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Até onde deve chegar nossa fé

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A barca com os Apóstolos é sacudida pela tempestade; bem poderia ser a imagem da Igreja em luta nos mares deste mundo, em plena noite, visando desembarcar nas margens do Reino Eterno.

Jesus caminha sobre as aguas MadonnaFiducia SemRomano Foto David Domingues

Redação (13/08/2023 13:32, Gaudium Press) São João é o único Evangelista a narrar a forte impressão produzida pela multiplicação dos pães e dos peixes na multidão que dela se beneficiou, cujo relato, pela pena de São Mateus (cf. Mt 14,13-21), pudemos contemplar no domingo anterior.

Neste 19º Domingo do Tempo Comum, contemplamos a continuação deste fato milagroso.

Jesus manda que seus discípulos entrem na barca e prossigam para o outro lado do mar, enquanto Ele despedia as multidões que se maravilham com sua presença e seus sinais. Tendo-as despedido, recolhe-Se no alto de um monte em oração.

Porém, enquanto Jesus desaparecia em meio à noite, imerso em suas orações no alto da montanha, a barca se encontrava no meio do mar. A atmosfera estava agitada e o vento oeste transformava-se em terrível tempestade. Ondas enormes, além do vento contrário, tornavam inúteis os esforços empreendidos sobre os remos. É sabido que o Mar de Tiberíades tem esses repentes imprevisíveis, que deixam os remadores sem forças e desanimados. Mas Jesus, mesmo estando à distância, humanamente falando, por seu poder divino os acompanhava a cada instante. Via-os na grande dificuldade em que se encontravam.

“Pelas três da manhã, Jesus veio até os discípulos, andando sobre o mar. Quando os discípulos o avistaram, andando sobre o mar, ficaram apavorados, e disseram: ‘É um fantasma’.  E gritaram de medo. Jesus, porém, logo lhes disse: ‘Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!’” (Mt 14,25-27)

Terá Ele assumido nessa hora a agilidade característica do corpo glorioso ou terá feito um milagre? O certo é que Ele transpôs a distância que ia entre o alto do morro e o meio do lago com toda facilidade.

Segundo observa Lagrange,[1] Marcos afirma que Jesus os via ao longe, se bem que Mateus nada diga a respeito. De sua parte, Maldonado, com base em São Cirilo de Alexandria e Leôncio, tece considerações muito interessantes sobre a oportunidade escolhida pelo Mestre: “Jesus Cristo esperou uma tríplice circunstância para operar o milagre: que os discípulos estivessem em alto mar, onde não podiam esperar auxílio de parte alguma; que o vento lhes fosse contrário e a barca se visse investida pelas grandes ondas; e que chegasse a última vigília da noite, para que os navegantes provassem sua fé e paciência, e sentissem a necessidade de um milagre”.[2]

Manter a calma na tempestade

“Então Pedro Lhe disse: ‘Senhor, se és Tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água’. E Jesus respondeu: ‘Vem!’ Pedro desceu da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. Mas, quando sentiu o vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: ‘Senhor, salva-me!’. Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro, e lhe disse: ‘Homem fraco na fé, por que duvidaste?’” (Mt 14,28-31)

São João Crisóstomo, mais uma vez, se destaca de outros comentaristas ao focalizar este versículo com as seguintes palavras: “Por que o Senhor não mandou que os ventos se acalmassem, mas estendendo sua mão segurou Pedro? Porque era necessário que ele tivesse fé. Quando falta a nossa cooperação, cessa também a ajuda de Deus. E para manifestar-lhe que não era o furor do vento, e sim a pouca fé do discípulo que produzia o perigo, disse-lhe: ‘Homem de pouca fé, por que duvidaste?’”.[3]

“Assim que subiram no barco, o vento se acalmou. Os que estavam no barco, prostraram-se diante d’Ele, dizendo: ‘Verdadeiramente, Tu és o Filho de Deus!’” (Mt 14,32-33)

Deste acontecimento podemos extrair uma boa lição para as fases de provação e tentação, pelas quais frequentemente passamos. Na hora da tempestade, vem-nos a ideia de que estamos próximos a perecer. Tanto mais que muitas vezes nem sequer chegamos a prever a borrasca na qual, de repente, somos introduzidos. Foi, aliás, o que aconteceu com os próprios Apóstolos. Qual deles poderia ter imaginado que, embarcando por ordem expressa de Jesus, iriam encontrar um mar tão tempestuoso e bravio?

Deparamo-nos com ventos contrários e impetuosos? Saibamos manter a calma. Ainda que de forma imperceptível, Jesus está sempre presente e, de um momento para outro, Se fará ver por nós.

Percebemos, também, por esse episódio, o quanto o pensamento de Deus não só é infinitamente superior ao nosso, mas também distinto. Se víssemos nós o terrível esforço dos discípulos, remando contra as ondas, em meio à aflição e ao perigo, e a inutilidade do seu empenho, procuraríamos socorrê-los de imediato. No entanto, Deus aparentou estar ausente, para fazer brilhar seu poder e glória, fortificar a fé deles, conceder-lhes mais méritos e premiá-los, por fim, com consolações inenarráveis.

Assim é, também, conduzida a Igreja pelo seu Divino Fundador: exposta a toda espécie de perseguições e dramas, de cada uma dessas situações resulta sempre uma vitória e, não poucas vezes, o triunfo.

Extraído, com adaptações, de:

CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O inédito sobre os Evangelhos: comentários aos Evangelhos dominicais. Città del Vaticano-São Paulo: LEV-Instituto Lumen Sapientiæ, 2012, v. 2, p. 261-267.


[1] Cf. LAGRANGE, Marie-Joseph. Évangile selon Saint Matthieu. 7 ed. Paris: J. Gabalda, 1948, p. 294.

[2] MALDONADO, Juan de. Comentarios a los Cuatro Evangelios. Evangelio de San Mateo. Madrid: BAC, 1950, v. I, p. 538.

[3] JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía L, n. 2. In: Obras. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo (46-90). 2. ed. Madrid: BAC, 2007, v. II, p. 76.

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