colegas, circulou como um balanço do pontificado, denunciando uma Igreja ‘mais dividida do que nunca em sua história recente’. Ele critica o governo ‘autocrático’ do Papa que só reuniu duas vezes o Colégio de Cardeais, em 2014 e 2022 – o que poderia favorecer “manipulações” no próximo conclave; um Papa “intolerante a qualquer discordância, mesmo que respeitosa”. Ele se preocupa com “a ambiguidade em questões de fé e moral que semeia confusão entre os fiéis”, onde o magistério se tornou um “sistema de ética flexível ou análise sociológica” muito influenciado, segundo ele, pela visão dos “jesuítas”. Esse texto inflexível é um dos prelúdios visíveis do debate mais amplo sobre a sucessão. O direito canônico proíbe formalmente qualquer acordo prévio entre cardeais. Porém, nada impede os prelados de se reunirem a título privado – o que já aconteceu, houve reuniões no passado – algo que a Le Figaro Magazine pôde verificar”, afirma Guénois.

Uma observação que o colunista fez, durante sua pesquisa em Roma, é que, ao contrário do conclave anterior, “desta vez, de acordo com a opinião unânime, a questão primordial não é ‘quem’ poderia suceder uma personalidade tão forte quanto Francisco, mas ‘como restaurar a unidade de uma Igreja que agora está profundamente dividida’”. Isso se ouve em toda parte. Há uma preocupação sobre o futuro pontificado: “Que direção deverá tomar a Igreja? Deveria voltar atrás?”, interroga-se um alto funcionário do Vaticano, ou “continuar com a reforma?” Nesse contexto, surge uma questão premente em certos meios de comunicação: a “identidade da fé católica”. Um cardeal, muito preocupado, solta esta pergunta: “A Igreja ainda acredita em alguma coisa?

Papáveis

A partir dessas análises, o colunista passa para os papáveis, afirmando, logo no início que, no momento, nenhum candidato se destaca.

Ele menciona rapidamente cardeais como o secretário de Estado, Parolin; o presidente do episcopado italiano, Zuppi; o recente Pizzaballa, o cardeal húngaro Erdö; o espanhol Omella; o filipino Tagle; o prefeito da Cultura, Tolentino de Mendonça, bem como o oriental Ranjith ou Maung Bo, sem descartar o arcebispo de Marselha, Aveline, entre outros.

Com relação à possibilidade de um Papa africano, “as diversas fontes consultadas sobre o assunto em Roma julgam que ‘ainda não chegou a hora’, mas todas concordam com o fato de que os africanos estarão na posição de ‘árbitros’ no próximo conclave”, com seus 17 cardeais eleitores. Entretanto, ao discorrer sobre essa análise futurística, imediatamente surgem estas duas afirmações: “Qualquer um, exceto um latino [americano], qualquer um, exceto um jesuíta’”, relata Guénois.

“A Europa polarizada terá, no entanto, um papel decisivo com 52 eleitores”, frisa o articulista.

Guénois conclui seu extenso artigo, relatando o comentário de “um cardeal experiente”: “A Igreja, os fiéis, os sacerdotes, os religiosos e os bispos precisam ser reunidos, não divididos. Eles desejam atenção, calma, sabedoria e não precipitação”. (CCM)

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