— “Salmo cantado por Davi ao Senhor, devido às palavras de Cusi, filho de Jémini”. No segundo livro de Samuel (2Sm 16) é fácil descobrir a história que ocasionou esta profecia. Ali, Cusi, amigo do rei Davi, passou para as fileiras de Absalão, filho deste, que guerreava o pai, a fim de sondar-lhe os planos e revelar o que ele urdia contra o pai, instigado por Aquitofel, o qual traíra a amizade a Davi e dava ao filho, contra o pai, os conselhos que podia.

Neste salmo, não se há de levar em consideração a própria história, cujo véu misterioso o profeta adotou; mas, se passamos a Cristo, o véu, é retirado (2Cor 3,16). Em primeiro lugar, interroguemos qual o sentido desses nomes. Não faltaram intérpretes que, investigando o sentido espiritual, não o carnal, literal desses nomes, afirmaram que Cusi significa silêncio; Jémini, direita; Aquitofel, ruína do irmão. Com tais interpretações, novamente se nos apresenta o traidor Judas, do qual Absalão é imagem, porquanto seu nome significa, paz do pai.

Seu pai se manteve em paz para com ele, enquanto ele nutria a guerra no coração, com seus ardis, conforme expusemos no comentário ao salmo terceiro. No evangelho lemos que os discípulos foram chamados filhos de nosso Senhor Jesus Cristo (Mt 9,14); igualmente foram denominados irmãos, pois disse o Senhor ressuscitado: “Vai a meus irmãos e dize-lhes” (Jo 20,17), e o Apóstolo chama, a Cristo de “primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8,29). Com acerto, ruína do irmão, significado de Aquitofel, como acima dissemos, representa a ruína do discípulo traidor.

Por Cusi, que significa silêncio, se entende que nosso Senhor combateu contra aquelas fraudes em silêncio, isto é, em profundo segredo. Devido a este plano secreto, a cegueira sobreveio em parte a Israel, que perseguia o Senhor, e isto até que entrasse a plenitude das nações, e assim se salvasse todo Israel.

Tendo penetrado neste profundo segredo e grande silêncio, exclamou o Apóstolo, como que tomado de vertigem diante deste abismo: “Ó abismo da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são insondáveis seus juízos e impenetráveis seus caminhos! Quem, com efeito, conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem se tornou seu conselheiro?” (Rm 11,33-34). Assim o Apóstolo não tanto faz uma exposição daquele profundo silêncio, antes o propõe à admiração.

Ocultando neste silêncio o mistério da venerável paixão, o Senhor transformou a ruína voluntária do irmão, isto é, o abominável crime do traidor, em plano misericordioso e providencial. O Senhor destinou, em sua providência, a ação do traidor que, visava perversamente a ruína de um só homem, à salvação de todos os homens. A alma perfeita, portanto, que já é merecedora de conhecer o segredo de Deus, canta o salmo ao Senhor. Canta “devido às palavras de Cusi”, porque mereceu conhecer as palavras daquele silêncio.

Para os infiéis e perseguidores aquilo é silêncio e segredo. Para os seus, porém, aos quais foi dito: “Não mais vos chamo servos, porque o servo não sabe o que seu amo faz; mas eu vos chamo amigos, porque tudo o que ouvi do Pai eu vos dei a conhecer” (Jo 15,15), para os amigos, não há silêncio, mas palavras de silêncio, isto é, a razão explicada e manifesta daquele silêncio. Tal silêncio, isto é, Cusi, se chama filho de Jémini, a saber, da direita. Não convinha esconder aos santos o que era feito em seu favor.

E, no entanto, “não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita” (Mt 6,3). Canta, portanto, em profecia a alma perfeita, à qual o segredo foi manifestado, “devido às palavras de Cusi”, isto é, ao conhecimento do mesmo segredo. O Deus da direita operou este segredo, favorecendo-o, e sendo-lhe propício. Esta a razão por que tal silêncio se chama filho da direita, quer dizer, “Cusi, filho de Jémini”.

— “Senhor, meu Deus, em ti esperei; salva-me de todos os meus perseguidores e livra-me”. Fala o salmista como alguém já perfeito, e que superou toda a luta e oposição dos vícios, restando-lhe apenas vencer o diabo invejoso: “Salva-me de todos os meus perseguidores, e livra-me para que ninguém qual leão arrebate a minha alma”. Declara o Apóstolo: “O vosso adversário, o diabo, vos rodeia, como um leão a rugir, procurando quem devorar” (1Pd 5,8). Por este motivo, havendo dito no plural: “Salva-me de todos os meus perseguidores”, passa para o singular: “para que ninguém qual leão arrebate a minha alma”.

Não disse: não arrebatem, sabendo qual o inimigo que persistirá e se oporá violentamente à alma perfeita. “Sem haver quem a resgate ou salve”, quer dizer: não arrebate ele, quando tu não resgatas, nem salvas. Se, por conseguinte, Deus não resgata nem salva, ele arrebata.

— Como evidência de que assim nem salva alma já perfeita, que se há de precaver só das insídias muito fraudulentas do diabo, vê como prossegue: “Senhor meu Deus, se fiz tal coisa”. O que é que ele denomina “tal coisa?” Acaso deve-se entender o pecado, em

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