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As aparições do Sagrado Coração de Jesus a Santa Margarida Maria

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“O meu Divino Coração está tão abrasado de amor para com os homens, e em particular para contigo, que, não podendo já conter em si as chamas de sua ardente caridade, precisa derramá-las por teu meio, e manifestar-se-lhes para os enriquecer de seus preciosos tesouros”.

Foto: Wikipedia/ GO69 - Obra do próprio, CC BY-SA

Foto: Wikipedia/ GO69 – Obra do próprio, CC BY-SA

Redação (06/06/2024 09:58, Gaudium Press) Tenho sede” (Jo 19, 28)! Há séculos a piedade católica costuma atribuir a essas palavras de Nosso Senhor no alto do Gólgota um profundo significado espiritual. Não se trata apenas do tormento físico padecido pelo Salvador, mas sobretudo de uma misteriosa súplica em relação às almas que viera redimir. Sim, o Criador de todas as coisas, o único Ser que Se basta a Si mesmo tem sede do amor de suas criaturas.

Ao longo dos tempos, esse comovente brado tem ecoado nos mais diversos recantos. Contudo, poucas vezes tais ressonâncias se fizeram tão intensas e pungentes como nas revelações do Sagrado Coração de Jesus a Santa Margarida Maria Alacoque, no século XVII.

Vida de sofrimentos: moldura das aparições

22 de julho de 1647, festa de Santa Maria Madalena. Na pequena cidade de Lautecourt, França, nascia Margarida, filha de Cláudio Alacoque, notário real e juiz, e de Filisberta Lamym.

Desde a mais tenra infância, a menina sentia-se interiormente impelida a repetir: “Meu Deus, eu Vos consagro a minha pureza, e Vos faço voto de perpétua castidade”. Tendo falecido seu pai em 1655, foi confiada aos cuidados de uma comunidade de clarissas, em Charolles, onde fez sua Primeira Comunhão aos nove anos de idade. Já não encontrava outro prazer na vida senão em estar junto a Nosso Senhor Sacramentado.

Entretanto, à medida que crescia, Margarida notava seu coração dividido entre os familiares e a vida contemplativa. Aqueles desejavam que a donzela contraísse um vantajoso matrimônio; o claustro, entretanto, exigia-lhe uma consagração total. Em meio a essa dura batalha, o Senhor veio em seu socorro e, recordando-lhe do voto de castidade que desde a infância proferira, prometeu: “Se Me fores fiel, jamais te deixarei e serei a tua vitória contra todos os teus inimigos”. Após essa graça, a virgem fez o firme propósito de tomar o hábito religioso.

Quando, a 25 de maio de 1671, esteve pela primeira vez no locutório da Visitação de Paray-le-Monial, ouviu em seu interior as seguintes palavras: “É aqui que Eu te quero”. A 20 de junho Margarida deixou para sempre o mundo, ingressando no claustro das Filhas de Santa Maria.

A Providência tomou a sério tal consagração, tratando a nova professa como uma vítima escolhida a ser imolada no Calvário da vida religiosa. Como as rosas desabrocham em meio aos espinhos, assim também as lutas enfrentadas por Margarida constituiriam uma moldura para as insignes graças a ela concedidas. As provações foram acrisolando sua alma para que as palavras celestes chegassem límpidas, íntegras e penetrantes a todos os quadrantes da Terra.

Preparada assim a religiosa, era o momento de o Sagrado Coração de Jesus anunciar, por meio dela, sua mensagem ao mundo.

A primeira aparição

Era a festa litúrgica de São João Evangelista, 27 de dezembro de 1673. Margarida rezava especialmente recolhida diante do Santíssimo Sacramento quando Nosso Senhor, fazendo-a repousar sobre seu peito à semelhança do Discípulo Amado, declarou: “O meu Divino Coração está tão abrasado de amor para com os homens, e em particular para contigo, que, não podendo já conter em si as chamas de sua ardente caridade, precisa derramá-las por teu meio, e manifestar-se-lhes para os enriquecer de seus preciosos tesouros”.

E acrescentou: “Escolhi-te a ti, como abismo de indignidade e ignorância, para a realização deste grande desígnio, para que tudo seja feito por Mim”.

