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terça-feira, outubro 26, 2021

Por que praticamos o ascetismo na Quaresma?

Estamos agora no período da Quaresma, fazendo nossos pequenos sacrifícios e nos preparando para a Páscoa. Trata-se de prática antiga, conhecida como ascetismo.

Alguns dos santos que conhecemos e amamos eram altamente ascetas. Eles levavam a prática a extremos quase inimagináveis. São Simeão, por exemplo, passou 37 anos sentado no topo de um pilar. Já São Jerônimo golpeava seu peito com pedras. São Tomás Becket usava uma vestimenta áspera que irritava constantemente sua pele. E eu? Bom eu estou apenas tentando rezar um pouco mais e comer um pouco menos durante a Quaresma. De fato, não sou um grande asceta.

São Francisco e o ascetismo

O maior dos ascetas, com certeza, foi São Francisco de Assis. Ele se recusava a comprar para si mesmo uma única peça de roupa. Vestia um velho manto marrom que estava tão remendado com retalhos de tecido doados que não sobrou nenhum material original nele. Ele nunca usou sapatos. Além disso, ficava sem comer por longos períodos de tempo. Quando comia, era apenas sobras que implorava aos transeuntes.

Todos os anos, os católicos são encorajados durante a Quaresma a seguir a deixa de Francisco e fazer mais com menos. Não é apenas um hábito católico. Livros populares e programas de televisão sobre minimalismo pregam maior simplicidade. Quando se trata de luxos, há, é claro, também o fator limitante de nossa pontuação de crédito e receita. Somos limitados pela economia básica e aprendemos a deixar certos sonhos de lado como luxos inatingíveis. Você e eu provavelmente não teremos nossas próprias equipes esportivas profissionais ou ilhas particulares. Nós nos adaptamos ao que temos, contamos nossas bênçãos e aprendemos a ser felizes.

Ser feliz com pouco

Muitas vezes me pergunto sobre o por quê das pessoas que têm menos parecerem ser tão satisfeitas com suas vidas quanto as que têm mais. De fato, aqueles que têm mais parecem ser os mais infelizes entre nós. Talvez porque nunca tenham aprendido o valor do ascetismo. É contra-intuitivo, mas as pessoas que fazem as pazes com não possuir um certo luxo sempre acabam se beneficiando emocionalmente e espiritualmente da privação.

Vou compartilhar com você um exemplo pessoal, um (muito) pequeno ato de ascetismo que me fez mais feliz. Durante toda a minha vida, eu fui uma coruja noturna. Gosto de ficar acordado até tarde lendo, pintando ou assistindo a um dos programas noturnos da televisão. Com o passar dos anos, fui percebendo que essas horas tardias eram menos voltadas para criatividade e leitura e mais voltadas para assistir televisão. Eu estava perdendo horas do meu dia. Por isso decidi acordar mais cedo e comecei a acordar às 6 da manhã. Agora, durmo mais cedo e, quando me levanto, faço uma xícara de café e leio por uma hora antes que a agitação do dia me leve.

Aprendi a amar esta hora de quietude, estou lendo mais do que nunca e estou animado para acordar todas as manhãs. Certamente, o pequeno sacrifício de acordar mais cedo do que eu queria inicialmente melhorou muito meu dia. Não me parece mais um sacrifício.

O ascetismo é restaurador

O ascetismo não tem o objetivo de nos prejudicar. Muito pelo contrário: é restaurador. O jejum não tem o objetivo de prejudicar nossos corpos e abrir mão de outros luxos não tem o objetivo de nos tornar miseráveis.

Deus não quer que fiquemos tristes e não é um sinal de nossa devoção destruir nossa saúde. Quando pensamos em São Francisco – o maior de todos os ascetas – não imaginamos um homem triste e deprimido. Pelo contrário: Francisco é famoso por sua alegria. Cada sacrifício que ele deu a Deus o tornou mais feliz.

Quando converso com meus amigos sobre os sacrifícios quaresmais que eles fazem, eles são sempre honestos sobre o quão difícil isso pode ser. Além disso, eles também expressam o quanto são gratos por terem tentado viver com menos e o quanto cresceram com o esforço. Isso ocorre porque o próprio esforço ajuda a nos libertar. Somos mais do que nossas posses físicas, do que nossos confortos materiais e nossos desejos. Entretanto, não enxergamos isso até que vivamos sem eles por um período de tempo e percebamos que não precisamos deles tanto quanto pensávamos.

Sacrifícios, alegria e amor

Acima de tudo, o ascetismo abre espaço em nossos corações para a alegria e o amor. Por que São Francisco era tão feliz? G.K. Chesterton diz que Francisco era um homem apaixonado: “Ele era um amante de Deus e era real e verdadeiramente um amante dos homens … Em tal romance não haveria contradição entre o poeta colhendo flores ao sol e suportando uma vigília gelada na neve, entre o seu louvor a todo terreno e beleza corporal e então se recusando a comer …”

Considere, então as pessoas que você ama – cônjuge, filhos, pais, amigos. Praticamos, de fato, ascetismo com cada um deles. Um casal divide espaço, reprime os desejos individuais e pensa primeiro no outro. Um pai sofre pelos filhos, vai cuidar deles a vida inteira. Vai acompanhá-los em eventos esportivos e recitais de dança, adia férias e luxos materiais. Passamos tempo cuidando de pais idosos, levando-os ao médico e examinando-os.

Damos muito de nós mesmos – tempo, energia, autonomia pessoal. Tudo isso é alegria! Ninguém contabiliza esses custos, porque os pequenos sacrifícios são mais do que compensados pela presença de quem amamos. Renunciamos a um bem menor por um bem maior. É o mesmo com os sacrifícios da Quaresma, só que o fazemos por amor a Deus. É tudo alegria!

Fonte: Aleteia

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