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Santa Virgínia Centurione Bracelli

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Santa Virgínia Centurione Bracelli, cuja memória a Igreja celebra no dia 15 de dezembro, fundou a Obra das Irmãs de Nossa Senhora do Refúgio do Monte Calvário: um refúgio para as almas que buscavam a Deus e precisavam de proteção.  

R204 HAG D Retrato oficial deSanta Virginia

Redação (15/12/2023 10:21, Gaudium Press) Virgínia nasceu a 2 de abril de 1587. Poucos dias depois, foi conduzida à fonte batismal, onde o ministro sagrado parece ter discernido em sua cândida fronte o sinete dos predestinados. “Será ela um Anjo?”, perguntou-se ao vê-la.

Lélia Spinola, a mãe de tão abençoada criança, era uma piedosa senhora. Esmerou-se em educar a filha nas vias da virtude e do relacionamento com o sobrenatural, e teve tanto êxito nos seus intentos que a pequena “aos quatro anos já rezava admiravelmente e, ainda ocupada em estudar o alfabeto, já sabia meditar em Jesus crucificado”.

Sendo ela muito menina, Francisco, o irmão mais velho, recebia lições de latim, mas era por demais caprichoso. Isso obrigava a mãe a ficar vigiando durante as aulas, enquanto Virgínia permanecia junto a eles, costurando na mesma sala. Tendo adquirido bastante habilidade no manejo da linha e agulha, procurava ela prestar atenção nas lições, o que lhe permitiu aprender muito cedo o Latim.

Mesmo antes de cumprir os dez anos de idade, ela estudava, meditava e aprendia longos trechos das Escrituras, especialmente dos Evangelhos, com os quais tanto se familiarizou que podia citá-los de cor e até fazer pregações sobre eles.

Sentia em si um ardente desejo de se tornar religiosa, mas só à piedosa mãe confidenciava seus infantis anelos. Esta a compreendia e estimulava, prometendo-lhe, chegada a hora, conduzi-la pessoalmente ao convento. Contudo, logo veio a falecer, deixando a pequena nas mãos do pai e de uma madrasta. Eles continuariam sua educação de modo bem diferente…

Por vias opostas aos desejos de Deus

Virgínia pertencia a uma nobre família de Gênova. Giorgio Centurione, seu pai, ocupava um alto cargo da República e, estando acostumado a em tudo se guiar por critérios financeiros e políticos, custava-lhe compreender a vocação religiosa de sua filha, à qual pretendia unir em matrimônio com um dos partidos mais ricos da cidade.

A jovem era dócil, generosa e tendente à timidez. Aos quinze anos de idade não possuía ainda firmeza de alma suficiente para enfrentar a vontade do progenitor, nem contra-arrestar as artimanhas a que ele recorria para impô-la. Assim, quando este lhe comunicou estar já com o candidato e a data assentes para o casamento, Virgínia não pôde senão acatar a determinação paterna envolta num doloroso pranto.

No dia marcado, antes de se dirigir à igreja, foi se despedir do Crucificado diante do qual tanto rezara parecendo-lhe ouvir que a queria toda para Si. Desta vez, entretanto, escutou claramente dos seus lábios uma severa repreensão: “Virgínia, tu Me deixas por um homem!”

Foi o início de um doloroso calvário. Deus queria transformar sua débil índole de pomba na de um destemido leão, disposto a lutar pela glória de sua causa. A angústia e a aflição por ter traído o chamado divino, para percorrer vias a ele tão opostas, não se afastavam do seu espírito. Somou-se a isto o aparente abandono que o Céu lhe fazia experimentar…

Cinco anos de matrimônio

Gaspar Bracelli, seu marido, passava o tempo em festas e jogatinas. Nos longos dias em que a deixava sozinha em casa, Virgínia encontrava conforto diante de seu Bom Jesus. Suplicava-Lhe que perdoasse suas misérias, a tornasse uma filha sem mancha e a fizesse, por fim, cumprir sua missão.

Ora, transcorridos cinco anos de matrimônio, fruto do qual nasceram duas filhas – Lélia e Isabel –, Gaspar contraiu uma tuberculose que o levou à morte em poucos dias. Virgínia obteve-lhe a graça dos derradeiros Sacramentos e ele rendeu sua alma em paz com Deus.

Giorgio Centurione quis aproveitar a situação para obter mais um casamento brilhante para sua filha. Entretanto, ao apresentar-lhe a proposta recebeu a mais categórica das negativas. E, como continuasse insistindo com ameaças e lisonjas, Virgínia cortou sua linda cabeleira em sinal de rotura definitiva com o mundo e entrega perpétua nas mãos de Deus.

