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quinta-feira, agosto 11, 2022

São Francisco Solano

18 de julho, a Igreja lembra a memória de São Francisco Solano, um homem que possuía o dom de espalhar a alegria e convertia multidões.

Redação (17/07/2022 18:15, Gaudium Press) Francisco Sánchez Solano Ximénez nasceu na católica Espanha das grandes expedições ultramarinas e foi batizado em 10 de março de 1549, na Igreja Paroquial de Montilla. Seus pais, Mateo Sánchez Solano e Ana Ximénez, eram muito respeitados, não apenas pela nobreza do sangue, mas, sobretudo, por suas virtudes.

Dotado de temperamento recolhido e contemplativo, entretinha-se observando longamente a natureza, encantado por sua beleza. Devido a uma rara sensibilidade musical, tinha como passatempo predileto alimentar com migalhas as melodiosas avezinhas encontradas nos jardins da casa e cantar com elas. Começava assim a “exercitar-se uma voz que havia de cantar as grandezas de Deus às bárbaras nações indígenas”.

Todavia, tal serenidade de espírito não significava indolência de caráter. Quando presenciava algum desentendimento entre as crianças, ou mesmo entre adultos, admoestava com seriedade os contendores e sempre lograva a reconciliação. Exercia, além disso, singular influência sobre as pessoas com as quais convivia: bastava sua presença para aquietarem-se as más inclinações, os vícios perderem o dinamismo e as almas se sentirem propensas à virtude.

Sacerdote franciscano

Quando sentiu em sua alma a vocação religiosa, logo a identificou com o carisma franciscano, que vira espelhado nos frades do Convento de São Lourenço, em sua cidade. Atraía-o sobremaneira a ideia de se tornar discípulo do Poverello de Assis, por quem nutria veemente entusiasmo. Fez nesse convento a profissão religiosa em 25 de abril de 1570.

Para aprofundar os estudos, foi enviado ao Convento de Santa Maria de Loreto. Ordenado sacerdote em 1576, na festa de São Francisco de Assis, teve de voltar a Montilla três anos depois, devido ao falecimento de seu pai. Durante a estadia na terra natal, operou a cura milagrosa de alguns doentes. A notícia desses prodígios logo se espalhou pela cidade, levando o povo a aclamá-lo como santo. Começou então uma das suas maiores batalhas, a qual travou até o último suspiro: a de não permitir que atribuíssem à sua pessoa os louvores devidos a Deus.

Dom de comunicar alegria

Exerceu em vários conventos cargos de autoridade, como prior e mestre de noviços, e era para os outros religiosos um contínuo convite à santidade. Fidelíssimo à “dama pobreza” e admirador enlevado dos reflexos das perfeições divinas encontrados nas criaturas, agia em todas as circunstâncias como um filho perfeito de São Francisco de Assis. Da mesma forma como era intransigente consigo mesmo nas penitências corporais, não tolerava que nenhum de seus subalternos manifestasse tristeza por estar servindo a Deus. Tinha o precioso dom de comunicar-lhes “o gosto, a alegria pelas coisas santas” e fazia o apostolado “da alegria na luta, da alegria na seriedade, da alegria no sofrimento, do entusiasmo”.

Ora, o povo percebia a excelência de tais virtudes, de modo que, quando o santo frade saía à rua para pedir esmolas, os transeuntes o cercavam, disputando o privilégio de oscular-lhe o hábito ou receber sua bênção.

No intuito de desvencilhar-se dessas manifestações, pediu para ir evangelizar as “Índias”. Teve grande contentamento ao ser designado para uma missão na província de Tucumán, no Novo Mundo, para onde embarcou em 13 de março de 1589.

No entanto, devido a um naufrágio e a outros contratempos, acabou aportando alguns meses depois em Paita, no Peru, e somente chegou a Santiago do Estero, capital da província a que se destinava, em 15 de novembro de 1590, depois de um longo e penoso percurso, iniciando aos 41 anos de idade sua vida de missionário.

Apóstolo no Novo Mundo

Nos povoados de Socotonio e Magdalena, para onde foi enviado como pregador, aprendeu em menos de quinze dias o complicado dialeto tonocoté. Falava-o com impressionante fluidez, chegando a expressar-se com mais perfeição do que muitos nativos. Além dessa facilidade, deu-lhe a Providência o mesmo dom concedido aos Apóstolos no dia de Pentecostes: em algumas de suas pregações, falando a espanhóis e índios de diferentes dialetos, todos o entendiam, cada qual no respectivo idioma.

Nada o detinha na conquista das almas para Cristo. Expunha-se a grandes riscos, indo à busca dos indígenas que viviam nas matas e, quer para alimentar-lhes a fé, quer para auxiliá-los nas necessidades materiais, prodigalizava milagres por onde passava. Entre inúmeros outros prodígios, fez brotar nascentes em lugares desérticos, amansou animais ferozes, curou doentes, proveu de alimentos em tempos de escassez.

Contudo, sem sombra de dúvida, seus maiores milagres eram os que se operavam no interior das almas: “O padre Solano amava os índios, falava-lhes em sua língua, e eles lhe respondiam, convertendo-se aos milhares”.

