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domingo, maio 15, 2022

Um mandamento novo

Amar uns aos outros como Jesus nos amou. Eis o convite da Liturgia deste 5º Domingo de Páscoa

Foto: Wikipedia

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Redação (15/05/2022 08:07, Gaudium Press) A cena narrada pelo Evangelho se dá na última ceia. Logo após Judas ter saído do Cenáculo, Nosso Senhor, num auge de amor e de estima, volta-se aos Apóstolos e diz:

“Filhinhos, por pouco tempo estou convosco. Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros”. (Jo 13,33-34)

Surpreende que na primeira frase deste versículo Nosso Senhor Se refira ao amor de uns pelos outros como um mandamento novo. Sabemos que, desde o início da humanidade, o amor já era praticado e todos se queriam de alguma maneira. Onde está a novidade? Precisamente na forma que nos é indicada.

O que absolutamente mudou o modo de amar foi o exemplo dado por Ele próprio, como diz São João Crisóstomo: “Como é que chamou ‘novo’ a este mandamento, se já é encontrado no Antigo Testamento? Ele o tornou novo pelo modo com que se amariam. Para este fim, acrescentou: ‘como Eu vos tenho amado’.[1]

Enquanto Deus, Ele quer bem a cada um com amor perfeito, eterno e absoluto; bem como a partir de sua humanidade nos estima como irmãos, sendo que a origem dessa afeição é a sua divindade.

Esse amor de Deus por suas criaturas é misterioso e tem suas peculiariades, pois, como Criador, Ele é o único que não pode amar o que fez senão por amor a Si mesmo, já que, ao criar, deixou seu vestígio em todos os seres,[2] inclusive naqueles que são privados de razão. Entretanto, em se tratando dos seres racionais, Deus não pôs neles apenas um rastro de Si mesmo, mas fê-los à sua imagem.[3]

Somos imagens de Deus

Podemos compreender isso melhor, em alguma medida, através de um exemplo. A máquina fotográfica goza de imensa aceitação em nossa sociedade, porque com ela se pode guardar a lembrança de algum momento da vida que gostaríamos de reviver. Ora, a fotografia é apenas uma reprodução inanimada dos acontecimentos, e não deixa de ser verdadeiro que ela retém algo do que se passa. Nós somos “fotografias”, nas quais as Três Pessoas da Santíssima Trindade Se comprazem em reconhecer sua imagem e em amar-se a Si mesmas refletidas, contemplando em ato o plano idealizado desde toda a eternidade para cada um de nós.

Esse ponto de partida, verdadeiramente sublime, abre novas perspectivas para o convívio humano, que passa a ser pautado pela procura mútua, nos outros, dos reflexos da bondade que existe em Deus em grau infinito. Nosso próximo deve ser visto por nós como um espelho da Santíssima Trindade, uma obra-prima ou pedra preciosa fulgurante, de incalculável valor, lavrada pelo poder divino.

Daí nasce a autêntica consonância, que é faísca primeira do amor entre as almas chamadas a se unir face a um ideal para o qual olham em harmonia, como notou com sutileza Saint-Exupéry ao definir a superior forma de união surgida quando “homens do mesmo grupo experimentam o mesmo desejo de vencer”.[4] Se entre pessoas que amam a Deus se verifica um imbricamento que tem sua origem neste santo idealismo, fica comprovada a prática do novo mandamento.

Não nos esqueçamos, porém, de que o verdadeiro amor de uns para com os outros deve ser hierarquizado, uma vez que Deus colocou reflexos nas almas de forma desigual, dando a cada qual um aspecto único, em uma variedade que manifesta a incomparável riqueza do Criador.

O sinal distintivo dos verdadeiros cristãos

No último versículo do Evangelho, Nosso Senhor dá um passo a mais e declara ser a forma de amor ensinada por Ele o fator distintivo dos que realmente O seguem:

“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros”. (Jo 13,35)

As pessoas alheias ao convívio dos cristãos, ao verem um amor tão autêntico, dão-se conta de que ali está presente o próprio Deus. E, apesar de ter Ele ido para o Céu, não abandonou a Igreja, pois prometeu: “Sempre que dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles” (Mt, 18,20).

O fato de vivermos sob o influxo do amor sobrenatural de que Ele nos deu exemplo é um modo de prolongar nesta Terra sua presença. Devemos, pois, orientar, amparar e instruir com desinteresse os que também O amam, sem nenhum sentimentalismo, romantismo ou egoísmo, mas sim com um amor tão puro que cause admiração aos homens e até aos próprios Anjos, a ponto de estes últimos poderem encontrar na face da Terra um límpido espelho do convívio entre os eleitos na visão beatífica.

Quando, em lugar deste amor do qual Nosso Senhor nos dá o exemplo, encontrarmos calúnia e inveja, é necessário abrir os olhos: são coisas que não podem vir de alguém que segue a Nosso Senhor. A quem estarão seguindo? Por enquanto, só Deus o sabe.

 

Extraído, com adaptações, de “O Inédito sobre os Evangelhos”, da autoria de Mons. João Scognamiglio Clá Dias, v. 5, p. 334-338.


[1] SÃO JOÃO CRISÓSTOMO.Homilía LXXII, n.3. In: Homelias sobre el evangelio de San Juan (61-68). Madrid: Ciudad Nueva, 2001, v.III, p.130.

[2] Cf. ROYO MARÍN, OP, Antonio. Dios y su obra. Madrid: BAC, 1963, p.451.

[3] Idem, ibidem.

[4] SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. Vol de nuit. Paris: Gallimard, 1931, p.104.

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