As comunicações celestes, então, regressaram. Passava horas em colóquios e êxtases com seu Senhor Jesus e com Maria Santíssima. As amigas que iam visitá-la viam-se com frequência obrigadas a aguardar longo tempo enquanto ela permanecia rezando no seu oratório, mas amenizavam a espera observando-a secretamente pelas frestas, edificadas com seu profundo recolhimento.

À espera de um sinal da Providência

Naquela época, Virgínia vivia com a sogra, sem o auxílio de criadas, e seguindo regras, costumes e horários mais próprios a um convento. Estava à espera de um sinal claro da Providência, que lhe mostrasse as vias a seguir. Em certo momento, porém, o ambiente mudou radicalmente em Gênova. A rica e despreocupada cidade passava por terrível aflição: franceses e piemonteses haviam-se coligado para conquistá-la!

Enquanto na capital se multiplicavam os jejuns, Confissões e procissões com o Santo Sudário e a relíquia de São João Batista, trinta mil soldados inimigos se aproximavam dela. Aldeias e povoados eram devastados, obrigando milhares de crianças e anciãos a procurar refúgio em Gênova.

Com a ajuda de outros nobres, Santa Virgínia empenha-se em socorrer os fugitivos que se ­aglomeravam nas praças. Urge naquele terrível momento o auxílio material, e urge mais ainda fazer cessar as graves e imorais consequências a que tal calamidade expunha a cidade.

Afastado o perigo da invasão, Virgínia passou em revista a cidade inteira, ordenando tudo, preocupada pela formação espiritual daquelas almas abandonadas, especialmente pela das crianças.

O Refúgio do Monte Calvário

Por anos inteiros Santa Virgínia rezou a jaculatória “emitte lumen tuum – enviai a vossa luz”, para que lhe fosse revelada sua vocação. Havendo falecido a sogra e tendo-se casado as filhas, numa tarde de inverno estava recolhida em oração, quando ouviu sob sua janela o pranto de uma menina.

Ao ser avisada pela criada que se tratava de uma criança abandonada em consequência da guerra, decidiu acolhê-la. Movida pela voz de Deus que ouvira claramente no seu interior, abraça com emoção a pobrezinha, veste-a, aquece-a e lhe diz: “Ficarás comigo e serás minha filha”. Tinha início assim a primeira família espiritual de Santa Virgínia.

Pouco tempo depois, acolhe outra menina; mais tarde, uma terceira. Em breve chegam a quinze, e não demora muito em ter de deixar a casa familiar para transladar-se ao Mosteiro do Monte Calvário, que havia sido construído trinta anos antes pelos franciscanos reformados.

A ele chegou em solene procissão, acompanhada de quarenta filhas. Dirigiram-se em primeiro lugar à igreja onde, bem junto ao tabernáculo, consagrou a nova obra ao Rei dos reis. Pediu-lhe que não a deixasse inacabada, assistindo-a com profusão de graças, para que dali saíssem almas que verdadeiramente O amassem.

Estava fundada a obra de Virgínia Centurione Bracelli: um refúgio para as almas que buscavam a Deus e precisavam de proteção. Havia sido dado o primeiro passo para as futuras congregações das Irmãs de Nossa Senhora do Refúgio no Monte Calvário, e das Filhas de Nossa Senhora do Monte Calvário.

Inicia-se a vida religiosa em Carignano

No Refúgio do Monte Calvário, aquelas meninas deviam encontrar, além de uma solução para suas carências materiais, amparo para sua santificação e salvação, pois muitas delas eram chamadas pela Providência a dedicar suas vidas a Cristo. Foi visando essa finalidade que Virgínia delineou os horários e as regras, idealizou os uniformes e hábitos.

Logo a obra deitou raízes fecundas e fez-se necessário abrir mais casas. Em Monte Calvário e outros lugares ficaram as jovens que não sentiam em si a vocação religiosa; para Carignano foram apenas aquelas que desejavam levar uma vida austera e regrada. Estas, por recomendação de Frei Matias Boroni, sacerdote capuchinho que se tornou diretor do Refúgio, seguiam a regra dos terciários franciscanos, sem votos, mas prometendo obediência aos seus superiores. Adotaram como vestimenta o hábito das clarissas e, assim, “de ‘virgens seculares’ passariam a ser religiosas, e consagradas a Deus”.

Tudo em Carignano fluía dentro de uma disciplina envolta em piedade e trabalho. Para as almas se abrasarem no amor a Deus, desejava Virgínia que as cerimônias litúrgicas fossem ornadas com ricas alfaias e paramentos, e revestidas de perfeição e esplendor. Frequentar o Refúgio levava a saborear as doçuras do Céu, ser convidado a mudar de conduta ou se afervorar ainda mais.

Mas, além de fomentar a vida espiritual de suas filhas com Adorações ao Santíssimo Sacramento, orações em conjunto, preferencialmente o Rosário, cerimônias em honra a Nossa Senhora e reuniões sobre temas espirituais, Santa Virgínia também as educava no trabalho.