Seu singular instrumento de piedade e apostolado, o violino, era complemento indissociável de um original e eficaz método de evangelização, o qual consistia em entremear as pregações com animadas melodias, ora executadas com o arco e as cordas, ora cantadas com sua bela voz.

Maravilhados, os indígenas abriam-se à ação da graça e logo surgia o corolário esperado pelo apóstolo: o desejo de receber o Batismo. A mesma voz que os atraíra pela arte da música e lhes ensinara as verdades da Fé, cumpria a mais alta de suas finalidades, ao ministrar-lhes os Sacramentos. Assim, os preciosos talentos confiados ao servo bom e fiel rendiam a cem por um, e paulatinamente a luz da Igreja se alastrava pela região, vencendo as trevas do paganismo.

Após anos de fecundo apostolado, recebeu em 1595 a ordem de dirigir-se a Lima, para ali fundar um novo convento franciscano. Sempre dócil aos superiores, obedeceu prontamente.

“Vou tocar para uma Donzela belíssima”

A capital do Peru passava por grande florescimento religioso e aqueles anos contemplavam o desabrochar de almas que, mais tarde, seriam veneradas no mundo inteiro: São Turíbio de Mogrovejo, Santa Rosa, São Martinho de Porres e São João Macías.

Os recém-edificados claustros da nova fundação franciscana, batizada com o nome de Nossa Senhora dos Anjos e hoje conhecida como Convento dos Descalços, tornaram-se escrínio deste eleito. Ali o padre Francisco Solano estreitaria sua união com Deus. Sem negligenciar suas obrigações e as obras apostólicas, o santo levou nesse abençoado lugar uma vida de recolhimento e oração; aí se intensificaram e tornaram-se cada vez mais frequentes seus êxtases e arroubamentos de amor a Jesus e à Santíssima Virgem.

Frequentemente, a altas horas da noite, ressoavam na igreja deserta as músicas por ele executadas ao violino. Certa vez, a um religioso com o qual cruzou no corredor, quando para lá se dirigia, disse: “Vou tocar para uma Donzela belíssima, que está me aguardando”.

O frade, intrigado, escondeu-se na noite seguinte atrás da porta da sacristia e pôde contemplar esta cena: após rezar longo tempo diante do altar-mor, o irmão violinista ofereceu a Jesus Eucarístico um breve e animado concerto; foi depois até o altar de Nossa Senhora e ali não só tocou outras músicas, mas, enquanto cantava um entusiasmado hino às glórias da Virgem Mãe, pôs-se a saltar e dançar com muita graça e elegância.

De fato, era aos pés da “Causa de nossa alegria” que o santo franciscano encontrava conforto nos sofrimentos e forças para praticar a virtude, como ele próprio confidenciou: “Nesta casa tenho meus entretenimentos e todo o meu consolo, porque comunico a uma Senhora que é o alívio de minhas penas, o gozo e a glória de minha alma”.

Sermão histórico em Lima

A população de Lima, onde passou os últimos anos de sua vida, foi objeto de seu zelo apostólico, o qual se manifestava, sobretudo, nas pregações. Estas, tão eficazes na conversão de milhares de índios, não produziram efeito menos significativo no povo limenho.

A história daquele país registra o sermão por ele proferido em 21 de dezembro de 1604, o qual conferiu à cidade um traço de analogia com a bíblica Nínive, movida à penitência pelas palavras do profeta Jonas. À multidão aglomerada na Praça das Armas, exortou o santo frade ao arrependimento e à conversão, censurando os maus costumes e lembrando a justiça de Deus, a qual muitas vezes castiga os homens com catástrofes, para corrigi-los e salvá-los.

O sermão calou a fundo nas almas. As igrejas tiveram de permanecer abertas durante toda a noite, devido à enorme afluência de fiéis à procura da reconciliação com Deus. Na catedral, “tal era o concurso de pessoas desejosas de confessar-se que três ou quatro penitentes se ajoelhavam, ao mesmo tempo, aos pés dos confessores, sem se importar de que uns ouvissem as culpas dos outros”.

Grande número dos habitantes abandonou para sempre os maus costumes, comprovando o quanto o efeito daquela prédica não fora um efêmero surto de fervor.

Promessa de um grandioso porvir

À notícia de sua morte, em 14 de julho de 1610, o povo acorreu em massa ao convento, e foi necessário trocar quatro vezes o hábito que o revestia, pois as pessoas, não se contentando em oscular-lhe as mãos e os pés, cortavam-lhe pedaços da roupa para conservar como relíquia.

Homem capaz de mover multidões à conversão e de se enternecer com o canto de um passarinho, dotado de espírito altamente contemplativo e ao mesmo tempo propulsionador de ousadas ações missionárias, São Francisco Solano deixou um exemplo de vida que atravessa os séculos, como promessa de um grandioso porvir para a América.

Se para lançar as primeiras sementes do Evangelho nestas terras, quis a Providência enviar-nos um apóstolo de tal magnificência, quantas outras almas de igual ou maior porte não suscitaria Ela no seio do Novo Mundo, nos séculos vindouros, para dar continuidade à obra tão brilhantemente iniciada?

Texto extraído, com adaptações, da Revista Arautos do Evangelho, n. 127, Jul 2012.

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