Em seguida, tomando misticamente o coração de sua eleita, o Senhor introduziu-o no seu, à semelhança de uma fagulha posta numa fornalha ardente, para então devolvê-lo transformado em uma chama.

Primeiras sextas-feiras

Deste dia em diante a santa sofreria terríveis dores em seu costado, como penhor de autenticidade da aparição. Tais dores se renovavam especialmente nas primeiras sextas-feiras de cada mês. Nestas ocasiões, porém, o Divino Mestre Se lhe apresentava em todo o seu esplendor, a fim de a consolar e comunicar-lhe seus desígnios.

Em uma dessas circunstâncias, as chagas do Redentor resplandeciam como sóis. Abrindo seu lado traspassado, o Salvador descobriu seu adorável Coração, o qual ardia como uma fornalha, consumindo-se em puro amor pelos homens, mesmo por aqueles que não Lhe retribuíam o afeto.

Queixou-Se então: “Se eles Me correspondessem com um pouquinho de amor, teria Eu em pouco tudo quanto fiz por eles, e quisera ainda fazer mais, se possível fosse; contudo, não têm senão friezas e repulsas para todo este meu afã de lhes fazer bem”. Tamanha ingratidão fazia sofrer o Homem-Deus mais cruelmente que na Paixão.

E com comovente sofreguidão, rogou àquela alma eleita: “Ao menos tu dá-Me esse gosto de suprires pela ingratidão deles, quanto puderes e fores capaz. […] Hás-de comungar todas as primeiras sextas-feiras de cada mês; e todas as noites de quinta para sexta-feira far-te-ei participar daquela mortal tristeza que Eu quis sentir no Horto”.

Em seguida, Nosso Senhor a instruiu a levantar-se entre as onze horas e a meia-noite para com Ele vigiar, e a rezar prostrada por uma hora a fim de aplacar a ira divina.

Eis aqui a origem de duas devoções conhecidas e muito recomendáveis em nossos dias: a hora santa e a Comunhão reparadora das primeiras sextas-feiras de cada mês, feitas pelos fiéis na intenção de reparar os pecados cometidos contra o Sagrado Coração de Jesus.

Sofrendo em reparação pelos pecados

No interior do claustro, Margarida teve de sofrer muitas incompreensões e humilhações, oferecidas para reparar tanto amor incorrespondido e para aplacar a cólera divina pelos pecados dos homens, sobretudo das almas consagradas.

Mais de uma vez alguns sacerdotes e mesmo suas irmãs de hábito julgaram-na ludibriada pelo demônio, a quem atribuíam as revelações. A própria Santa chegou ao cúmulo de procurar subtrair-se aos encantos do Divino Esposo, o qual, porém, queixava-Se: “Por que lutas contra Mim, que sou o teu puro, verdadeiro e único amigo?” Encontrando-se um dia especialmente confundida em meio a tais agruras, a visitandina escutou uma voz a prometer-lhe: “Tem paciência e espera que venha o meu servo”.

O servo de que lhe falava a Providência era o Pe. Cláudio de La Colombière, superior dos jesuítas em Paray-le-Monial. Tendo sido convidado a pronunciar uma conferência às visitandinas, atendeu em particular a Ir. Margarida, a qual lhe expôs suas dificuldades. O sacerdote tranquilizou-a, assegurando-lhe a origem divina dos fenômenos que com ela se passavam, e ordenou que a vidente escrevesse tudo quanto ouvira, encarregando-se de advogar a causa do Sagrado Coração de Jesus. A partir daquele dia, seria ele um verdadeiro amparo para a religiosa.

A grande revelação

No dia 16 de junho de 1675, durante a oitava da Solenidade de Corpus Christi, deu-se a mais conhecida das revelações a Santa Margarida Alacoque.

A virgem rezava diante do tabernáculo quando Nosso Senhor lhe apareceu sobre o altar e, apontando para seu Divino Coração, pronunciou este sublime queixume: “Eis aqui este Coração que tanto tem amado os homens, que a nada se tem poupado até se esgotar e consumir para lhes testemunhar o seu amor; e em reconhecimento não recebo da maior parte deles senão ingratidões por meio das irreverências e sacrilégios, tibiezas e desdéns que usam para comigo neste Sacramento de amor. E o que muito mais Me custa ainda é serem corações a Mim consagrados os que assim Me tratam”.

