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quinta-feira, abril 14, 2022

Roupa de ir à Missa

“A santa Missa deveria ser sua prioridade, use a missa como desculpa para perder todo o resto e não o contrário”.  

Redação (09/04/2022 09:28, Gaudium Press) As coisas têm se modificado numa velocidade vertiginosa e já não cultivamos certos valores que tornavam as pessoas melhores. Muitos nem mesmo sabem quais são os seus próprios valores, e andam perdidos por aí, seguindo qualquer vento de doutrina que lhes traga alguma novidade ou promessa de ganho pessoal.

Hoje, tudo é muito geral e muito genérico e quase não há parâmetros para diferenciar o bem do mal, o certo do errado, o correto do duvidoso. Até o uso de termos “bem e mal”, “certo e errado” pode não soar correto, por isso, somos levados a viver pisando em ovos o tempo todo.

Parece que o mundo anda esquecido de que a dualidade é uma condição inerente à vida: claro e escuro, noite e dia, quente e frio, doce e azedo, seco e molhado, pesado e leve, morte e vida, homem e mulher, aberto e fechado, novo e velho, cedo e tarde e tantos outros pares de opostos que existem desde sempre, e continuarão existindo, a despeito dos que desejam ter uma via de mão única na vida. E, por falar em via, ela pode nos dar um exemplo bem claro da necessidade da dualidade.

Consideremos uma rodovia de mão dupla. Todo motorista sabe que a mão de direção, nas vias públicas brasileiras, determina a circulação pela direita e as ultrapassagens pela esquerda. Não é difícil imaginar o que aconteceria se os motoristas resolvessem desobedecer à sinalização e andar no sentido que melhor lhes aprouvesse no momento. Sem isso, já há tantos acidentes, imaginem, então, se alguns começassem a ir por onde deveriam voltar ou voltar por onde deveriam ir…

Este exemplo é apenas para ilustrar que algumas coisas são como são e não podem ser mudadas. Certo e errado não deixaram e nem deixarão de existir, porque as regras da vida e as leis de Deus não mudam para se adaptar a nós, somos nós que devemos nos adaptar a elas.

Prioridade: A Santa Missa

Até algum tempo atrás, era comum as pessoas terem uma roupa de ir à Missa, que significava a sua melhor roupa, porque ir à Missa era um ato solene, importantíssimo e inadiável. Com o avanço da modernidade, houve um relaxamento nos costumes e muitas pessoas deixaram de ter “roupa de ir à Missa” simplesmente porque deixaram de ir à Missa. E essas mudanças afetaram até mesmo muitos daqueles que vão, pois, hoje, entra-se numa igreja para assistir à Santa Missa como se entra em um bar, em uma quitanda, em uma praia… E isso é muito sério, pois, deveríamos nos vestir bem ou, ao menos, decentemente, para ir à casa de Deus. Sobretudo, deveríamos continuar indo à casa de Deus.

Esses dias, li uma frase que me chamou muito a atenção: “A santa Missa deveria ser sua prioridade, use a missa como desculpa para perder todo o resto e não o contrário.” Mas, infelizmente, não agimos assim. Sempre temos desculpas para não ir à Missa. E isso se considerarmos apenas a Missa de domingo. De manhã, não vamos porque é muito cedo e domingo é o dia de descansar, de dormir até mais tarde. À segunda Missa também não vamos porque já está perto a hora do almoço, então, vai ficar muito corrido, afinal, o almoço de domingo é algo especial. Deixamos para ir à tarde, pois aí já estaremos descansados e com disposição. Mas, quando chega a tarde, ou estamos mergulhados em alguma diversão ou dormindo ou com visita em casa… “Ah, mas semana que vem eu vou!” E vai?

Significado da Missa

Parece que as pessoas se esquecem da importância e do significado da Missa. Ela tornou-se apenas um evento religioso ao qual se comparece quando dá, em ocasiões especiais ou quando as coisas não vão bem. E, dos que comparecem, será que todos se preparam bem? Ou assistem à Santa Missa de qualquer jeito, apenas para se desincumbir de um compromisso?

A Santa Missa é a própria Eucaristia, o memorial perpétuo da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. É a celebração do Mistério Pascal. Não se trata de um ritual criado pelos homens, mas de um Sacramento instituído por Nosso Senhor, que disse: “Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos.” (Jo 6,53).

Sobre este Divino Sacramento, São Leonardo de Porto Maurício ensina que “a vivência da Santa Missa nos proporciona as graças da nossa redenção, pois o sacrifício oferecido em cada Santa Missa é o mesmo oferecido na Cruz, a única diferença é o modo”.

Em seu belíssimo livro A Prática do Amor a Jesus Cristo, Santo Afonso Maria de Ligório nos lembra que “Nosso Salvador, sabendo ter chegado a hora de partir deste mundo, antes de morrer por nós, quis deixar-nos a maior prova possível de seu amor. Foi precisamente este dom do Santíssimo Sacramento, no qual quis derramar todas as riquezas do amor que reservava para os homens.”