Tinha bem presente a máxima beneditina ora et labora e o benefício para a vida espiritual de manter-se ocupada. Enquanto a oração revigora o interior, o trabalho ordena o exterior, formando a pessoa na seriedade e no domínio de suas paixões; quem cede ao ócio está entregue às tentações do demônio e às solicitações da concupiscência.

Piedade profunda e exemplar

A vida espiritual da fundadora servia de meta, modelo e exemplo para suas filhas. Acostumaram-se a vê-la em diários e profundos êxtases, e a perceber como, no momento de receber a Comunhão, o seu rosto tornava-se resplandecente e suas faces se abrasavam.

Recorria com assiduidade ao Sacramento da Reconciliação, até duas vezes ao dia.

De contínuo conversava com Nossa Senhora e Lhe pedia luzes, conselhos e direção para tudo quanto fazia. D’Ela recebia instruções e até revelações, pois possuía um forte vínculo com a Rainha dos Céus, que procurava transmitir e estender a todos os que com ela conviviam. Nem no leito de morte deixou de incentivar a devoção a Ela.

Vítima da fúria dos infernos

No fim da sua existência, Nosso Senhor reservou, para quem assim se oferecia como vítima, uma cruel imolação. Prostrada num leito de dores por uma terrível moléstia, com febre alta, sofria acessos tão violentos, que os circunstantes foram obrigados a amarrá-la na cama com fitas de couro, as quais muitas vezes ela rompia…

Assaltava-a a fúria dos infernos, os demônios martirizavam-na sem cessar. Nas horas de tranquilidade era acometida por abatimentos e angústias, sentindo-se totalmente abandonada pela Providência, inutilizada, liquidada.

Além das investidas diabólicas, teve de padecer as penas do Purgatório e foi conduzida até as portas do inferno. Sofreu o calor das chamas eternas e chegou a encontrar ali certos conhecidos, mortos ou ainda vivos… Visões pavorosas a oprimiam e amedrontavam tanto que, ao voltar a si, o único brado que lhe saía dos lábios era: “Senhor, misericórdia!”

Durante tais visões, pronunciava frases das quais os presentes não conseguiam compreender o alcance, fazendo-os concluir que era algo relacionado com o futuro da Igreja e do mundo. Infelizmente essas revelações não ficaram registradas nas páginas da História, apenas no livro da vida…

A consumação do sacrifício

Em dezembro de 1651, Virgínia enfrentava a dor com o ânimo dos mártires, com a fortaleza dos cruzados e, sobretudo, com a calma e a serenidade de seu Senhor crucificado. Nunca deixava escapar uma queixa e sempre procurava, pelo contrário, fazer o bem aos que a circundavam. Rogava por cada um e pedia perdão a todos.

Sua doença foi consumindo-a paulatinamente. Prevendo que morreria antes do Natal, dizia a suas filhas espirituais: “Que júbilo experimentaria se fosse assistir lá em cima aos preparativos que os Anjos e os Santos fazem para o nascimento do Redentor!” E na festa da Imaculada Conceição perguntou a uma delas: “Que direis se dentro de oito dias nos achássemos no Céu?”

Não se enganara a santa fundadora em seus prognósticos. No dia 15 de dezembro, oitava da Imaculada Conceição, enquanto suas filhas rezavam as orações dos agonizantes, seus lábios balbuciaram estas palavras: “Está pronto o meu coração, ó Deus!… Senhor, eis a minha alma!” E exalou o último suspiro. Tinha sessenta e quatro anos de idade.

Como o novo mosteiro ainda estava em construção, foi sepultada na Igreja de Santa Clara. No dia do enterro, seus membros não tinham ficado rígidos, o rosto permanecia róseo e os lábios esboçavam um sorriso. E, transcorridos cinquenta anos, o corpo foi exumado ainda flexível e sem deterioração alguma.

Sendo muito numerosas as pessoas que acorriam para venerá-lo, as autoridades civis mandaram sepultá-lo novamente, desta vez num túmulo muito úmido, situado em outra igreja. E ao exumar o cadáver tempos depois para entregá-lo às irmãs do Refúgio, ele estava totalmente mofado. Foi preciso retirar-lhe o hábito e limpá-lo com cuidado.

Hoje, apesar de deteriorado, o corpo de Santa Virgínia permanece flexível, revestido com o traje azul que substitui o antigo hábito franciscano. Dele emana uma singular aura da santidade própria a esta alma de escol, encanto do Deus Altíssimo!

Texto extraído, com adaptações, da Revista Arautos do Evangelho n. 204, dezembro 2018. Por Ir. Emelly Tainara Schnorr, EP.

 

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