009 – Comentário aos Salmos, Santo Agostinho (Salmo 9)

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— O título é: “Para o fim. Pelos segredos do filho. Salmo de Davi”. É provável haver indagações a respeito de “segredos do Filho”. Como não declarou quem é o filho, entenda-se o próprio Filho unigênito de Deus. Ao se tratar do filho de Davi, o salmo se intitulava: “Quando fugia de seu filho Absalão” (Sl 13,1). Foi nomeado, e por conseguinte era claro de quem se tratava. No entanto, não declarou somente: “do filho Absalão”, mas acrescentou: “seu”.

Aqui, porém, não usou o termo seu; e como se refere longamente aos gentios, não fica bem pensar em Absalão, nem na guerra que aquele filho perdido fez ao pai, em que apenas o povo de Israel estava dividido. Canta-se, pois, este salmo, pelos segredos do Filho unigênito de Deus. Até mesmo o próprio Senhor, ao falar de filho, sem acréscimo, quer indicar a si, o unigênito; diz, por exemplo: “Se, pois, o Filho vos libertar, sereis realmente, livres” (Jo 8,36). Não disse: Filho de Deus, mas proferindo apenas: “Filho”, dá a entender de quem é filho.

Esta locução adapta-se à excelência daquele de quem falamos; embora não declaremos o nome, subentende-se. Assim, ao dizermos: chove, cai sereno, troveja, etc. Também não acrescentamos quem, o faz, porque espontaneamente apresenta-se à mente de todos, a excelência do autor, tornando-se desnecessárias as palavras. Quais são, então, os segredos do Filho? Diante de tal expressão, compreende-se em primeiro lugar haver pontos manifestos atinentes ao Filho, distintos dos ocultos.

Por este motivo, acreditamos em duas vindas do Senhor, uma passada, que os judeus não compreenderam, e outra futura, que nós e eles aguardamos; e como, incompreendida dos judeus, a vinda foi proveitosa aos gentios, convém pensar que deste advento foi dito: “Pelos segredos do Filho”. Então, parte de Israel permaneceu na cegueira, a fim de entrar a plenitude dos gentios (Rm 11,25). Nota-se haver também dois juízos, insinuados nas Escrituras: um oculto, outro às claras. O oculto realiza-se no presente.

Dele afirma o apóstolo Pedro: “Com efeito, é tempo de começar o juízo pela casa de Deus” (1Pd 4,17). O juízo oculto, por conseguinte, é o castigo que agora exercita cada qual para sua purificação, ou admoesta a se converter, ou se forem desprezados o chamado e o ensinamento de Deus, cega-o para sua condenação. O juízo manifesto, porém, realiza-se quando o Senhor vier a julgar os vivos e os mortos. Todos confessam ser ele quem atribuirá prêmios aos bons e suplícios aos maus. Mas então esse reconhecimento não servirá de remédio aos maus, e sim de completa condenação.

A meu ver, o Senhor tratava desses dois juízos, um oculto outro manifesto, ao asseverar: “Quem crê em mim, passará da morte à vida e não virá a juízo” (Jo 5,24), a saber, o juízo manifesto; pois, passar da morte à vida, através de alguma aflição, com a qual o Senhor flagela aquele que recebe como filho, é juízo oculto. “Quem nele não crer já está condenado” (Jo 3,18), isto é, este juízo oculto está preparado para o juízo manifesto.

Encontramos os dois juízos também no livro da Sabedoria, onde está escrito. “Assim, como a meninos sem razão lhes deste um castigo irrisório. Mas os que recusam a advertência de semelhante correção, sofrerão da parte de Deus um digno castigo” (Sb 12,25-26). Os incorrigíveis, portanto, através deste oculto juízo de Deus, com toda justiça serão punidos no juízo manifesto.

Por tal motivo, neste salmo notem-se os segredos do Filho, isto é, sua vinda humilde proveitosa aos gentios, e ofuscante aos judeus, e o atual castigo oculto, que não constitui ainda condenação dos pecadores, e sim exercício para os que se converterem, ou advertência para se converterem, ou ainda cegueira, de sorte que se preparem para a condenação os que recusarem se converter.

— “De todo o coração, te louvarei, Senhor”. Não louva a Deus de todo o coração quem duvida de sua providência em algum ponto, mas louva quem percebe os segredos da sabedoria de Deus, e quão grande é o prêmio invisível daquele que diz: “Nós nos gloriamos também nas tribulações” (Rm 5,3). Ele vê como os tormentos corporais exercitam os convertidos a Deus, ou servem de exortação a se converterem, ou preparam os endurecidos à justa condenação final. Assim todos os acontecimentos pertencem ao regime da divina providência. Os estultos julgam que eles advêm por acaso, às cegas, fora das divinas disposições.

“Narrarei todas as tuas maravilhas”. Narra as maravilhas de Deus quem sabe que elas se realizam não só visivelmente nos corpos, mas ainda invisivelmente nas almas, de modo, porém, muito mais sublime e excelente. Pois, os homens terrenos e dados às coisas ocultas, mais se admiram de ter o defunto Lázaro ressuscitado corporalmente do que de ter Paulo, o perseguidor, ressuscitado espiritualmente.

Mas, como o milagre visível convida a alma a um esclarecimento, enquanto o invisível ilumina aquela que atendeu ao chamado, narra as maravilhas de Deus a alma que, acreditando nas coisas visíveis, passa a entender as invisíveis.

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