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Missa do Dia do Natal do Senhor: “Sereis como deuses!”

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Que consequências traz para o mundo, e para cada um de nós, este Menino que contemplamos numa manjedoura?

Foto: Joâo Paulo Rodrigues

Foto: Joâo Paulo Rodrigues

Redação (24/12/2023 11:33, Gaudium Press) Em meio à penumbra, causa uma certa pena considerar a pobreza na qual repousa um belíssimo Menino. Seu berço não é senão uma simples e rústica manjedoura, desgastada pelo longo uso de incontáveis animais. Meras palhas fazem às vezes de seu colchão, um complemento da humilde faixa que O envolve.

É noite de inverno e ali estão também um boi e um burro para O aquecerem, pois o recinto, constituído de pedras brutas, mantém o frio e a umidade próprios a esta estação do ano. Se, ao visitarmos um palácio, deparássemos com semelhante cena, ela nos pareceria aberrante; entretanto, a realidade é ainda mais chocante, pois ela se passa numa agreste, inóspita e isolada Gruta.

Quem é este Menino nascido, assim, em condições tão miseráveis?

Para bem sabê-lo, bastaria afastarmo-nos dessa Gruta e percorrermos um pouco as colinas de Belém, onde encontraríamos alguns pastores exultantes de alegria, justamente à procura deste mesmo Menino. Entre múltiplas e emocionadas exclamações, eles nos diriam:

― Apareceu-nos um Anjo todo refulgente de glória; ao se aproximar de nós, essa refulgência também nos cercou. Tivemos um grande medo, mas ele nos tranquilizou, afirmando-nos que nos visitava para transmitir-nos uma notícia inédita. Na noite de hoje, nasceu aqui próximo, na cidade de Davi, um Salvador. Ele é o Cristo Senhor. O Anjo nos disse que o sinal para reconhecermos bem o Menino será encontrá-Lo envolto em faixas e posto numa manjedoura. E logo depois esse Anjo subiu e se juntou a muitos e muitos outros, cantando num magnífico coro: “Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens, objeto da boa vontade de Deus”. E por isso estamos indo a caminho de Belém para ver o que aconteceu (cf. Lc 2, 8-15).

Então poderíamos retornar à Gruta para adorar o Senhor, o Rei, o Cristo Jesus. Ali reveríamos Maria e José, silenciosos e penetrados de indizível piedade, devoção, enlevo e ternura. Em imaginação, ajoelhemo-nos também e deixemo-nos penetrar por essa atmosfera de graças e bênçãos oriundas do Divino Infante.

O homem arde em sede de infinito

O Natal é uma poderosa lição para nós, neste início de milênio todo perpassado de igualitarismo. Desde a saída de nossos primeiros pais do Paraíso, o orgulho humano — vício traiçoeiro e insaciável, paralelo ao non serviam de Lúcifer — sempre teve dificuldade de tolerar uma autoridade sobre si. Quando de todo consentido, leva sua vítima, num primeiro lance, a desejar uma total igualdade na distribuição dos bens, condições de existência, dons, etc. E ladinamente esconde atrás de si o desejo de ser deus, rei da criação, e de dispor desta ao seu bel-prazer. Por tal motivo o homem orgulhoso busca sem descanso o domínio sobre todos os seres que o cercam.

O delírio de ser igual a Deus, raiz da ruína humana

Essa ambição insensata, repercutindo o grito de revolta no Céu Empíreo, foi a causa do primeiro pecado sobre a Terra. A serpente não encontrou melhor argumento para levar Eva à desobediência do que prometer-lhe a igualdade com Deus: “sereis como deuses” (Gn 3,5). Atraída por tão grande promessa, Eva não hesitou. Percebe-se, pela descrição do Gênesis, que, dentro da alma ainda inocente da mãe do gênero humano, o sonho de ser “como deus” despertou forte apetência. Eis aí a recôndita origem de nossa descida a esta Terra de exílio.

Se tempo e espaço não nos faltassem, poderíamos fazer desfilar, em incontáveis páginas, os desatinos cometidos pelos homens ao longo da História, em busca dessa usurpação do trono de Deus.

