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sexta-feira, dezembro 3, 2021

“Tudo pode ser!”

Já há mil anos o tempo estava contado. O que será da linhagem de Pedro?  “Tudo pode ser!”

Redação (01/11/2021 04:34, Gaudium Press) Um dos mais intrigantes mistérios da hagiografia dá-se a respeito de um bispo nascido há mil anos, mas com candentes profecias que se estendem até agora: São Malaquias — cuja comemoração coincide com a dos fiéis defuntos — é autor de uma série de 112 frases latinas sobre cada um dos Papas a partir de Celestino II (1143-1144) até hoje.

Mensageiro de Deus

São Malaquias — ou Maelmhaedhoc, no original — nasceu nas terras irlandesas de Armagh por volta do ano de 1095. Seu pai era mestre de teologia no mosteiro da cidade, e foi aí onde o jovem quis encetar seus estudos sagrados, sendo ordenado sacerdote em 1119.

Cedo começaram as dificuldades para o jovem sacerdote. A começar pela decadência do clero local e as terríveis invasões dos normandos,[1] além da guerra civil e de tremenda carestia. Passados apenas alguns anos, recebeu a ordenação episcopal.

Nomeado para a diocese de Callach, apenas pôde tomar posse dela depois de três longos anos de oposição por parte de dissidentes da igreja local; esta e muitas outras foram as peripécias pelas quais passou o santo bispo.

Algo, entretanto, nunca se esqueceu nas dificuldades: sua missão de apóstolo, de pastor do rebanho sagrado da Igreja, de membro vivo dela e de Mensageiro, como era o significado de seu nome.

Grande amigo de Bernardo de Claraval

Foi em 1140, durante uma viagem a Roma, que Malaquias se encontrou por primeira vez com o abade de Claraval, já de imensa fama e santidade: São Bernardo. A amizade que a partir de então os uniu não conheceu limites, a ponto de o santo irlandês deixar vários de seus melhores discípulos na França para haurirem aquele espírito monástico que São Bernardo irradiava.

Além da proximidade física que sempre procuraram cultivar, a união espiritual que os coligava era superior a qualquer distância, pelo que o mesmo São Bernardo declararia que fora seu mais fiel amigo, e que sua morte desolaria toda a Igreja.

Tendo chegado tal circunstância, não poderia ser outro senão o próprio Bernardo o primeiro biógrafo de São Malaquias. Por ele sabemos que, desde o agravamento da saúde de Malaquias, perguntaram-lhe insistentemente onde preferiria morrer, ao que o santo não dizia palavra. Dada a veemência de seus discípulos mais próximos, disse-lhes que ser-lhe-ia de imenso contentamento falecer nas próprias terras de seu padroeiro nacional, o irlandês São Patrício, a não ser que Deus dispusesse de outra maneira; ou então, que o fosse em Claraval, na solenidade de Todos os Santos.

Dito e feito; sua primeira profecia cumpriu-se com sua morte, que se deu dentro mesmo das benditas abóbadas do monastério de Claraval na vigília de 2 de novembro. Foi canonizado em 1190 por Clemente II — embora o mesmo São Bernardo já lhe dispensasse o título de santo.

Entretanto, quando a memória de Malaquias começava já a esvanecer-se pelo tempo, algo ainda o tornaria mais célebre.

  Profeta para todos os tempos

Por volta de 1595, apareceu na Europa um curioso escrito publicado pelo beneditino Arnold de Wyon, o qual continha 112 frases latinas a respeito dos Papas que, segundo Arnold, eram da autoria do santo irlandês.

Estudos realizados no séc. XIX revelam que, por volta de 1140, estava São Malaquias em Roma, quando subiu a um elevado monte para dar graças a Deus pela boa viagem que fizera. Ao contemplar do alto a formosura da Cidade Eterna, entrou em profundo êxtase, e pronunciou, chorando, as referidas frases. Um discípulo que o acompanhava anotou-as todas em um pergaminho e, apenas finda a visão, mostrou a Malaquias o conteúdo do escrito. O santo declarou então que o próprio Jesus Cristo lhe mostrara a completa sequência dos sucessores de Pedro. Segundo alguns autores, o escrito teria sido entregue ao Papa Inocêncio II, e depois esquecido em meio aos arquivos vaticanos, sendo redescobertos só 450 anos depois por Arnold de Wyon.

Grandes críticos, como Cornélio a Lapide e outros jesuítas, puseram-se a campo para desmentir a veracidade do estranho escrito, pois nem mesmo o santo abade de Claraval se refere a elas em sua Vida de São Malaquias. A coincidência, porém, sempre jogou a favor da profecia, pois as divisas papais condiziam com a mais pura realidade.

Não obstante, era notório que as sentenças até Gregório XIV (1590-1591) faziam alusões inclusive a nomes de famílias e outras particularidades dos Papas; as seguintes, entretanto, tornaram-se cada vez mais gerais e abstratas, apesar de muito vivas.

São Pio X, por exemplo, figura como Fogo ardente; Pio XI, Fé intrépida; Bento XVI, A glória da oliveira.[2]

 O último dos epítetos elencados por São Malaquias, contudo, causa maior admiração e estupor, pois que prenuncia à Igreja uma era de muitas tribulações e perseguições, quando deverá sentar-se no sólio pontifício certo Pastor que deverá apascentá-la em meio a tais adversidades, antecedendo um novo e ignoto rumo ao papado.

Ora, se somadas a santidade e a acuidade com que vislumbrou São Malaquias a história da Igreja na pessoa de seus pastores, sua profecia não pode deixar de suscitar muitas indagações, como bem demonstrou Mons. Gänswein em entrevista à rede televisiva EWTN, em julho de 2016: “Sim, [a profecia de São Malaquias] é um sino de alarme” – alarme do quê? Pena não ter sido aprofundado o pensamento do íntimo secretário de Bento XVI…

Se não bastasse a prova das “coincidências” históricas, inquirido por Peter Seewald a respeito de tais profecias e da confluência que elas podem vir a incidir sobre a pessoa de Bento XVI, o papa emérito viu-se na contingência de afirmar: “[Sobre as profecias de São Malaquias] tudo pode ser”. [3]

Seja como for; que São Malaquias, cuja festa hoje celebra-se, auxilie a barca de Pedro e seu timoneiro para que, em meio aos confusos e tempestuosos dias que se avizinham, ambos alcancem o porto seguro da desejada exaltação da Esposa Mística de Cristo, a Igreja.

Por André Luiz Kleina

Referências:

 SANCTI BERNARDI. Opera. Romae: Editiones Cistercienses, 1974.

BLÁSQUEZ, José Sendín. Enigmas, historias y leyendas religiosas. Madrid: BAC, 2004, p. 286-9.

LUDDY, Ailbe. São Bernardo de Claraval. Trad: Eduardo Saló. São Paulo: Cultor, 2016.

BUTLER, Alban. Vida de los Santos. Trad: Wifredo Guinea. Londres: Burns and Oates, 1954, p. 257-259.

SOCCI, Antonio. Il Segreto di Benedetto XVI: Perché è ancora Papa. Milano: Rizzoli, 2018, p. 201-218.


[1] Povo bárbaro oriundo da Europa setentrional que invadiu a Europa continental e insular na Idade Média.

[2] No vernáculo: Ignis Ardens; Fides Intrepida; De gloriae olivae.

[3] Cf. SOCCI, Antonio. Il Segreto di Benedetto XVI: Perché è ancora Papa. Milano: Rizzoli, 2018, p. 201-218.

 

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