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domingo, setembro 26, 2021

São Pio X: Santas e Pias mãos!

A Igreja passava por períodos amargos. As relações com o Estado italiano estavam tensas. Como reagir face a isso? Pio IX relutara, Leão XIII tentara uma aproximação. A Barca de Pedro, porém, seria governada por mãos santas e pias.

Redação (21/08/2021 09:46, Gaudium Press) A segunda metade do século XIX marcou para sempre as páginas da história europeia, especialmente da Itália. A unificação italiana trouxe como consequência a perda dos Estados Pontifícios (1870) e uma cisão nas relações da Igreja com o Estado italiano.

A Igreja nos albores do século XX

Apenas dois pontificados tiveram lugar neste período, em mais de meio século de história: os de Pio IX e Leão XIII.

Se é verdade que Giovanni Mastai Ferretti e Vincenzo Pecci quase se equipararam quanto ao tempo em que reinaram sobre o trono de São Pedro; também é verdade que se diferenciaram notavelmente quanto à política exercida para com o Governo italiano.

Pio IX, de carácter enérgico e afirmativo, manteve sempre tensas as relações com o Estado italiano. Ao considerá-lo como usurpador, punha-se na condição de prisioneiro do Governo. As excomunhões e interditos reboavam ao ar…[1]

Leão XIII, ao contrário – fazendo-se valer de seu talento conciliador – trabalhou diplomaticamente numa atitude de franca compreensão para com as autoridades civis. Utilizando o seu fino tato e a sua sensibilidade, Pecci granjeou que a diplomacia vaticana dialogasse de igual a igual com o Estado italiano.[2]

Certo jornalista italiano da época escrevera que “se Pio IX, o intransigente, o despojado, tivesse suspeitado que, contra os seus desejos e as suas medidas, o Cardeal-Bispo de Perúgia seria o seu sucessor no Pontificado, tê-lo ia excomungado, para que não pudesse ser eleito”.[3]

É neste contexto que, em agosto de 1903, o Colégio Cardinalício se reunia para eleger o sucessor de Leão XIII. Quão grande deveria ser a estatura moral desse Prelado!

Qual seria, entretanto, a sua orientação política? Liberal? Conservador? Tentaria uma aproximação ou seria recalcitrante contra as resoluções políticas?

 Apenas o tempo traria a resposta…

A política de um Papa Santo

 E a resposta não tardou.

Na manhã do dia 4 de agosto, com mais de dois terços dos votos, Giuseppe Melchiorre Sarto foi eleito o 257° Papa da Igreja Católica.

Tendo nascido em Riese, pequena aldeia do norte da Itália, desde cedo destacou-se pelo seu zelo apostólico. Após anos de ministério entre os rudes campesinos, foi nomeado Bispo de Mântua, e nove anos depois, elevado à dignidade de Cardeal-Patriarca de Veneza.

Sarto sempre tivera uma obsessão: o bem das almas! Impelido pela mesma graça que impulsionara os grandes missionários, não hesitava em se sacrificar pelos demais. Sua bondade e generosidade impunha respeito até nos inimigos!

O que dizer de sua humildade? Era de tal quilate, que estando em Roma para o Conclave de 1903, não alimentava qualquer pretensão de ser eleito. “Sou um pobre Cardeal de aldeia”, dizia de si próprio.[4]

De qualquer modo, o Conclave havia terminado. O veto que recebera o Cardeal Rampolla – por parte de Francisco José, Imperador da Áustria –, a relutância do Cardeal Sarto em aceitar o Pontificado, por julgar-se indigno dele, tudo isso havia ficado para trás! “Aceito o pontificado como uma Cruz”.[5] Era tempo de armar-se para o embate que Deus lhe havia reservado!

“Instaurare omnia in Christo!”

Ora, a expectação era grande. Qual seria o programa de seu Pontificado? Se assemelharia mais à intrepidez de Pio IX ou à pacificação de Leão XIII? Ao ser interrogado sobre a demora em pronunciar-se a respeito disso, São Pio X se limitava a responder: “Dizei-lhes que o Papa está a orar”.[6] Nenhum discurso, nenhuma encíclica.

Por quê? Sendo muito cauto, desconhecia a precipitação irrefletida; e sobretudo, aguardava o momento exato de agir. E o momento chegou!

Finalmente, em 4 de outubro de 1903, O Papa Sarto publicou sua primeira Encíclica, que imortalizou as palavras “E supremi apostolatus cathedra”.

