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quinta-feira, agosto 11, 2022

O livro de Eli: onde há fumaça, há fogo…

A ficção e a realidade mostram onde o ser humano pode chegar em situações radicais, quando guiado apenas pelo seu instinto de sobrevivência.

Foto: pt.wikipedia.org/w/index.php?curid=3815294

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Redação (02/08/2022 15:20, Gaudium Press) Em 2010, Hollywood lançou um filme de ficção chamado “O livro de Eli”, cujo enredo mostra o que sobrou do mundo 30 anos depois de uma guerra nuclear: fome, caos, destruição e disputas por água e comida.  Eli, um homem enigmático, atravessa o país sozinho, a pé, carregando um livro raro, o qual está disposto a defender com a própria vida.

Apesar de o filme ter sido rodado há mais de uma década, não vou dar spoiler sobre o personagem Eli, interpretado pelo ator Denzel Washington, e nem sobre o livro, que é o elemento central da narrativa, afinal, ao ler este artigo, alguém pode sentir curiosidade de ver o filme, ainda disponível num popular streaming, mas, não posso me furtar de falar sobre uma das cenas impactantes.

Influência da mídia e da arte

Esta semana, recebi, de fontes diferentes, a indicação de um artigo sobre o canibalismo, publicado pelo The New York Times, no dia 24 de julho. A tônica era o aumento do tema “canibalismo” em livros e filmes; uma aparente tentativa de entender esse fenômeno, embora de maneira rasa e pouco assertiva, talvez um simples estratagema para atrair leitores, ao destacar a afirmação de que o “canibalismo tem tempo e lugar”, e que seria agora.

Porém, neste mundo em que vivemos, diante de todas as aberrações e absurdos que presenciamos, nada mais é de se duvidar, e sabemos como a mídia e a arte são capazes de influenciar o comportamento e mudar o rumo da sociedade. Então, se o tema de pessoas comendo outras pessoas tem sido insistentemente inserido em filmes, livros e outras peças que consumimos, é bom estarmos atentos a isto.

“Ora, que tolice!” podem dizer alguns, alegando que temos dezenas de filmes sobre vampiros e sobre zumbis e que isso nunca virou realidade. Não? Caminhem um pouco pelas ruas centrais de São Paulo e observem o semblante e o comportamento dos usuários de crack. Sobre vampirismo e outros filmes de terror, façam uma pesquisa séria sobre a quantidade de possessões demoníacas que têm ocorrido nas últimas décadas.

Sobre canibalismo, temos um dos mais aclamados filmes de suspense da história do cinema: “O silêncio dos inocentes”, de 1991, baseado na obra do escritor norte-americano Thomas Harris, que narra a história de Hannibal Lecter, um psiquiatra e assassino canibal. Dez anos depois, Anthony Hopkins voltou a interpretar o mesmo personagem no filme “Hannibal” (nome que significa “pertencente a Baal”, entidade demoníaca cultuada pelos fenícios e por parte do povo hebreu, por influência da Rainha Jezabel, o que foi fortemente combatido pelo profeta Elias).

Estes, e outros filmes do gênero, tratam de psicopatas, mas, o filme O livro de Eli é diferente e se encaixa melhor no teor do polêmico texto do The New York Times. Em sua aventura, tentando proteger o livro que carrega e chegar ao seu destino, Eli e a jovem que passa a acompanhá-lo são recebidos por um casal de idosos, que, embora vivendo numa casa semidestruída, no meio do nada, os trata muito bem e até lhes oferece um chá. E é exatamente neste momento que Eli desconfia da generosidade dos dois, ao perceber que eles tremem ao segurar as xícaras de chá, sinal característico de pessoas que se alimentavam de carne humana.

Este não é um artigo para falar sobre cinema, mas não podemos deixar de reconhecer a influência da arte sobre a vida das pessoas e, muitas vezes, aquilo que é demonstrado nas novelas, nos filmes, na pintura, na música, acaba sendo o prenúncio de muitos acontecimentos.

Canibalismo

Ashley Lyle, uma das autoras citadas pelo artigo do The New York Times, coprodutora da série Yellowjackets”, que aborda o tema do canibalismo, diz: Acho que obviamente estamos em um momento muito estranho”, mencionando a pandemia, as mudanças climáticas, os tiroteios em escolas e os problemas políticos para justificar sua impressão.

Embora repugnante, o canibalismo existe fora dos livros e das telas de cinema e TV. Na Alemanha, em 2002, um homem chamado Armin Meiwes confessou ter assassinado e comido um rapaz que conheceu através de um anúncio bizarro que colocou na internet. No anúncio, ele dizia que procurava uma pessoa forte e robusta, com idade entre 18 e 30 anos para ser “comida por ele”. Pior que a sua proposta é o fato de ela ter sido aceita! Um engenheiro de Berlim, Bernd Jurgen Armando Brandes, concordou com a estranha oferta de ser devorado.