O Sacramento da Eucaristia é superior aos demais, pois não possui apenas uma graça, mas a presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo em corpo, sangue, alma e divindade, sob a aparência do pão e do vinho. Embora seja um memorial, não se trata de uma simples lembrança. A Santa Missa é a vivência do sacrifício de Cristo na cruz. Assim diz o Catecismo da Igreja Católica, na questão 1367:

O sacrifício de Cristo e o sacrifício da Eucaristia são um único sacrifício. É uma só e mesma vítima e Aquele que agora Se oferece pelo ministério dos sacerdotes é o mesmo que outrora Se ofereceu a Si mesmo na cruz; só a maneira de oferecer é que é diferente. E neste Divino Sacrifício, que se realiza na Missa, aquele mesmo Cristo, que a Si mesmo Se ofereceu outrora de modo cruento sobre o altar da cruz, agora está contido e é imolado de modo incruento”.

Missa e míssil

Hoje, devido à guerra em curso na Ucrânia, está muito em voga o uso da palavra míssil, que guarda uma estreita semelhança com a palavra Missa. Ambas se originam do verbo latino mittere (enviar, mandar, dispensar). De mittere surgiu missilis, que significa “que é de atirar, próprio para ser arremessado”. O termo míssil, diretamente originado desta palavra, foi utilizado pela primeira vez em 1738, como sinônimo de foguete ou bomba autopropulsionada e, na Segunda Guerra Mundial, surgiu o artefato bélico denominado míssil que conhecemos hoje e que tem sido aperfeiçoado ao longo do tempo, aumentando sua capacidade de alcance e poder de destruição.

Nos primórdios do Cristianismo, o culto era dividido em duas partes, a primeira, composta de orações, cantos e de um sermão, era aberta a todos; a segunda, a Eucaristia, era reservada aos cristãos batizados. Por isso, dizia-se, ao final da primeira parte, a fórmula “Ite, missa est”, que significava que a oração fora enviada aos Céus e a congregação estava dispensada. Pouco a pouco, a palavra que assinalava o momento da dispensa passou a designar toda a cerimônia.

Agora, vamos pensar na semelhança entre os dois: Missa e míssil. Ambos enviam, mandam, dispensam. A Missa é guiada do Alto, nela Deus envia novamente o seu Filho, que Se dá completamente a nós, através da Sagrada Eucaristia. O míssil é teleguiado, ou seja, é preparado por alguém para seguir uma determinada direção e leva consigo a morte, através de seu alto potencial de destruição.

O alvo da Missa é a nossa alma, que se renova, e nela recebemos a ordem de seguir a Deus e viver por seu amor. O alvo do míssil é o nosso corpo, e a sua ameaça nos dá a ordem para fugirmos e nos escondermos.

A Missa nos infunde a coragem, o míssil desperta o nosso medo. Na Missa, o sacerdote se torna outro Cristo e dispensa sobre nós a graça divina. O míssil vem das mãos dos que se transformaram em anticristos e querem apenas semear o fim, a morte, a devastação.

O míssil sacrifica vidas, impingindo a morte. O sacrifício da Missa nos resgata da morte e nos dá a vida de Cristo, que passa a viver em nós, pelo mistério da Sagrada Eucaristia.

Participar do Divino Sacrifício

Contudo, hoje infelizmente, parece estarmos mais interessados nos mísseis do que na Missa. Queremos ter o máximo de informações, saber tudo sobre a guerra e, no entanto, ignoramos as respostas simples que devemos dar, durante a Missa ou o momento de nos levantarmos, nos sentarmos, nos ajoelharmos. E, infelizmente, muitas vezes, estando na Missa, estamos mais preocupados com a sua duração do que com o seu conteúdo – quanto mais curta, melhor!

Num momento em que os mísseis conseguem percorrer milhares de quilômetros para atingirem os seus alvos e que tantas vidas são cruelmente ceifadas por uma terrível guerra que comove o mundo – e nos põe em estado de alerta para um mal maior – deveríamos simplesmente voltar a ter uma roupa de ir à Missa que, muito mais do que um traje decente para comparecer à casa de Deus, significa estarmos com a alma revestida de amor e adoração Àquele que, do Céu, veio ao mundo, se fazendo homem e dando a sua carne, o seu sangue e a sua vida por nós – pelas vítimas dos mísseis e também pelos criadores e dispersores dos mísseis.

O mínimo que podemos fazer, ainda que uma única vez na semana, é participar do Divino Sacrifício, a fim de que a Santa Missa renove em nós o milagre da redenção.

É bom estarmos preparados, pois, assim como a Ucrânia não esperava por essa invasão destruidora, nós também não sabemos em que momento poderemos nos tornar alvos, porque há mísseis suficientes para serem enviados a todas as partes do mundo…

Quanto os moradores de Kiev não dariam, hoje, para poderem assistir a uma Santa Missa, eles que tiveram a tristeza de ver a sua magnífica Catedral de Santa Sofia, que é uma das mais belas igrejas do mundo, ser transformada em museu, tornando-se “patrimônio da humanidade” e, lamentavelmente, deixando de ser patrimônio de Deus, num paradoxo entre a sofia (sabedoria) de Deus e a ágnoia (ignorância) dos homens.

Tire a sua roupa de missa do armário da sua indiferença, sacrifique a sua preguiça e a sua má vontade, jogue fora as suas desculpas gastas e repetitivas e vá à Missa! Viva intensamente o Sacramento da Sagrada Eucaristia e deixe que Deus faça por você o que você não pode fazer por si mesmo. Dessa forma, nenhum míssil será capaz de lhe destruir.

Por Afonso Pessoa

 

 

 

 

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