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quinta-feira, abril 14, 2022

Santo Antão: Pai da vida monástica

Santo Antão foi um luzeiro da vida ascético-monacal, abrindo caminho para incontáveis almas que escolheriam abandonar o mundo para encontrar-se com seu Criador através de uma via de penitência.   

Redação (17/01/2022 09:59, Gaudium Press) A história deste Santo inicia-se por volta do ano 251, no Egito. Sabe-se que seus pais eram cristãos, dispunham de boas condições financeiras e educaram os filhos no caminho da santidade.

Com a morte dos pais, ocorrida quando Antão contava por volta de vinte anos de idade, ele ficou incumbido dos cuidados da irmã mais nova e da casa.

Abandono completo nas mãos da Providência

Certo dia em que se dirigia para a igreja, pensava especialmente no modo de vida dos Apóstolos, que abandonaram tudo a fim de seguir Nosso Senhor Jesus Cristo. Tendo chegado ao templo, ali entrou no exato momento em que era lido um trecho do Evangelho de São Mateus: “Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me” (19, 21).

Movido por uma graça, Antão compreendeu que tais palavras ditas outrora por Nosso Senhor ao jovem rico eram, naquele instante, dirigidas a ele.

Resoluto e arrebatado de entusiasmo, imediatamente distribuiu a herança deixada por seus pais e vendeu seus bens. Parte da quantia recebida destinou aos pobres e o restante reservou para a irmã, fazendo-se assim executor exímio do conselho dado pelo Divino Mestre.

Algum tempo depois, ouviu durante a Missa a seguinte passagem do Evangelho: “Não vos preocupeis com o dia de amanhã” (Mt 6, 34). Então, distribuiu decididamente o que lhe restava da fortuna e confiou a irmã a algumas virgens cristãs, para ser educada por elas.

Deste modo, seguindo com fidelidade a voz da graça, começou a trilhar a via a que o Espírito Santo lhe destinara e abraçou exteriormente a vida ascética que de certa forma já habitava em seu coração.

Busca pela perfeição

Após renunciar ao mundo, Antão buscou os meios necessários para pôr em prática o seu ideal. Primeiro aconselhou-se com um ancião que morava perto de sua aldeia natal, o qual levava vida solitária e tinha fama de ser muito piedoso. Seguindo seu exemplo, o Santo procurou um lugar isolado para morar, fora do povoado.

Nesse período procurava visitar homens de fervor, a fim de espelhar-se em suas obras e emular as virtudes que neles discernia. Por esse motivo, era conhecido como o “amigo de Deus”. Seu amor pelo Criador fazia-o ver em cada ato bom praticado pelos outros uma revelação do Senhor.

Antão avançava resolutamente na vida ascética: renúncias, sacrifícios e orações preenchiam o seu dia, além do tempo que dedicava ao trabalho manual, confeccionando esteiras. Entretanto, grandes lutas ainda o aguardavam na via de penitência que abraçara.

Primeiras batalhas contra o demônio

O anjo das trevas, vendo suas práticas virtuosas, começou a tentá-lo de forma cada vez mais explícita. A fim de levá-lo a abandonar a vida solitária, lembrava-o dos bens que deixara, do cuidado de sua irmã e dos prazeres do mundo.

Por outro lado, mostrava-lhe as dificuldades que há na prática da virtude, a fraqueza do corpo e as frequentes adversidades que o homem deve enfrentar devido às suas más tendências, fruto do pecado original. A esses assaltos do inimigo infernal ele resistiu energicamente, com o auxílio da graça, através da oração.

Sofreu ainda inúmeras tentações contra a virtude angélica da pureza. O combate era ininterrupto: usando de artifícios maléficos, o pai da mentira o perturbava dia e noite com pensamentos e imaginações lascivas.

Para vencer tais batalhas, Antão elevava suas cogitações para Nosso Senhor e a nobreza da alma humana criada por Deus. Além disso, redobrava sua fé, orações, jejuns e mortificações, convicto de que se tratava de uma luta sem fim, que ele deveria travar enquanto estivesse na terra.

Isolado em um túmulo

Sempre desejoso de aproximar-se mais de Deus e de novos embates contra o maligno, Antão decidiu isolar-se em dois lugares inusitados.

Primeiro tomou a resolução de morar em um sepulcro situado na orla do deserto. Certos autores dizem tratar-se de uma tumba egípcia, fazendo notar que tais locais eram tidos como habitação dos maus espíritos.

Tendo recomendado a um amigo que lhe trouxesse alimento periodicamente, ele entrou no túmulo e o fechou. O inimigo, porém, “temendo que em pouco tempo o deserto se tornasse uma cidade de ascetas, certa noite entrou no sepulcro com uma multidão de demônios e o golpeou a ponto de deixá-lo estendido por terra”.

No dia seguinte seu amigo o encontrou desfalecido e, julgando-o morto, levou-o para a igreja da aldeia.

Entretanto, ao recobrar os sentidos Antão rogou-lhe que o conduzisse de volta para o túmulo, onde ficou só. Redobrando o ataque, os espíritos malignos apareceram-lhe em forma de animais ferozes: leões, ursos, leopardos, touros, lobos, escorpiões e serpentes o atormentavam por meio de ruídos horríveis e agressões, por permissão divina.

Antão “gemia de dor física, mas permanecia com a alma vigilante” e zombava de seus algozes. Levantando os olhos, viu o teto abrir-se e uma luz penetrar o ambiente. Os demônios fugiram e o Santo sentiu-se reconfortado em suas penas ao reconhecer a presença de Nosso Senhor.