Segundo o depoimento de Meiwes à polícia, o rapaz se ofereceu como voluntário e, antes do assassinato, eles tiveram relações. Em seguida ele decepou a parte íntima do rapaz, fatiou-a e fritou, e ambos a comeram juntos, até Brandes perder a consciência. Então ele o matou, esquartejou e congelou a carne, comendo a maior parte dela ao longo de dez meses. Meiwes era uma pessoa pacata, que não despertava qualquer suspeita e seu crime só foi descoberto porque ele publicou outro anúncio do mesmo teor e um estudante que viu o anúncio avisou a polícia. Os oficiais foram à casa de Meiwes e encontraram partes do corpo do engenheiro e a fita de vídeo com a gravação detalhada do crime. Ele confessou como se fosse uma coisa absolutamente normal e fez questão de frisar que Brandes consentiu com tudo e que ele até fez uma oração por sua alma antes de cortar a sua garganta.

Perdoem-me por escrever explicitamente coisas tão bizarras, mas, este acontecimento é uma realidade do mundo em que vivemos e há muitas outras, iguais ou piores do que esta. Ater-me-ei a este caso, já é o bastante para causar repugnância e horror.

A prática do canibalismo está presente na história da humanidade. Até mesmo no Brasil houve tribos indígenas afeitas ao consumo de carne humana. Há relatos de uma tribo da Amazônia que tinham um sistema de engorda para melhorar a carne de seus prisioneiros que seriam devorados, como na historinha de Joãozinho e Maria, que ouvíamos quando crianças.

A Antropologia está cheia de exemplos de povos para os quais comer a carne de seus inimigos era uma questão cultural, e eles acreditavam que, comendo um guerreiro oponente, adquiriam a força e as habilidades dele.

Tirando esses casos, que se referem à cultura primitiva de certos povos, e as pessoas mentalmente desequilibradas, como o alemão Armin Meiwes ou o fictício Dr. Hannibal, a prática do canibalismo, em casos extremos, pode se tornar uma possibilidade, ainda que isso venha a ferir toda a nossa noção de ética e civilidade.

Quando penso no casal do filme “O livro de Eli”, que tremia ao segurar as xícaras de chá, não vejo psicopatas sádicos e nem guerreiros ancestrais devorando os adversários para se tornarem mais fortes e mais habilidosos. Vejo apenas um casal de idosos, pessoas como qualquer um de nós, remanescentes de uma catástrofe nuclear que destruiu o planeta, fazendo o que lhes era possível, numa terra inóspita, para garantir a própria sobrevivência. Obviamente, trata-se de uma ficção, mas, se tomarmos essa ficção por realidade, certamente eles não acordaram numa manhã ensolarada e planejaram se transformar em devoradores de carne humana, nem tão menos colocaram anúncios na internet com esse fim.

Em 1972, sobreviventes de um acidente aéreo sobre a Cordilheira dos Andes, depois de longo tempo na neve, em lugar de difícil acesso, sem esperança de socorro, sucumbiram à possibilidade de comer a carne de uma das vítimas do acidente, algo parecido com o que mostra a série Yellowjackets. Em ambos os casos, a ficção e a realidade mostram onde o ser humano pode chegar em situações radicais, quando guiado apenas pelo seu instinto de sobrevivência.

Intervenção Divina

 O que deve chamar a nossa atenção é que existe uma guerra em curso, envolvendo dois dos maiores produtores de grãos e insumos agrícolas do mundo. Entre uma notícia e outra, um entretenimento e outro, paulatinamente, estamos tomando contato com uma crise mundial de abastecimento de alimentos. E, desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro deste ano, uma guerra nuclear se tornou uma possibilidade bem mais próxima do que os líderes mundiais – e cada um de nós – gostaria.

No dia 1º de agosto, autoridades do mundo inteiro se reuniram, em Nova York, para a Décima Conferência de Revisão para o Tratado sobre a Não-Proliferação de Armas Nucleares. Como ficará o mundo – ou o que sobrará dele – se a Terceira Guerra Mundial ocorrer? Quem sobreviverá? A que terão de se submeter os que sobreviverem? Prefiro pensar que, por mais que a humanidade caminhe a passos largos para o abismo, Deus vai intervir, Nossa Senhora vai nos amparar e as coisas não ficarão tão ruins como o caótico mundo pós-apocalíptico enfrentado pelo personagem Eli.

O mundo está dominado pelos erros e pelo pecado e os homens parecem sentir prazer em ultrajar a Deus. Façamos penitência, oremos, façamos reparação ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria, para que Deus tenha misericórdia de nós e não nos deixe chegar a tal calamidade. Enquanto isso, estejamos atentos, afinal, como diziam os antigos, onde há fumaça, há fogo e, desatentos, podemos acabar induzidos a coisas inimagináveis.

Por Afonso Pessoa

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