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sexta-feira, abril 15, 2022

Putin e a ‘nova’ ortodoxia russa: luta contra o anticristo ocidental?

A questão religiosa na guerra que a Rússia está travando na Ucrânia está mais visível, porque é real. Uma nova religião?  

Redação (04/04/2022 19:02, Gaudium Press) Nos últimos dias, a imprensa internacional trouxe a notícia de que o parlamento ucraniano, que não deixou de funcionar, procura prescrever as atividades da Igreja Ortodoxa Russa na Ucrânia.

Com efeito, os focos estão cada vez mais voltados para o fenômeno religioso ortodoxo na Rússia, que muitos já qualificam de Cesaro-papismo ortodoxo, ou seja, união total e quase uma mesma cabeça, entre Igreja e Estado.

No entanto, entre as muitas análises que estão sendo feitas nestes dias sobre esse fenômeno, há uma que se destaca por suas notas originais, a de Stefano Caprio em Asianews, intitulada “Os católicos da Rússia e da Ucrânia” .

Caprio narra a perseguição aos ‘uniatas’, termo – um tanto impreciso – que se refere às comunidades cristãs do Oriente que voltaram à plena comunhão com Roma, como é o caso da Igreja Greco-Católica Ucraniana, que hoje tem Mons. Svyatoslav Shevchuk, Arcebispo Maior, como cabeça. Esse relato coincide com outras análises históricas.

Contudo, ele trata de algumas características especiais interessantes da atual ortodoxia russa.

Caprio recorda que, desde o ano da abertura da nunciatura apostólica em Moscou e das nomeações episcopais de 1991, “não houve um único caso de verdadeiro conflito entre católicos e ortodoxos na Rússia por disputas sobre fiéis ou locais de culto”. As relações entre os fiéis e os clérigos de ambas as partes eram mais do que cordiais.

Porém, em 2002, dois anos após a ascensão de Putin, vários missionários católicos foram expulsos da Rússia, uma “clara postura em defesa da ortodoxia como ‘religião de Estado’”. O que tinha acontecido? “As quatro administrações apostólicas católicas (Moscou, Saratov, Novosibirsk e Irkutsk) foram elevadas pela Santa Sé à categoria de diocese, uma decisão quase automática após um certo período de tempo, e esta decisão (imprudente) foi considerada uma ‘declaração de guerra’ ‘pelos ortodoxos e nacionalistas”. Ou seja, havia um novo sentimento nacionalista ortodoxo que, antes inexistente, permitia uma paz salutar.

Mas nesta defesa da Ortodoxia russa, o novo governante Putin e seus antecessores comunistas concordavam plenamente: “[A Igreja Ortodoxa russa] já havia sido elevada acima de todas as outras confissões pela lei de liberdade religiosa que foi reformada em 1997, proposta pelos comunistas e inspirada pelo patriarcado de Moscou”, afirmou Caprio.

Essa lei de liberdade religiosa, que poderia muito bem ser considerada como estabelecimento da religião de Estado, tem um lado muito curioso, talvez revelador.

No prólogo dessa lei, proclamava-se que a religião histórica da Rússia era a Ortodoxa, e que havia outras religiões “secundárias tradicionais”: o Islamismo, o Budismo e… o Cristianismo. Ou seja, a Igreja Ortodoxa não é uma mera expressão do cristianismo, não. É uma realidade aparte.

Como é essa realidade?

Caprio dá algumas pinceladas não suscetíveis de simpatias desses ortodoxos, mas que quem quer se aprofundar nesse fenômeno fica com a “pulga atrás da orelha”:

“A Ortodoxia Russa é, com efeito, uma dimensão espiritual distinta, na qual os dogmas cristãos se misturam com resquícios pagãos muito mais do que em outros ramos do cristianismo e, sobretudo, são reformulados em ideais universalistas nacionais que descrevem a Rússia como um ‘povo salvífico’ para toda a humanidade”.

É, pois, na mente deste analista, a expressão de uma “ideologia pós-religiosa”, “o que implica em uma interpretação inteiramente política do ‘renascimento religioso’ do pós-comunismo, que deixou de ser uma busca espontânea de Deus para se tornar um renascimento da Igreja do Estado.”

Essa ideologia ortodoxa seria “um marco de valores e princípios de referência baseado na distinção e na rejeição do que se denomina ‘Ocidente’”, entendido como “um espaço dominado pelo espírito degradado dos inimigos da verdadeira fé”. Esse novo estilo de ortodoxia russa e seu aliado Putin seriam os chamados a lutar contra o Anticristo que dominou o Ocidente. Putin sozinho não poderia ter encarnado esse ideal; ele precisava de uma religião para sustentá-lo.

Uma nova religião?

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