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terça-feira, junho 14, 2022

Refrigério, luz e paz

São Gregório Magno fundou em Roma uma escola de música sacra que ele mesmo, às vezes, dirigia como maestro e utilizava um chicote para corrigir os alunos.  

Redação (24/12/2021 08:56, Gaudium Press) São Gregório Magno compôs cânticos que passaram a integrar a Liturgia e tiveram grande repercussão na França, Alemanha e Inglaterra. Certa noite, uma pomba – representando o Espírito Santo – lhe apareceu e “ditou as composições musicais com as quais ele enriqueceu a Igreja”.

Tendo levado uma vida de luta contra os erros e heresias, sempre visando a salvação das almas e a glória da Santa Igreja, ele faleceu em 604, aos 64 anos de idade.

Transcrevemos a seguir alguns comentários de Dr. Plinio Corrêa de Oliveira a respeito de São Gregório Magno e do canto gregoriano, ou cantochão.

Este Santo “foi o verdadeiro fundador da Idade Média, porque […] ele, de algum modo, acabava de fechar a última réstia da porta que separava os homens da antiguidade pagã, e abria, por outro lado, a porta para a idade nova que ia nascer. […]

“Foi um grande fundador de conventos, e a expansão da vida cenobítica é um dos fatos mais característicos do começo da Idade Média.

“São Gregório, de outro lado, trabalhou pelo cantochão. E é interessante imaginar o grande Papa, Doutor da Igreja, político eminente, ensinando cantochão para os seus alunos, não de vareta em punho, mas de chicote. A imagem é pitoresca e pediria uma iluminura, ou talvez um vitral.

“Com a fundação do cantochão ele propriamente deu voz à Idade Média. Porque o cantochão foi a grande voz cantante da Idade Média, de ponta a ponta. E transmitiu o seu caráter à vida beneditina que São Bento tinha lançado, mas que ainda não tinha tomado todo o seu cunho de firmeza e definição que adquiriu com ele.

O povo ia ao encalço do santo para levá-lo ao papado

“É admirável, na vida de São Gregório Magno, o sentido missionário, impulsionando as missões na Inglaterra e na Irlanda. Daí o deflúvio da grande corrente dos missionários que, da Inglaterra e da Irlanda, voltam para o continente onde iriam desbravar a Germânia e deitar as sementes da Idade Média.

“Vemos, ao mesmo tempo, esse homem tratar, mas inutilmente, da grande chaga da Cristandade naquele tempo: o Império Romano do Oriente, cada vez mais tendente ao cisma. Esse império cambaleava sempre entre a heresia e a verdade católica.

“E, por fim, como todos sabem, acabou ruindo. Mas ele tentou segurar esse muro da cidade de Jesus Cristo que ameaçava cair, e aí vemos mais um exemplo da suma ingratidão de Bizâncio diante do zelo dos Papas. […]

“Assim, pode-se dizer que todos os problemas do tempo passaram pela mente desse grande homem. Ele os analisou, os enfrentou e, ao mesmo tempo, escreveu obras que foram pilares do pensamento medieval. […]

“Ele viveu numa época dura, de desordem e até de crimes berrantes. Contudo, o povo que participava dos males da época ao mesmo tempo aclamava um santo como Papa. O santo fugia do povo e este ia ao seu encalço, e o colocava no papado. Era um povo capaz de discernir um santo de quem não era santo, e de preferir o santo em relação ao não santo.

Hoje seria a mesma coisa? O povo iria ao encalço do santo para levá-lo ao papado? Como tudo mudou…”

Força da inocência aliada à graça

O gregoriano “é a força da inocência aliada à graça, que transformou, por exemplo, os pântanos e vales mefíticos da antiga Europa em jardins salpicados de vida e de cor, onde, entre arvoredos e lagos lindíssimos, avantajam-se grandiosas abadias, imponentes castelos e majestosas catedrais. […]

“Qual é o efeito do gregoriano sobre a alma do homem contemporâneo que sabe admirá-lo? Sobre a minha própria alma, portanto?

“Eu diria que dele emana uma forma de temperatura que transmite todo o aconchegante do quente e todo o agradável frescor do frígido, de um frio que não corta nem maltrata, onde uma brisa tépida, de vez em quando, faz sorrir. Ele tem as temperaturas da vida, que estão para além das algidezes e calores do mundo mineral.

“É uma composição de outra natureza, que nos comunica refrigério, luz e paz; que ajuda a despertar e a dar vigor, em nossas almas, a mil ordenações da inocência que o choque com o mundo contemporâneo — no qual encontramos uma selva com macacos, tigres, cobras e javalis, que são os assuntos alheios à nossa salvação eterna — tenderia a fazer esquecer e a adormecer, desviando nosso olhar espiritual.

Cântico do murmúrio

“Outro efeito que o gregoriano produz nas almas é o de tornar-lhes patente o lugar do murmúrio na expressividade do homem. É falso que este, para se exprimir por inteiro, tenha de fazê-lo nos registros mais altos de sua voz e nas ondulações maiores de seus movimentos. Não. Existem harmonias, composições, santidades por assim dizer supra sônicas que se veriam maculadas e traídas caso fossem descritas pelo som na sua máxima intensidade. Só o murmúrio é capaz de expressar o que é supra sônico. Por isso o gregoriano é o cântico do murmúrio.

“E enquanto tal, aliás, faz ele sentir que esta é a terra de exílio para a qual viemos em consequência do pecado original. Há nele algo de penumbra ascética, de sonoridades meio penitenciais, de almas do Purgatório que passam sussurrando, gemendo e entoando canções de esperança.

“Se prestarmos bem atenção, veremos nele a inocência que se sabe a si mesma em estado de prova, tomando todos os cuidados consigo mesma. Há um quê de mortificado, de vigilante, dentro do celeste desembaraço do gregoriano, à maneira do capuz colocado na cabeça de um frade jovem: lembra o aspecto penitencial, adverte contra o vazio das coisas terrenas, contra o mentiroso dos élans excessivos do próprio homem.

“Assim é o gregoriano. Das alegrias exultantes do Te Deum, aos recolhimentos solenes do Tantum ergo, é a música que tem essa qualidade incomparável de exprimir a atitude perfeita, o exato grau de luz da alma reta e verdadeiramente inocente quando se coloca diante de Deus”.

Roguemos a São Gregório Magno que interceda para que o Imaculado Coração de Maria triunfe o quanto antes, após as punições purificadoras pelas quais o mundo deve passar.

Por Paulo Francisco Martos

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