Mas não é necessário remontarmos ao passado distante para analisar essa insensata tendência. Basta abrirmos os jornais ou revistas, ligarmos a televisão ou o rádio, ou entrarmos em algum ambiente de hoje em dia para avaliarmos uma das principais causas da impiedade hodierna.

Os homens vivem como se Deus não existisse; o ateísmo prático tomou conta da face da Terra. Embora pouca gente afirme que não acredita em Deus, nega-se — através dos sistemas de vida, dos modos de ser e dos costumes — a existência d’Ele. Perdeu-se o senso do ridículo relativo ao autoelogio. Onde encontrar alguém que só fale de si raramente?

Constará nos anais da História que todos os males de nossa atual existência se devem ao fato de os homens não terem querido dobrar os joelhos diante de Deus, por desejarem ardentemente ocupar seu trono.

Há um modo de aplacar nossa sede de infinito

Para cortar pela raiz os pecados que por toda parte se cometem, bastaria as almas se tornarem receptivas à mensagem que, de dentro das palhas do Presépio, nos traz o Menino Deus.

A sede de infinito arde em chamas dentro de nossa vontade, e não há repouso verdadeiro para nós fora de Deus, como afirmava Santo Agostinho.[1] E foi Ele próprio quem criou esse anseio, para nos facilitar a procura do Absoluto. Todavia, jamais conseguiremos atingir essa plenitude, à qual aspiramos com tanto vigor, se estivermos apoiados apenas em nossas forças. É um paradoxo, diria alguém. Por que terá querido Deus acender labaredas de desejos irrealizáveis em nossos pobres corações, uma vez que não temos meios para realizá-los? Tratar-se-á de uma atitude pouco ou nada paternal d’Ele?

Jamais! Deus é a Bondade em essência. Ele quer muito nos fazer “deuses”… não através de uma orgulhosa e igualitária revolução de nossa parte, mas por meio da humildade, submissão e amor. Essa difusão exuberante do bem, nós a constatamos até na própria obra da criação. O Sol não se cansa de nos enviar seu calor; as águas de nos fornecerem os peixes; a terra, seus frutos, etc. E sempre de forma superabundante. São seres minerais, vegetais, animais que, se fossem passíveis de felicidade, exultariam por entregar-se ao serviço dos homens. E esse não é senão um pálido reflexo da infinita bondade do Criador que, para resgatar-nos do pecado e reconciliar-nos com Ele, resolveu que seu Verbo Se encarnaria, entregando sua vida até a última gota de Sangue: “E a Palavra Se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14).

Eis aí a solução de um problema de milênios: Deus realiza o que por nossas puras forças era impossível. Jamais poderíamos nos igualar a Deus por nossos próprios meios, por isso Ele mesmo Se reveste de nossa carne e nasce Divino Infante: Deus é Homem, e, n’Ele, o homem é “deus”!

Jesus visa à salvação de todos

Quem, portanto, receberá o Menino que nasceu nesta noite? Os justos, homens e mulheres que se mantêm fiéis à Lei, amantes da Verdade, do Bem e do Belo, aqueles que não dobram seus joelhos diante de Baal. Quantos serão eles? Não importa seu número. Serão poucos ou serão muitos, dia virá em que assistirão ao triunfo de Jesus em “sua glória, glória que recebe do Pai como Filho Unigênito, cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14).

Ele não deseja a condenação de ninguém (cf. 1Tim 2,4). Desde sua Encarnação sempre visou à salvação de todos, e essa é sua disposição na manjedoura. É a malícia dos homens que O levará a gemer no Horto das Oliveiras, como a Se perguntar: “Quæ utilitas in Sanguine meo?” (Sl 29,10). É o mau uso que fazemos de nosso livre-arbítrio que nos lança à infelicidade eterna.

Assim, “a todos os que A receberam, deu-lhes capacidade de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1,12). Este será o verdadeiro sentido das palavras de Nossa Senhora em Fátima: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”.

Extraído, com adaptações, de: CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O inédito sobre os Evangelhos: comentários aos Evangelhos dominicais. Città del Vaticano-São Paulo: LEV-Instituto Lumen Sapientiæ, 2014, v. 3, p. 109-119.



[1] Cf. AGOSTINHO DE HIPONA. Confessionum. L. I, c. 1, n. 1. In: Obras. 7. ed. Madrid: BAC, 1979, v. II, p. 73.

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