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A maçã, a Apple, e como enxergar a realidade

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Em recente conferência, a Apple apresentou ao mundo seu novo invento, que estará à venda no início do próximo ano: Vision Pro. Com que olhos ver este “modo de enxergar a realidade?”

Foto: screenshot/ apple

Foto: screenshot/ apple

Redação (31/07/2023 09:27, Gaudium Press) Não é novidade que, hoje em dia, o mundo virtual passou a ser afim com quase a totalidade dos seres humanos, mesmo entre aqueles provenientes de economias emergentes. Portanto, deixaram de ser objeto exclusivo ou de luxo os aparelhos digitais.

A bem dizer da verdade, a realidade digital tem abarcado (e servido utilmente) quase todas as profissões: não é raro vermos inclusive aqueles que têm o indispensável ofício de construtores ou pedreiros valerem-se do mundo virtual, mormente por meio dos celulares, para o desempenho de suas funções: uma medição, o esclarecimento de alguma dúvida, a compra imediata de algumas sacas de cal para a obra, enfim, para um “um mundo de coisas”…

Ora, se não bastassem essas valias, o mundo digital vem fornecendo cada vez mais soluções aparentes para uma série de dificuldades (ou incapacidades?) do homem. E, por conseguinte, seu uso torna-se assaz imperativo, sobretudo para quem não deseja estar alheado dessa sociedade virtual ou démodé.

Nesta esteira, a Apple anunciou para o início do ano de 2024 um ousado lançamento, digno de marcar os anais da ciência: o capacete Vision Pro.

Tentativas frustras

Com efeito, trata-se de uma tentativa de superação de ferramentas análogas, falidas no passado. Talvez o leitor se lembre do Google Glass, lançado em 2013; ou ainda, do Oculus Rift, o aparelho do Facebook. Por motivos similares, ambos fracassaram: ao utilizar tais dispositivos, o usuário sentia-se sem privacidade, ou então tornava-se meio ridicularizável aos demais – talvez por nutrirem ainda certa desconfiança quanto a tais instrumentos naqueles anos –, pois que seus olhos se tornavam completamente toldados pela estranha inovação, propiciando-lhes uma percepção de irrealidade ainda incômoda.

Como a Apple pretende superar essas dificuldades?

Para romper esta barreira, a Apple dotou seu invento de duas capacidades inéditas: em primeiro lugar, ele apresentará aos usuários a realidade que está ao seu entorno, permitindo-lhes participar do mundo real, embora imerso na virtualidade. Um sensor ligará os comandos dos olhos com os das mãos, pelo que, ao fitar um objeto, os gestos manuais servirão de “mouse integrado” que, sem precisar tocar no capacete, comandarão as ações, tais como abrir, fechar, passar etc.

Contudo, restaria a dificuldade do convívio humano. Para isso, o próprio capacete projetará, em seu exterior, uma imagem representando os olhos do usuário, para que se comuniquem com os circundantes.

Assim idealizado, o Vision pro, não seria simplesmente um aparelho dominado pelo homem – tais como o notebook, o celular e tantos outros –, mas passaria a ser um aparelho integrado ao homem, processando informações originadas pelo cérebro, e propondo soluções à vista de nosso pensar.

É, pois, uma nova maneira de enxergar a realidade!

Desta vez dará certo?

Obterá êxito? Difícil pergunta, que demanda resposta ainda mais intrincada. Em primeiro lugar, é notável o longo tempo dispensado pela Apple para tornar público o lançamento, pois que os estudos, as provas e os erros, somados aos ajustes, melhorias e adaptações demandaram muitos anos e não poucos investimentos. Não obstante, é preciso reconhecer que as ofertas da maçã costumam ter uma entrada assertiva na opinião pública, pois são feitas sempre à sombra de profundas análises, com vistas a alcançar nos usuários aquele sabor de inovação quase sempre aliado ao da curiosidade – como aliás aconteceu no Paraíso Terrestre, quando a serpente soube plasmar tão bem aos olhos de nossos primeiros pais o valor único daquela Apple, tornando-a aprazível aos olhos e fascinante ao paladar, capaz mesmo de provocar certa alucinação.

Em segundo lugar, o invento não deixa de causar sensação, pois rompe as barreiras do digital para penetrar o homem no consórcio com o virtual, profundamente. Por isso, Vision Pro visará acostumar-nos a uma realidade cada vez menos real, onde os valores morais e éticos passarão a ser questionados.

Apenas do ponto de vista social, por exemplo, os olhos virtuais poderão realmente expressar nossas sinceras impressões, ideias e modos de ser? Se não o forem, acaso os seres humanos se habituarão a viver continuamente como robôs – ou pior, como andrógenos? Até que ponto toleraremos a robotização de nosso pensar e, por consequência, de nosso agir?

Com efeito, quanto à nossa privacidade interior – esse paraíso de cristal cinzelado pelas mãos do Criador – Vision pro pretenderá também penetrá-lo?  Será pelas nossas próprias mãos, ou por óculos que tentarão impor e desvirtuar com bela aparência e sofisticado design seu precioso e inalienável valor?

Se funcionar, quais as consequências?

Respeitando a liberdade de cada um, parece-nos que esse invento alçará o mundo numa situação agradavelmente inquietante, para, depois, lançá-lo num lamentável estado, onde os homens terão dificuldade de preservar um de seus maiores dons, sua própria identidade.

Destarte, dos progressos que almejamos – alcancem a ciência e as inovações digitais – nenhum poderá ser tão caro como o de promover a preservação e o enobrecimento da personalidade do homem.

Se é isto que Vision Pro pretende, incentivemos! Se não o é, questionemos.

Contudo, se partirmos dos pressupostos que diversas e abalizadas notícias e estudos científicos nos fornecem sobre a nocividade do uso indiscriminado dos aparelhos eletrônicos e digitais, ao menos, seríamos reticentes a eles.

Talvez pela ausência desse cuidado, caro leitor, é que nos sintamos na necessidade de pensar que entre a maçã do Paraíso e a Apple, as aparências vão se tornando cada vez menos virtuais, e sim reais; enquanto, de nossa parte, vamos sendo acostumados a enxergar a realidade com outros olhos – ou, se preferirem, com um Vision Pro.

Por Aloísio de Carvalho

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