Com enternecedora bondade, o Salvador então pediu que se instituísse, na primeira sexta-feira após a oitava do Santíssimo Sacramento, uma festa especialmente dedicada a desagravar aquele dulcíssimo Coração pelas ofensas contra a Sagrada Eucaristia, encarregando seu “servo”, o Pe. La Colombière, de obter isto das autoridades eclesiásticas.

E, como para mover os fiéis de todos os tempos a atenderem seu apelo, o Homem-Deus empenhou suas palavras de vida eterna: “Eu te prometo que o meu Coração se dilatará, para derramar com abundância as influências de seu divino amor sobre os que lhe tributarem esta honra, e procurarem que lha tributem”.

O triunfo do Sagrado Coração

Até este momento, contudo, as palavras do Salvador pouco eco haviam encontrado nos corações das irmãs de hábito de Margarida. Mas nada podia abalar o ânimo da fiel religiosa, pois a animava a promessa do Divino Esposo: “Reinarei apesar de meus inimigos e de todos os que a isso queiram se opor”.

Somente a partir de fins do ano de 1684 é que aquelas almas consagradas começaram a se abrir à nova devoção. Em 21 de junho de 1686 foi celebrada, na Visitação, a primeira festa do Sagrado Coração de Jesus e, em 1688, dedicou-se uma capela do mosteiro em sua honra.

Tendo conquistado aquele cerne de almas consagradas, foi questão de tempo até que a devoção se difundisse por todo o orbe católico, em grande parte devido ao zelo de sacerdotes jesuítas como o Pe. Jean Croiset e o Pe. Ignacio Rolin. Tal expansão muito consolou a Santa, a ponto de esta confidenciar a uma de suas irmãs visitandinas que, já não encontrando ocasiões para sofrer nesta vida, sentia-se próxima do encontro definitivo com seu único Amor.

Grande retiro

Assim, em 22 de julho de 1690 a vidente iniciou um retiro espiritual já tendo em vista sua passagem para a eternidade. A obediência, contudo, exigiu uma interrupção deste período de recolhimento. A Santa preparava-se para retomar seus exercícios no dia 9 de outubro quando, pouco antes da data fixada, foi acometida por uma grave febre. Ao lhe perguntarem se ainda teria forças para entrar em tal isolamento, Margarida respondeu: “Sim, mas será o grande retiro”.

De fato, pouco durou sua convalescença. Embora os médicos julgassem tratar-se de um mal passageiro, ela sabia estar em seus instantes finais. “Como é doce morrer após haver tido uma terna e constante devoção ao Coração d’Aquele que nos vai julgar”, exclamou na ocasião.

Por fim, na noite de 17 de outubro a enferma entrou em agonia. A comunidade apressou-se para comparecer ao sublime trânsito, o capelão acorreu para administrar os últimos Sacramentos. Antes mesmo de o sacerdote concluir a Extrema-Unção, a moribunda exalou o último suspiro após uma suave exclamação: “Jesus!”

Refrigério da reparação ou vinagre da indiferença?

Após a morte de Santa Margarida, a devoção ao Sagrado Coração difundiu-se largamente pelos mosteiros visitandinos e pelas dioceses francesas, muitas das quais aprovaram festas litúrgicas próprias para atender ao pedido de reparação feito pelo Salvador. Em 1856, Pio IX concedeu à celebração seu caráter universal, inscrevendo-a no Calendário Romano, e em 13 de maio de 1920 a “discípula do Sagrado Coração” foi canonizada por Bento XV.

Neste calamitoso século XXI, em que por toda a parte multiplicam-se os ultrajes contra o Coração de Jesus, até mesmo entre aqueles que mais deveriam honrá-Lo, as irrevogáveis promessas por ele feitas consignam o penhor oferecido pelo Redentor àqueles que souberem atender seu apelo, fazendo-Lhe zelosa companhia durante a paixão de sua Esposa Mística, que é a Igreja.

Seguiremos o exemplo de Santa Margarida atendendo a esta sublime súplica com o refrigério da reparação? Ou, à maneira do soldado romano, oferecer-Lhe-emos o vinagre da indiferença para aplacar sua sede?

Texto extraído da Revista Arautos do Evangelho n. 270, junho 2024. Por Gabriel Marques dos Santos.

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