Perguntou-Lhe então por que não viera socorrê-lo antes, ao que Ele respondeu: “Eu estava aqui, Antão. Esperava para ver-te combater. Como resististe e não te deixaste vencer, serei sempre teu socorro e tornarei teu nome célebre por toda parte”.

Tais enfrentamentos, longe de o abalarem, faziam aumentar seu desejo de progredir cada vez mais nas vias da perfeição. Com esse intuito decidiu adentrar-se no deserto.

Vida eremítica no deserto

Já no início de sua viagem o inimigo quis tentá-lo, apresentando-lhe ouro e prata no solo desértico. Sem se deixar enganar por tal embuste, Antão proclamou em alta voz que nada seria capaz de desviá-lo de seu propósito, e seguiu o seu caminho, cheio de desprezo por satanás e confiança em Deus.

Em determinado momento avistou as ruínas de um forte abandonado localizado próximo ao Rio Nilo, no alto do Monte Pispir, atualmente conhecido como Dayr al-Maymūn. Tendo estabelecido ali sua nova morada, Antão cerrou a entrada. Levara consigo alguns pães típicos da região, feitos para durar por longos meses, e duas vezes por ano recebia novas provisões que lhe lançavam por cima do muro. Não permitia a ninguém entrar.

Antão passou cerca de vinte anos neste local, sem jamais sair. Do lado de fora podia-se ouvir os gritos que os demônios soltavam para atormentá-lo; ele, porém, não se abalava e continuava a rezar e praticar suas penitências.

Mestre dos monges e consolo dos aflitos

A vida de Antão, célebre pelos sacrifícios e renúncias, tornou-se conhecida de muitos que, cativados por sua fama de santidade, foram ter com ele no deserto.

Em torno de Antão começou a se formar uma pequena colônia de ascetas. Embora habitassem separadamente, eles buscavam a santificação sob as orientações do santo eremita que, abandonando a solidão, tornou-se deles mestre e pai espiritual.

Muitos outros o procuravam para receber conselho e pedir-lhe auxílio em suas dificuldades.

O próprio Imperador Constantino, o Grande, chegou a enviar-lhe uma carta perguntando-lhe como devia fazer para governar no verdadeiro Espírito do Senhor. O monge do deserto, após ouvir a solene leitura da missiva, ditou uma pequena resposta: “Praticai a humildade e desprezai o mundo, e lembrai-vos de que no dia do Juízo, tereis de prestar contas de todos os vossos atos”.

Entre os prodígios que lhe são atribuídos, conta-se que em uma viagem feita com alguns discípulos Antão fez surgir água no meio do deserto para saciar a sede de todos, que estavam já por desfalecer.

Ademais, curava os doentes, consolava os aflitos, reconciliava os inimigos e exorcizava demônios. Ele, que no isolamento vencera os ataques diabólicos, agora livrava muitas almas do poder do tentador.

Alguns anos se passaram, e Antão ansiava por retomar sua vida de solidão… Contudo, os antigos locais habitados por ele haviam se convertido em pequenas comunidades de discípulos. Enquanto buscava uma solução, ouviu uma voz que lhe disse: “Vai ao deserto interior”.

Deus inspirou-lhe então seguir uma caravana de sarracenos que partia para lá. Após três dias de viagem, ele avistou uma alta montanha e reconheceu-a como sendo o lugar desejado pelo Senhor: tratava-se do Monte Colzim, onde habitou até o fim de seus dias.

Chamado a defender a verdadeira Fé

Anos mais tarde, a pedido do Patriarca Santo Atanásio, Antão foi a Alexandria novamente, mas desta vez para defender a verdadeira Igreja contra o veneno da heresia.

Tratava-se do arianismo, falsa doutrina já condenada pelo Concílio de Niceia, que negava a divindade do Verbo e ameaçava propagar-se por todo o orbe cristão. O monge do deserto, que em suas comunicações místicas contemplara a divindade de Nosso Senhor, era a testemunha que neste momento a Santa Igreja tanto necessitava.

Logo após sua chegada, cristãos e hereges reuniram-se na basílica da cidade para escutá-lo. Assim que o Santo Patriarca iniciou seu discurso em louvor da natureza divina da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, um revoltoso rudemente o interrompeu com protestos, afirmando que o Senhor era apenas um homem criado por Deus. Quando Antão ouviu o que dizia, ergueu-se e bradou em alta voz: “Eu O vi!”

Tal testemunho, dotado do timbre da verdade, arrebatou os presentes. “Mais que a bela e lógica doutrina exposta no Concílio, a imponente voz desse homem, para quem a verdade da natureza divina de Cristo se tornara quase uma evidência em virtude de uma visão sobrenatural, foi o maior golpe que a heresia recebeu”.

Últimos anos

Depois de exortar o povo de Deus a ser fiel à verdadeira Religião e a combater as heresias e seus fautores, o monge do deserto retornou à sua morada no Monte Colzim.

Seus últimos anos transcorreram na meditação e ascese. Cultivava trigo e preparava o próprio pão. De vez em quando visitavam-no alguns discípulos, que também cuidavam de lhe levar víveres. Permaneceu constante na vida de austeridade, entre penitências e orações, e num crescente convívio místico com Deus.

Já próximo da morte, e tendo mais de cem anos, Antão era auxiliado por dois discípulos. Segundo a tradição, entregou sua alma a Deus no dia 17 de janeiro, data em que a Igreja celebra sua memória.

Que seu exemplo possa sustentar todos aqueles que, nos dias atuais, travam combates quiçá maiores contra os inimigos de Deus e sua Igreja, recordando-lhes a promessa infalível do Salvador: “As portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18).

Texto extraído, com adaptações, da Revista Arautos do Evangelho n.229, janeiro 2021.

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