Com tal pronunciamento, o Pontífice rompia o silêncio que até então reinava e deixava bem claro a sua intenção: “Declaramos que no exercício do Pontificado nós temos um só propósito: ‘Renovar todas as coisas em Cristo’ (Ef 1,10)”.[7]

Tomando como lema as palavras do Apóstolo, São Pio X levantava o olhar para além dos problemas meramente políticos e deitava luzes à raiz de todas dissoluções existentes naquele início do século XX: “Vós compreendeis, veneráveis Irmãos, qual seja tal enfermidade: o abandono e a recusa de Deus, aos quais está inexoravelmente associada a ruína, segundo as palavras do Profeta: ‘Eis, aqueles que se afastam de ti, perecerão’ (Sl 72, 27)”.[8]

O plano estava traçado. Mais do que evitar as dissenções locais, era preciso empenhar-se em aproximar a humanidade de Deus. Como fazer isso?

O Sumo Pontífice dava importantes recomendações: a primeira era reavivar a imagem do verdadeiro Deus aos homens. “Um justíssimo legislador que pune aos culpados e premeia seguramente a virtude”.[9]

Além disso, era preciso renovar a disciplina da Igreja – da Santa Igreja – para que conduzisse a humanidade a Cristo, e de Cristo a Deus. Tal renovação seria impossível se não houvesse instrumentos hábeis e preparados para esta tarefa. Assim sendo, concluía o Santo Padre: “Veneráveis Irmãos, quanto empenho devereis pôr na formação do clero para a santidade!”[10]

Em onze anos de Pontificado, o Papa Sarto poderia dar mostras de seu verdadeiro e puro amor à Igreja. A renovação por ele desejada, foi – antes de tudo – por ele vivida. E é por isso que os historiadores são concordes em considerar o seu pontificado como um dos mais fecundos e renovadores da história.[11]

De onde virá a restauração?

“A história é a mestra da vida”, diz o adágio. É por meio das lições passadas que se vive o presente e, sobretudo, que se espera o futuro.

Não é semelhante a história da Igreja de hoje como aquela do início do século XX?

Vive-se em paz? Há concórdia entre a Igreja e o Estado? Os homens estreitam as suas relações com Deus ou vivem como se Ele não existisse?

Nem é preciso tratar a respeito das convulsões que assolam a humanidade e a Igreja de hoje… Quem não julga ser necessário uma restauração? Uma verdadeira restauração da Igreja, do mundo, dos homens.

Mas, de onde vem a restauração?

Novamente torna-se necessário voltar o olhar para a história!

A restauração não provém só de manobras políticas, nem sequer de acordos diplomáticos ou de atitudes imperativas ou hostis, mas sim em voltar-se para Nosso Senhor Jesus Cristo, com filial piedade e verdadeira santidade.

Para saber de onde virá a verdadeira restauração basta procurar dentre os homens aquele que como um novo Pio X conclamará a humanidade para a verdadeira santidade, aos pés de Cristo e de Maria.

Quem será ele? Seguramente, um Santo!

E assim, mais uma vez, a Igreja repousará em santas e pias mãos!

Por João Felipe Trevisan


[1] Pio IX, além de excomungar o Rei da Itália, chegou a proibir os fiéis italianos de participarem da política, como candidatos ou eleitores (“né elleti, né elettori”). Cf. PAREDES, Javier (Dir.); BARRIO, Maximiliano; RAMOS-LISSÓN, Domingo; SUÁREZ, Luis. Diccionario de los Papas e Concilios. Barcelona: Editorial Ariel, 1998, p. 448.

[2] Cf. JAVIERRE. Op. cit., p. 19.

[3] JAVIERRE. Op. cit., p. 19.

[4]Un povero Cardinale di campagna”, frase célebre pronunciada por  S. Pio X aos membros do Colégio Cardinalício. (Cf. JAVIERRE. Op. cit., p. 40-41).

[5] JAVIERRE. Op. cit., p. 44.

[6] JAVIERRE. Op. cit., p. 231.

[7] PIO X, São. E Supremi. 04 out. 1903. (AAS, vol. XXXVI (1903-1904), pp. 129-139).

[8] PIO X, São. E Supremi. Loc. cit.

[9] PIO X, São. E Supremi. Loc. cit.

[10] PIO X, São. E Supremi. Loc. cit.

[11] Cf. PAREDES, Javier (Dir.); BARRIO, Maximiliano; RAMOS-LISSÓN, Domingo; SUÁREZ, Luis. Diccionario de los Papas e Concilios. Barcelona: Editorial Ariel, 1998, p. 470.

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